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Elogio do pau santo

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Esta semana, Margarida Rebelo Pinto escreve sobre o "pau santo": Um pau santo é um pau sossegado, que não anda à procura de aventuras, que é feliz com o que tem, que por norma não trai nem mente, não porque não sofra de tentações como qualquer ser humano, mas porque prefere viver em paz"

Apeteceu-me voltar ao tema da minha primeira crónica, desta vez para falar de um tipo específico que homem que, não sendo o mais comum, é talvez o mais interessante, pelo menos para mim, que tive a sorte de ser nada e criada numa família de bons rapazes.

O que define um bom rapaz nos dias que correm? Serão assim tão diferentes dos heróis estóicos dos romances de Jane Austen, ou dos meninos bem-comportados das novelas de Odette de Saint-Maurice que pontuaram a minha geração de sonhos e de ideais? No seu mais famoso livro, Um Rapaz às Direitas, todas suspirávamos ao ler as descrições de Pedro, com os seus olhos verde-azeitona, a sua palavra ponderada e a atitude sempre correta e adequada a cada ocasião. Mais importante do que ser um bom rapaz, Pedro queria ser um bom rapaz, e isso fazia toda a diferença.

Tal como quando um barco sai da marina é bom que saiba em que direção vai, navegando com uma determinada intenção, assim é regida a vida de um bom rapaz. Um bom rapaz quer, acima de tudo fazer o que está certo. Certo para a sua família, pais, irmãos, mulher e filhos, porque isso é o que é certo para ele. O bom rapaz realiza-se na paz e na organização da sua vida. E isso reflete-se num profundo amor à arrumação das várias vertentes da sua existência. O bom rapaz é aquele tipo que, mesmo que tenha a secretária desarrumada, tem as camisas penduradas por cores, os sapatos engraxados e as gravatas criteriosamente enroladas. Um homem arrumado é um homem concentrado, perfecionista, por vezes obsessivo, porque aquilo que lhe traz sossego e descanso é ter a vida em ordem, se possível desenhada a régua e esquadro. Ele é eficiente, termina as tarefas a que se propõe antes do tempo que deu a si mesmo, gere uma agenda caótica como quem atira várias laranjas ao ar sem deixar cair nenhuma e ainda tempo para ir ao ginásio e ao barbeiro. Ora a questão da arrumação serve para tudo na vida, desde os boxers dobrados e empilhados às mulheres, porque umas das principais características que definem um bom rapaz é a sua capacidade e gosto em se concentrar na sua mulher. Ainda que pareçam aves raras, conheço uns quantos e, pasmem-se os espíritos mais cínicos, estes bons rapazes são quase sempre bastante felizes com as suas escolhas. O meu avô viveu feliz apaixonado pela a minha avó mais de 70 anos. O meu pai sempre encontrou a felicidade na grande paixão pela minha mãe. O meu amigo André vive há 15 anos encantado com a sua Sara. Todos estes homens tiveram ou têm as suas carreiras seguras e firmes, porque existe neles uma capacidade de construir de forma sólida aquilo que mais prezam e, consequentemente, de valorizar e de estimar tudo aquilo que vão construindo.

A bióloga e estudiosa do amor Helen Fisher define os homens em quatro tipos: o Explorador, o Construtor, o Diretor e o Negociador. Estas denominações são particularmente felizes porque falam por si. Segundo Helen, o Explorador tem como hormona de regência a dopamina, que o faz procurar novos desafios. O Construtor precisa de serotonina e tende, por isso, a ser cauteloso e a respeitar a autoridade. Cada um destes tipos prefere uma parceira que seja do mesmo tipo. O Diretor e o Negociador, pelo contrário, procuram tipos diferentes. O primeiro é analítico, carismático, líder por natureza, dotado de raciocínio claro e cirúrgico. A sua hormona de eleição é a testosterona e procura uma parceira que seja intuitiva, com aptidões sociais, feminina e cuidadora. O Negociador, que tem índices elevados tanto de testosterona como de estrogénios, procura uma mulher segura, determinada e protetora.

Seria redutor considerar se cada um destes tipos é ou não um Macho Alfa, porque ser Alfa tem muito que se diga. Há homens que dirigem empresas com centenas de pessoas e em casa fazem tudo o que a mulher manda. Há outros que, tendo um cargo subalterno no trabalho, fazem do lar o seu pequeno reino ditatorial. Ou outros ainda, que, com carreiras profissionais mais ou menos incipientes e/ou desinteressantes, procuram na conquista emocional a sua grande realização. Citando um dos meus bons rapazes preferidos no planeta, para ser malandro, é preciso tempo. Acredito que um rapaz às direitas é mais o primeiro tipo. Ele vive concentrado e focado nas suas prioridades: trabalho, realização profissional e familiar, saúde e boas condições de vida para aqueles que ama, uma vida calma, organizada e tranquila. Antes da brincadeira, o trabalho, antes do prazer, o dever. E esta forma de estar também se estende à vida íntima e sexual.

Um pau santo é um pau sossegado, que não anda à procura de aventuras, que é feliz com o que tem, que por norma não trai nem mente, não porque não sofra de tentações como qualquer ser humano, mas porque prefere viver em paz. Já que sai todos os dias cedo para enfrentar as guerras do mundo, quando chega a casa, quer paz e sossego. Quer ver uma série, brincar com os filhos e que não o chateiem. Deixa o telefone na mesa da entrada e só regressa à guerra do mundo no dia seguinte. Quer o descanso do guerreiro. E tem mais que fazer do que dar crédito ou conversas a quem quer que apareça com o intuito de desviá-lo do seu caminho.

Cultivar o charme do quotidiano e aprender a amar aquilo que temos é mais seguro e revela mais inteligência do que saltar de nenúfar em nenúfar em busca de um ideal impossível de alcançar. Tal como o corpo perfeito é aquele que amamos, a casa que reconstruímos é aquela onde nos sentimos mais em casa, gostar daquilo que é nosso é o que nos conduz à paz interior.

É o erotismo que atrai, mas é a virtude que agarra, e isso aplica-se tanto a mulheres como a homens. Na dúvida entre um homem que nos dê segurança e estabilidade, ou um palerma que nos vais cansar, mais vale a solidão paciente de uma espera voluntária, porque também é preciso ambição no amor. Olhos no presente e confiança no futuro, esperando que um bom rapaz que saiba manter a braguilha fechada perante um desafio inconsequente apareça para construir alguma coisa de jeito. Ou o pleno, ou nada, a vida é demasiado curta para gastar cartuchos em patos desorientados.

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Margarida Rebelo Pinto

Margarida Rebelo Pinto

Margarida Rebelo Pinto é uma das mais famosas escritoras nacionais, com 26 livros publicados, 16 dos quais romances, e com mais de um milhão de exemplares vendidos numa carreira de 30 anos. Margarida decidiu que ia ser cronista quando tinha apenas 10 anos e leu As Farpas e os textos de Manuel Portugal no Tempo. Publicou a sua primeira crónica no primeiro número d’ O Independente, como cronista-mistério: chamava-se Miss X 22, a sua idade à época. Gosta de comida japonesa, de ir ao ginásio cinco vezes por semana e é viciada em sms. Escreve na visão.pt sobre sexo, amor e bom senso, com uma pitada de flor de sal. Porque a vida sem sal não tem graça nenhuma…