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Teresa Temudo

Teresa Temudo

Neuropediatra

Espírito de luz e correntes de energia

Getty Images

"Ah doutora, não sabe que eu tenho poderes? Tenho espírito de luz e correntes de energia. O padre da minha freguesia até chorou, quando lhe disse. Agora vai lá tudo a minha casa". Décima segunda crónica do blogue 'Cuidando e contando: crónicas de uma neuropediatra', da autoria de Teresa Temudo

O Inácio “cantor” teve uma asfixia durante o parto. Veio à minha consulta com meses, por causa das convulsões. A mãe, mulher simples, gaspeadeira de sapatos, nunca fez daquilo um drama e aceitou os problemas do filho como mais uma coisa menos boa que a vida lhe dava. O Inácio lá foi crescendo, com o seu atraso mental moderado, o suficiente para um dia “trabalhar nas obras” e uma epilepsia mais ou menos controlada pelos medicamentos. Gostava de cantar e, lá na terra, deixavam-no fazê-lo nos bailes dos bombeiros.

Foi medrando “inocente” mas feliz. Um dia vieram à consulta muito excitados, mãe e filho não continham o riso. “Diz à doutora. Vá lá, não tenhas vergonha - dizia a mãe orgulhosa.”

O Inácio lá desembuchou e disse:

- Tirei o virgo à minha vizinha!

Não esperava por aquela.

- Fizeste o quê? – perguntei com a expressão franzida.

- Tirei o virgo à minha vizinha!- repetiu a gritar.

A mãe sorria, orgulhosa da “machesa” do filho.

- Ao menos usaste preservativo?

- Usei. Eu tive “sexual” na escola! – respondeu com ar superior.

Decidi mudar de assunto e enveredei pelos problemas de saúde e as doses dos medicamentos. Às tantas a mãe interrompeu-me:

- A doutora está com mau ar! Quer que eu lhe passe energia?

- E como ? – perguntei a rir.

- Ah doutora, não sabe que eu tenho poderes? Tenho espírito de luz e correntes de energia. O padre da minha freguesia até chorou, quando lhe disse. Agora vai lá tudo a minha casa. Até já fiz um anexo só para atender toda aquela gente. Andavam aquelas crianças nas “psicólicas” há um ror de tempo e nada! Ponho-lhes a mão na cabeça, passo-lhes energia e ficam logo boas. Só numa consulta. Tinha uma vizinha que ia todos os anos a Fátima de “penegrina” por via das dores do lumbago do marido. Deitei-o no anexo, pus-lhe a mão nas costas e a dor foi-se. Esse deu-me mais trabalho, foram precisas três consultas para o por bom...

Decidi provocá-la.

- E porque não trata o Inácio?

- Ah, não posso, doutora. O Inácio tem energia a mais. Tem epilepsia.

- Pois, tem razão – aquiesci.

- Mas fora a epilepsia, trato quase tudo. É só por-lhes a mão.... A Mariazinha do café ao meu lado, já teve que comprar mais sete mesas e vinte e uma cadeiras. Então aos sábados e domingos não tem mãos a medir! Já meteu lá uma ucraniana só para servir às mesas e lavar as loiças. Agora nem me cobra nada sempre que vou lá com o Inácio beber um galão e comer uma bola de creme. E táxis doutora? Fazem bicha à minha porta. Eles vêm de todo o lado... Dizem que já tiro clientes ao bruxo de Rebordelo. Ai a doutora não conhece? É muito bom nos males de fígado e nas doenças de mulheres. Outro dia veio cá uma que estava casada há dez anos e não dava filhos. Pus-lhe a mão na barriga e no mês seguinte foi à consulta porque lhe faltou o período. Estava grávida de cinco meses. Um milagre, doutora, um milagre!

- Oiça, e a fábrica, deixou de trabalhar?

- Não, doutora, que tenho medo que a “benço” se me vá e eu fique sem nada! Só trabalho de bruxa a partir das três. E às sete da noite deixo de atender para tratar da casa e fazer o jantar. Às vezes eles pedem-me tanto que ponho um franguito a estufar , dou um pulo ao anexo e vejo mais um, mas num dá certo, acabo por deixar esturrar a comida e depois é lá uma gritaria em casa com o meu homem a dizer que já está farto de bruxarias e de sopa com sandes. Eu respondo-lhe que é à custa das bruxarias que estamos a pagar as prestações do toyota mas ele num quer saber e ameaça-me que se vai meter com a Adelina do cruzeiro de cima. É uma porca, doutora, mete-se com todos.

- E o Inácio, com quem fica ele enquanto a senhora dá as consultas?

- O Inácio ajuda-me muito e olhe que às vezes até já me dá indicações... É ele que está na entrada, serve uns copinhos de verde se estiverem com sede, leva-os à casa de banho da minha casa, avisa-me se começar a haver confusão na sala de espera....É que às vezes entra lá gente muito esquisita... Vêm ao engano, a julgar que eu trato de mau olhado, de mal de inveja, dessas coisas de bruxa antiga. Mas eu não, doutora, eu sou como os médicos só que não precisei de estudar porque tenho a “benço”. Olhe, o padre da minha freguesia até ficou branco quando lhe contei...Ai filhinha, disse ele, que sorte não viveres no tempo da Inquisição! Não percebi o que ele queria dizer com aquilo mas deve ser uma coisa boa. Logo no dia a seguir veio cá a governanta dele por causa duma íngua. Tive que a mandar para o bruxo da Areosa. Ínguas não é comigo! Estou a pensar este ano ir ao congresso a Vilar de Perdizes. Parece que se encontram lá os bruxos todos do país e quem organiza tudo é o padre que lá mora. A doutora já ouviu falar? Fica um bocado caro mas parece que nos dão almoço e lanche. O Inácio quer ir comigo e eu disse ao meu homem que podíamos ir os três no toyota e dormíamos lá numa pensão. Nunca me leva a lado nenhum!

- E como vão as tuas cantorias, Inácio?

- Vou cantar no baile dos bombeiros, doutora!

- E o que vais cantar?

- Quim Barreiros, Samuel... A garagem da vizinha, o bacalhau quer alhos, ..... Quer ouvir?

Num ímpeto pôs-se de pé, afastou as pernas, pegou num microfone imaginário que colocou perto da boca e desatou numa gritaria : “o bacalhau queralhos, o bacalhau queralhos”...

Tive que o fazer sentar de novo e acalmar. A mãe olhava para ele com admiração.

- Este meu Inácio é um talento, doutora! Quem havia de dizer que aquele menino que ninguém dava cinco tostões por ele ia dar um artista destes! Ó doutora, o Inácio quer tirar a carta de mota. Ele pode, não pode?

- Ó dona Fátima, como quer a senhora que ele ande de mota se tem todos os dias crises epilépticas? A senhora não vê que ele pode morrer se tem uma crise a conduzir a mota?

- Ó doutora, mas olhe que ele já anda de mota mesmo sem carta e nunca lhe aconteceu nada! Comprou-a ele com as gorjetas que os meus clientes lhe dão. Até costuma dar boleia ao meu vizinho que anda na mesma escola que ele. Já agora tirava a carta...

- Ó dona Fátima, que irresponsabilidade! E os pais do seu vizinho sabem?

- Sabem, doutora. Outro dia até pediram para ele dar boleia também ao mais pequeno, que já anda na primeira classe. Ele é magrinho e couberam os três na moto...

- Nem me conte coisas dessas!

- Ó doutora, a senhora anda muito negativa. Só lhe vêm à cabeça coisas más. Está é a precisar de energia. Posso-lhe por a mão só um bocadinho?

Sem eu responder agarrou-me a minha mão esquerda entre as suas , fechou os olhos, baixou a cabeça e começou a murmurar umas coisas. O Inácio, sério, abanava com a cabeça e também murmurava algo indecifrável mas que me soava ao mesmo que a mãe ia dizendo. Eu tentava retirar a mão, mas ela agarrava-ma com força entre as suas e não me deixava fugir.

A porta abriu-se e entrou Filó, a secretária da consulta, magrinha e de minissaia.

Olhou para a mesa com olhos esbugalhados e dona Fátima disse

- Não fale, está quase a acabar!

A Filó olhava para mim tentando que eu me explicasse, mas eu decidi não falar para não atrapalhar o bruxedo e prolongar aquela situação.

Dona Fátima calou-se por fim, levantou a cabeça, abriu os olhos e largou a minha mão.

- Pronto, acho que já chega de energia. Não consegui passar o espírito de luz, a doutora aqui não tem o ambiente, há muito barulho, muita gente a entrar e a sair...

E olhou com raiva, de esguelha, para Filó.

- Filó, precisa de alguma coisa? – perguntei por fim, envergonhada.

- Ó doutora, está a ligar a mãe da Ângela, aquela menina do tumor cerebral. Diz que ela está pior.

- Ai tumores cerebrais, doutora! É a minha especialidade. Já curei num sei quantos! A doutora não me quer mandar lá essa menina?

- Filó, diga à mãe da Ângela que eu depois lhe ligo quando acabar a consulta.

Passei as receitas ao Inácio e escrevi uma carta à médica de família alertando-a para o facto do Inácio não poder conduzir a motorizada. Lambi o envelope e fechei-o com cuidado, de forma a não poder ser aberto antes de entregue.

Voltei a insistir para o Inácio não andar de mota, sublinhei os perigos, contei casos antigos que eu tinha visto a entrar na urgência. Dona Fátima abanava a cabeça e não dizia nada. Despedi-me por fim. Ela levantou-se e dirigiu-se para a porta. De repente deu meia volta.

Doutora, empreste-me aí uma caneta e um papel. Quero escrever a minha direção. Esta semana só tenho vagas na sexta à tarde, mas se aparecer antes eu arranjo maneira de a ver. É que a doutora continua muito negativa. Eu só lhe passei energia mas mais meia hora e ficava com espírito de luz!

Turiz, 22 de Julho de 2018

Teresa Temudo

Teresa Temudo

Neuropediatra

Pediatra e Neuropediatra no Centro Hospitalar do Porto. Doutorada em Ciências médicas. Professora de Pediatria no curso de medicina do ICBAS. Investigadora em doenças de movimento na criança e perturbações do espectro do autismo.