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Teresa Temudo

Teresa Temudo

Neuropediatra

Sapatos novos

Carlos Luis Camacho/ Getty Images

Como um par de sapatos que magoam pode estragar um dia de festa, ser um "tratamento" contra "problemas ridículos" e até pregar um grande susto a uma mãe confrontada com um possível diagnóstico de alterações neurológicas da filha de dois anos. Décima nona crónica do blogue 'Cuidando e contando: crónicas de uma neuropediatra', da autoria de Teresa Temudo

Este ano decidi que não vou usar sapatos apertados. Tenho o complexo de Imelda Marcos. Adoro comprar sapatos e tenho a sensação de que não são todos do mesmo sexo, pois parecem multiplicar-se nos meus roupeiros. A maioria magoa-me. Sempre me disseram que os pés crescem com a idade, mas eu não acreditava. Afinal é mesmo verdade e, ou corto a ponta dos dedos ou a parte da frente dos sapatos. Ou me livro deles.

Fiz uma seleção, pu-los de parte, meti-os nas respectivas caixas e ofereci ou vendi muito barato.

Quando será que eu aprendo a não comprar sapatos apertados? Nunca, mas nunca, consegui usar uns sapatos que me magoavam na loja.

- A senhora vai ver, usa-os duas vezes e deixam de magoar; calça-os em casa com umas meias grossas e eles alargam; põe creme nos pés e calça-os, está resolvido o problema; leva-os ao sapateiro e ele mete-os no alargador; a pele é da que cede, mais vale comprá-los apertados do que ficarem-lhe umas chancas.....e por aí em diante.

Qual quê? Tudo tretas! Sapatos e maridos é tudo a mesma coisa. Quando decidimos ficar com eles têm que estar à nossa medida, senão, nunca mais.

Uma vez comprei uns sapatos lindíssimos que me magoavam ao fim de uma hora de uso. Disseram-me que se os metesse no congelador uns dias a pele ficaria mais macia. Assim fiz e esqueci-me deles. Qual não foi a surpresa do meu marido quando, ao ir buscar umas alheiras ao congelador, deparou com uns sapatos vermelhos! O engraçado é que, desta vez, nem se irritou com as minhas excentricidades. Ao jantar, com muito cuidado, perguntou-me porque é que os sapatos estavam no congelador. Lá lhe expliquei a razão e ele suspirou aliviado. Julgava ele que aquele poderia ser um primeiro sinal de uma demência precoce e por isso ficou contente quando eu respondi, mostrando que me recordava de o ter feito. Bom, claro que os ditos sapatos continuaram a magoar-me mas são tão, tão lindos, que os reservei para “tratamentos”. Eu explico. Quando tenho um problema ridículo que me não sai da cabeça e me está a incomodar muito, calço-os durante uma horas. Ao doerem-me os pés deixo de pensar naquilo e quando finalmente os descalço sinto uma alegria enorme.

Eu gosto da roupa larga e confortável, de sapatos macios, de gente com que me sinto à vontade, que aceita os meus defeitos como eu tolero os deles, de gente que ri e mostra os dentes, de gente imperfeita como eu.

Há algo mais assustador que uma pessoa perfeita? Não há, pois não? Aquelas pessoas que nos convidam para jantar em sua casa ao fim de um dia de trabalho e abrem a porta impecavelmente vestidas e penteadas, a casa arrumadíssima, limpíssima, lindíssima, os filhos loiros e de olhos azuis, vestidos de inglesinhos, todos xadrez e sapatos Oxford, mesa posta com vinte talheres ao lado de cada prato, toalha de renda, flores frescas, guardanapos de linho, copos de cristal, serviço de porcelana delicada. Ficamos logo sem jeito, sentimo-nos torpes e desajeitados, falamos pelos cotovelos, rimos alto de mais, engasgamo-nos à mesa e entornamos o vinho. Agora imaginem outro cenário. A dona de casa abre a porta um pouco despenteada mas muito sorridente, avisando-nos que o jantar está muito atrasado, a mesa ainda nem está posta, abre uma garrafa de um bom vinho , põe um cd da Amy Wynehouse e leva-nos para a cozinha, onde todos ajudamos. Que noite maravilhosa!

E os sapatos, voltando aos sapatos, é mesmo uma pena que eu não possa usá-los, se há coisa que eu gosto é de sapatos, rasos, de meio salto largo, de salto fino, delicados, de bom ar, de boa pele. Mas agora gosto mesmo mais é de andar na rua sem dores, de poder assentar todo o pé no chão, de ir a lugares, de ver coisas, de sentir os cheiros, o sol a bater-me na cara, as gaivotas aos guinchos, o mar às cambalhotas. Tenho uma amiga que, quando vai a casamentos, toma seiscentos miligramas de “Brufen” antes de calçar sapatos novos. Compra sempre um número abaixo, adora pés pequenos, diz que mulher que é mulher não passa do trinta e seis. Pois vai linda, é sempre a mais elegante, mas não fala, não come , não dança. O tempo todo com dores atrozes nos pés. Tem sempre um ar sofrido e enjoado e faz um esgar com a boca. Perguntam-lhe que tem, passam-lhe um braço pelos ombros julgando que um namorado a desprezou, que perdeu o emprego, que lhe morreu a gata, chegam mesmo a apontar-lhe a casa de banho, adivinhando-a com cólicas e ela, contorcendo-se estranhamente e a custo, num murmúrio entrecortado por ais, responde que está tudo bem. Dizem-na uma snob, que não gosta de misturar-se, que faz um esgar de desprezo, que nada lhe agrada, uma esquisita. Coitada, tudo dor de calos!

Sapatos. Ah, os sapatos, minha paixão e tormento! Outro dia chamaram-me à urgência para observar uma menina de dois anos que se recusava andar. Parece que até àquele dia a criança tinha sido normal. Começara a andar aos 12 meses e já corria, subia e descia escadas, trepava aos sofás. Acordou bem, tomou o pequeno almoço e foi para o infantário. Ao meio dia uma educadora telefonou à mãe, dizendo que ela começara a andar mal e que passara a maior parte do recreio sentada. A mãe fora buscá-la e trouxera-a aflita à urgência de pediatria. Já lhe tinham colhido sangue e urina e hesitavam em pedir uma ressonância cerebral e em seguida fazer-lhe uma punção lombar. Mas decidiram pedir antes a minha opinião. As pediatras que me apresentaram o caso discordavam na caracterização das alterações neurológicas: uma dizia que a marcha era espástica, a outra atáxica. Decidi ver a criança.

A mãe já chorava, assustada com a discussão de hipóteses de diagnóstico que ouvira às duas jovens pediatras. A menina, parecia tirada duma revista: muito penteadinha, um grande laçarote azul claro no cabelo, camisinha branca de gola com folhinhos, pulôver azul, saiinha xadrez, meias até ao joelho e sapatos de presilha em verniz. Sentada ao lado da mãe, tinha um ar muito saudável e feliz.

Acalmei a mãe e colhi de novo a história. Tal e qual como me tinham contado. Decidi começar pelo fim do exame neurológico e analisar a marcha. Para isso, pedi à mãe para caminhar em direção à porta de saída, de forma à criança a seguir. A menina desceu da cadeira e começou a andar. Parecia estar a pisar ovos. Com as pernas um pouco afastadas, poisava com cuidado os pés no chão e, cautelosamente e com alguma hesitação, lá foi avançando, a custo.

De repente tive uma ideia.

- Desde há quanto tempo ela tem estes sapatos?

- São novinhos em folha. A madrinha ofereceu-lhos ontem.

Descalçamo-la e repetimos a manobra anterior. De pés descalços, atrás da mãe, começou a correr normalmente.

Dei uma gargalhada.

- Minha senhora, já tenho o diagnóstico: sapatos novos!

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Teresa Temudo

Teresa Temudo

Neuropediatra

Pediatra e Neuropediatra no Centro Hospitalar do Porto. Doutorada em Ciências médicas. Professora de Pediatria no curso de medicina do ICBAS. Investigadora em doenças de movimento na criança e perturbações do espectro do autismo. ( Todas as histórias que envolvem doentes são ficção, baseada em casos reais e na prática clínica da autora)