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A Lua não é aqui

Flor de Sal

Margarida Rebelo Pinto

Getty Images

Entre o desejo de conquista e a vontade de construir algo a dois, a distância é hoje em dia cada vez maior. Talvez tão grande e tão utópica como a ida à Lua em 1969. O que se está a passar na cabeça dos homens e das mulheres? O que se passa é que anda tudo um bocado no mundo da lua. Margarida Rebelo Pinto, no Flor de Sal desta semana

Quantas vezes as coisas mais simples são as mais difíceis de alcançar? O homem aterrou na lua antes de inventar as malas de rodinhas. É claro que, uma vez com os pés em solo lunar, não precisou de rodinhas, graças à ausência da lei da gravidade, bastou-lhe levantar uma perna para dar um salto de gigante. Neil Amstrong disse: um pequeno passo para o homem e um passo gigante para a Humanidade. Eu acredito que foi exatamente o oposto. O passo dele foi imenso e, no entanto, a ida à Lua não trouxe à Humanidade a cura de nenhuma epidemia, ou fim da guerra entre os homens, nem tampouco levou à limpeza do plástico nos Oceanos. No fundo serviu uma guerra de egos, uma competição entre duas potências, URSS, versus USA na conquista do espaço, uma rixa entre titãs, ganha quem conseguir espetar a primeira bandeira. Todos queremos ir à Lua, mas raramente levamos conseguimos transportar a nossa bagagem emocional com leveza e sem culpa.

Entre o desejo de conquista e a vontade de construir algo a dois, a distância é hoje em dia cada vez maior. Talvez tão grande e tão utópica como a ida à Lua em 1969. O que se está a passar na cabeça dos homens e das mulheres? O que se passa é que anda tudo um bocado no mundo da lua. As pessoas têm cada vez menos capacidade, ou vontade, ou as duas coisas, de se concentrarem seja no que for. E as relações levam por tabela.

Hoje é normal ter um livro aberto (para aqueles que ainda têm o hábito da leitura), assistir a um episódio de uma série da Netflix, cozinhar o jantar e trocar WhatsApps com duas ou três pessoas ao mesmo tempo. Pelo meio, conseguimos fazer um post no Instagram e deixar um recado no Messenger. Agora somos todos espetaculares porque funcionamos todos em rede. Conseguimos fazer não duas, mas várias coisas ao mesmo tempo. Sentimos-mos na pele de Super Heróis do novo milénio, embora em muitas situações sejamos vexados pelos nossos filhos, que conseguem fazer tudo isso mais depressa do que nós. Mas não queremos perder a onda, precisamos de sentir que não são só os nossos smartphones que estão em permanente atualização, nós também. É fundamental estar na rede e fazer parte dela. E é por isso mesmo que depois somos apanhados na rede do caos e da confusão.

Quando Italo Calvino foi convidado pela Universidade de Harvard em meados dos anos 80 para apresentar uma série de conferências sobre as tendências do próximo milénio, enumerou-as sem dificuldade, chamando-lhes Memos, traduzidas para português como Propostas. São elas a leveza, a rapidez, a exatidão, a visibilidade, a multiplicidade e a consistência. A morte levou-o antes de escrever a última e ironicamente, depois de duas décadas do novo milénio, esta parece afinal não fazer sentido. Pelo menos no que respeita às relações humanas, sejam elas sociais, profissionais, familiares ou amorosas.

Nunca o amor foi vivido e forma tão líquida e pouco consistente, nunca, como agora, foi tão difícil construir uma relação sólida a partir de uma história de amor. A fase da conquista, a magia da sedução, a vontade de arriscar, a capacidade de sonhar, o desejo de dar e de receber mantêm-se vivos no ser humano. O homem continua a ter prazer em caçar, a mulher continua a fazer o jogo de se deixar apanhar. Como escrevi há uns anos, o namoro é quando um homem anda atrás de uma mulher até ela o apanhar. O problema é que, hoje em dia, até namorar está a ficar fora de moda, ou fora de mão, mas certamente fora da vida. As pessoas cruzam-se, conversam o mínimo para ter uma vaga ideia um do outro, podem ou não andar aos encontrões, e depois cada um segue a sua vida. Existe pouca consistência e muita inconsequência. É o estado geral das coisas e não há como negá-lo.

A consequência mais direta desta forma de ser errática e aleatória é o cansaço. Mas outras se seguem. A cada esperança seguida de desilusão, a mala de rodinhas fica mais cheia e o coração ficará, inevitavelmente, mais pesado.

Quanto pesa um coração? Pesa uma vida inteira de esperas, de sonhos perdidos, de desilusões. E toda essa confusão interna e secreta que a cabeça não consegue arrumar, porque o abismo entre aquilo que projetamos e aquilo que conseguimos realizar sendo cada vez maiso. Já fomos à Lua, mas não ficámos lá, sem atmosfera nem gravidade não tínhamos como. Nas últimas décadas, sabendo que não tínhamos uma segunda terra para viver, continuámos a rebentar com os recursos existentes e poluir o nosso quintal. Em termos económicos, políticos e ecológicos não só não fomos eficientes e conscientes, como estamos, nos últimos anos, a andar para trás.

Afinal, de que nos servem a liberdade de escolha de um parceiro ou de um amor, se depois não conseguimos assumir um compromisso? E de que nos serve ter ido à Lua se estamos literalmente a rebentar com a nossa Terra? Misturo amor com sustentabilidade e compromisso com economia, não porque goste de salada mista com morangos, mas porque não há coisas nem grandes nem pequenas, para mim são todas importantes.

Precisamos de ser tão cuidadosos a reciclar o plástico como a cuidar do nosso coração. Precisamos de proteger o planeta como protegemos os nossos filhos. Precisamos de tino e de juízo, de rodinhas na vida antes de pensar que andar na Lua é que é bom. Não é. O que é bom é ter os pés na terra e construir o futuro, com a cabeça limpa e o coração aberto. É já agora, com foco na escolha. No fundo, tudo tem a ver com a responsabilidade com que exercemos a liberdade que temos. No amor, na família, na sociedade, na vida.

Margarida Rebelo Pinto

Margarida Rebelo Pinto

Margarida Rebelo Pinto é uma das mais famosas escritoras nacionais, com 26 livros publicados, 16 dos quais romances, e com mais de um milhão de exemplares vendidos numa carreira de 30 anos. Margarida decidiu que ia ser cronista quando tinha apenas 10 anos e leu As Farpas e os textos de Manuel Portugal no Tempo. Publicou a sua primeira crónica no primeiro número d’ O Independente, como cronista-mistério: chamava-se Miss X 22, a sua idade à época. Gosta de comida japonesa, de ir ao ginásio cinco vezes por semana e é viciada em sms. Escreve na visão.pt sobre sexo, amor e bom senso, com uma pitada de flor de sal. Porque a vida sem sal não tem graça nenhuma…