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Teresa Temudo

Teresa Temudo

Neuropediatra

Mais dias de nada

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Décima nona crónica do blogue 'Cuidando e contando: crónicas de uma neuropediatra', da autoria de Teresa Temudo

Ufa, chegamos!

Desligo o rádio e olho para trás. Já era de estranhar tanto silêncio.... Sofia e Isabel dormem, cabeça contra cabeça, boca aberta, dois anjinhos.

Ligo outra vez o rádio à espera que acordem. O dia foi longo. Para mim e para elas. Às sete fora da cama, às oito fora de casa, às oito e trinta na escola, às dezasseis fora da escola, às dezasseis e trinta fisioterapia da Sofia, depois natação da Isabel, dezanove ainda no carro.

- Mãe, já deu o “Dó-li-tá”?

- Penso que está a começar. Acorda a Isabel, se querem ver.

Isabel chora com sono. Quatro sacos, casacos a minha carteira e pasta.

Em casa finalmente. “Que vamos comer?”. Elas escolhem e eu ponho-me a cozinhar. O pai chega, entretanto. Estoirado.

Jantamos.

- Meninas, lavar e cama.

- Só mais um niquinho....

- Seja!

Pijamas vestidos, camas abertas.

- Mãaae, a históoooria....

Quase adormeço a ouvir-me. “Era uma vez...”

- Conta mais uma!

- Hoje não, estou muito cansada. Amanhã conto. Contem vocês uma à mãe.

Silêncio. Deitadas no beliche, a Sofia em baixo, a Isabel em cima, oiço-as respirar enquanto pensam.

-Mãe, sabes que hoje morreu o peixinho da nossa sala? Fizemos um enterro.

-Puseram-no num caixãozinho?

-Não, metemo-lo na terra ,assim. A Goreti diz que foi para o céu.

Silêncio.

-Mãe, como é que o peixinho voa para o céu se não tem asas?

-Não sei, filha.

-Ó Sofia, não vês que é o Jesus que vem buscá-lo e o leva na mão?

-Mas o Jesus também não tem asas. Os anjos é que têm .

-Pois é. Então como voam, Sofia?

-Já sei, Isabel. O Jesus pega numa caixinha, põe-lhe um volante, pousa o peixinho a um canto e voam até ao céu. Num é, mãe?

-Deve ser, Sofia.

-Ó mãe, mas o peixinho no céu fica outra vez vivo?

-Fica, Sofia.

-Ó mãe , mas lá no céu não tem água! Como é que ele vive?

-O Jesus arranja-lhe água - diz a Isabel

-Mas depois a água cai-nos em cima da cabeça!

- É a chuva - diz a Isabel.

-Ó mãe, no céu as pessoas comem?

- Não sei Sofia, penso que sim.

-Ó mãe, já imaginaste se comem ovos estrelados e o prato cai? Vai-nos cair na cabeça!

Rimos as três.

- Bem, agora toca a dormir! Amanhã temos que nos levantar muito cedo.

A Sofia diz:

- Que bom mãe, amanhã é dia de nada.

- “De nada”, Sofia?

- Não tenho fisioterapia!

Sinto um arrepio. Que andamos nós a fazer? Lembro-me de uma conversa que tive há pouco com uma amiga em que falávamos de “meninos executivos”. Os meninos do ballet, música, inglês, karaté, iniciação à computação, natação, ténis, vida social ao fim de semana. Revejo os meus dias e os das minhas filhas. Será que não podemos abrandar um pouco? Perderemos assim tanto? Claro que a fisioterapia lhe faz muita falta, mas mesmo assim...Ela tem pouco tempo para brincar.

- Queres mais “dias de nada” , Sofia?

- Dás-mos, mãe?

- E porque não? Agora, dormir! A mãe ainda tem muito trabalho antes de ir para a cama.

Faz a dobra do lençol, puxa bem os cobertores e aconchega-os à volta dos corpinhos dando-lhes pancadinhas no rabo, retira-lhes os cabelos debaixo da cara e puxa-os para cima, dá-lhes mil beijinhos pela cara toda.

- Durmam bem meus amores.

Mais beijinhos, fecho a luz, encosto a porta.

A roupa por estender, arrumar a cozinha, fazer as mochilas para a aula de ginástica, corrigir os testes dos alunos. De repente, sente-se sem forças. Ouve barulho na cozinha. O marido arrumou-a, entretanto. Vai à lavandaria e a roupa também já está estendida. Faz as mochilas. Faltam os testes. Meu Deus, que sono! O marido já está no sofá a ver o “Seinfeld “. Dá gargalhadas com gosto e ela sorri só de olhar para ele. Lembra-se da filha. “Mais dias de nada”. Toma uma decisão.

-Vou já para a cama ler. Espero por ti.

Pisca-lhe o olho e atira um beijo no ar.

Noite de nada.

Teresa Temudo

Teresa Temudo

Neuropediatra

Pediatra e Neuropediatra no Centro Hospitalar do Porto. Doutorada em Ciências médicas. Professora de Pediatria no curso de medicina do ICBAS. Investigadora em doenças de movimento na criança e perturbações do espectro do autismo. ( Todas as histórias que envolvem doentes são ficção, baseada em casos reais e na prática clínica da autora)