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Teresa Temudo

Teresa Temudo

Neuropediatra

E se?

Décima quinta crónica do blogue 'Cuidando e contando: crónicas de uma neuropediatra', da autoria de Teresa Temudo

Queixamo-nos de tudo. De falta de tempo. De tempo a mais. Da ausência. Da presença excessiva. Do trabalho. Da falta dele. Dos filhos. Da sua partida. Queixamo-nos de qualquer forma. E, entretanto, o tempo passa e perdemos tempo . Tempo que podia ser aproveitado para fazer algo de bom.

Ao fim da tarde, quando regresso a casa, é frequente ver à janela senhoras de meia idade em camisa de noite, com um olhar desolado a ver quem passa. Senhoras cujo tempo é ditado pelos horários das novelas, que só saem de casa para pintar o cabelo ou ir ao supermercado. Senhoras que às vezes já não sabem em que dia do mês estão, ou o nome do seu primeiro-ministro. É este o resultado da solidão. Falo em senhoras mas poderia igualmente falar de senhores. Muitos senhores que vivem de pijama às riscas em frente da televisão, à espera que um filho ingrato os convide para almoçar no domingo. Ou que passam tardes sentados em sofás de centros comerciais, à espera que a morte se lembre deles.

Mas… e se…?

Tenho na minha consulta uma família que mete dó. A Alice tem uma paralisia cerebral severa, atraso mental e epilepsia. Anda em cadeira de rodas e é a mãe que vem com ela à consulta. São a cópia uma da outra. Muito morenas, de um tom esverdeado, cara redonda, cabelo preto e muito liso com um corte “à malga” , olhos pequeninos e juntos, lábios finos, baixinhas e magras. A mãe vem quase sempre a chorar e quando o não faz a sua voz é lamurienta. Olha-me com a cabeça baixa e lá vai desenrolando todas as desgraças que lhe aconteceram desde a última consulta. O marido é um alcoólico deprimido e está sempre “de baixa”. Insulta-a e por vezes bate-lhe, mas nem, assim o quer deixar. Ela trabalha numa confeitaria cerca de 12 horas diárias, incluindo sábados e só ganha o ordenado mínimo. Não reclama com medo de perder o emprego. Já envolvi a Assistente Social da consulta, tendo conseguido um programa de desintoxicação alcoólica para o marido. Resultou por uns tempos mas pouco depois voltou tudo ao mesmo. Vê-se aflita para deixar a filha enquanto trabalha e não confia no marido para tomar conta dela. Paga a uma vizinha para o fazer após o horário escolar e até ela chegar a casa. Anda sempre estoirada, exausta, curvada e triste. A família não quer saber dela. Não tem amigos. Só a filha e o marido. E que marido!

Há um mês veio novamente à consulta. Desta vez vinham acompanhadas com uma senhora de bom aspeto, uns sessenta e tal anos, risonha, faladora e com ar despachado.

- É terapeuta da Alice? – perguntei.

- Não, sou amiga. Conhecemo-nos na sala de espera da fisioterapia.

Fiquei curiosa e decidi repetir o fim da última frase, técnica usada para obter mais informações….

- Eu acompanho o meu marido à fisioterapia e conheci lá a Alice e a mãe. Conhecemo-nos enquanto esperávamos. Palavra puxa palavra, demo-nos conta que a mãe da Alice fazia um sacrifício enorme para a trazer à fisioterapia. E que havia também outras dificuldades. Ora nós já estamos reformados e o nosso filho trabalha no estrangeiro. Vamos ao ginásio e estamos numa universidade da terceira idade, mas só isso não chegava. Temos muito tempo livre. Um dia à noite decidimos oferecer a nossa ajuda a esta família. Felizmente a mãe da Alice aceitou. Vamos buscar a menina à escola, levamo-la às terapias e em seguida fica na nossa casa até a mãe voltar do trabalho. Às vezes já vai para casa de banho tomado e jantada. Gostamos muito dela. É a nossa neta adotada.

- Que bonito! – exclamei comovida.

Continuei a consulta. A mãe da Alice, ombros curvados, olhos lacrimejantes, lá ia continuando a contar as ocorrências desde a última consulta: que a Alice agora se babava mais, que tinha tido três pequenas crises epiléticas, que não dormia de noite, que o marido recomeçara a beber depois da desintoxicação, que a patroa a explorava e a obrigava a trabalhar horas extra não remuneradas … Enquanto isso, dona Graça tinha colocado Alice na marquesa e trocava-lhe a fralda. Ao mesmo tempo ia falando com ela carinhosamente e após a sentar novamente na cadeira de rodas deu-lhe um beijo na face. Tal como uma mãe faria, pensei.

No fim, dona Graça ainda me perguntou se podia levar a Alice à hidroterapia e que tinha ouvido falar de uma dieta especial que talvez a pudesse ajudar. Foi ela que ficou com o papel onde estava registada a data da próxima consulta. Dobrou-o em quatro e guardou-o na sua carteira.

Lembrou-me um outro caso de uma mãe adotiva de uma minha doente com uma doença degenerativa. Uma senhora que tinha sido mãe de acolhimento, paga pela segurança social, de uma menina abandonada por uma prostituta. Tinha ido para casa dela com menos de um mês e tudo parecia bem. Com um ano de idade começou a perder todas as aquisições a ter um comportamento autista, deixou de se sentar, de usar as mãos, gritava dia e noite. Foi-lhe diagnosticado uma síndrome de Rett. Pois esta senhora, perante aquilo que faria a maioria devolver esta criança à segurança social, decidiu adota-la definitivamente. Mais tarde vim a saber que já tinha adotado também dois irmãos que lhe tinham sido entregues temporariamente pela segurança social. Estavam em sua casa há 2 anos quando foram chamados para ser colocados numa outra família de acolhimento. O rapaz, o mais velho, na altura com oito anos, agarrou-se a ela a chorar e disse-lhe:

- Tu que és grande, como podes deixar que nos façam isto?

Falou com o marido e decidiram adota-los, apesar de terem dois filhos biológicos. São já adultos e a rapariga, que se casou entretanto, já tem um filho.

Este casal não tem muitas posses. É gente simples, remediada, mas na sua casa não falta comida na mesa, muita educação e amor. Cada vez que esta senhora vem à minha consulta com a última filha adotada, transportando-a em cadeira de rodas, acompanhando-a nos inúmeros internamentos, administrando-lhe de oito em oito horas os medicamentos, dando-lhe a comida passada, mudando-lhe fraldas, eu relembro que neste mundo também existe gente muito boa.

Há muitas formas de ajudar. Pode ser uma vizinha, uma colega, um amigo, um desconhecido. Pode ser de uma forma organizada ou pontual. Pode ser uma troca de serviços. Pode ser uma dávida monetária. Pode ser apenas com a nossa companhia. O importante é doar sem esperar uma recompensa. Dar por dar. Apenas por generosidade. E não o alardear. Como diz o ditado “caridade e amor não querem tambor”.

Os hospitais, os lares de terceira idade, as instituições de crianças abandonadas, são locais onde podemos ajudar de diversas maneiras. Conheço várias senhoras de mais de oitenta anos que trabalham de forma muito “profissional” em ligas de amigos de hospitais. Vêm regularmente trabalhar alguns dias por semana, visitam doentes, servem alimentos, costuram, tricotam, participam em campanhas de angariação de fundos, ajudam muita, muita gente. Provavelmente todas tiveram motivos diferentes para começar a trabalhar como voluntárias mas, seguramente, o que as fez continuar foi o mesmo: sentem-se bem ajudando os outros. Porque a mensagem é esta: fazer bem faz bem.

Atrevam-se então hoje a pensar:

- E se?

Turiz, 21 de Setembro 2018

Teresa Temudo

Teresa Temudo

Neuropediatra

Pediatra e Neuropediatra no Centro Hospitalar do Porto. Doutorada em Ciências médicas. Professora de Pediatria no curso de medicina do ICBAS. Investigadora em doenças de movimento na criança e perturbações do espectro do autismo. ( Todas as histórias que envolvem doentes são ficção, baseada em casos reais e na prática clínica da autora)