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Teresa Temudo

Teresa Temudo

Neuropediatra

Plantar e colher

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Décima primeira crónica do blogue 'Cuidando e contando: crónicas de uma neuropediatra', da autoria de Teresa Temudo

Há uns anos a minha mãe deu-me uma planta de alfazema que tinha no seu jardim. Eu cobicei-lha porque estava linda, com muita flor, viçosa. Desenterramo-la em Outubro, altura indicada para o transplante (“em Outubro pega tudo”), e com muito cuidado enterrei-a de novo no meu jardim, num local soalheiro e abrigado que me pareceu conveniente. Fui-a regando, tirei periodicamente as ervas à sua volta e esperei pelo Verão. Nada. Nem uma flor. Pensei que, se calhar, tinha ficado abalada com a mudança e que, provavelmente, iria florir no Verão seguinte. Continuei a regar, a adubar, a tirar ervas. Mas também não floriu naquele Verão nem nos outros três que se lhe seguiram. Continuava a crescer feita arbusto de folhas acinzentadas, com pouca graça, nada decorativo. Por várias vezes estive tentada a arrancá-la e substitui-la por outra, mas o meu longo passado de utilizadora de transportes públicos, recordava-me que no momento em que eu desistia de esperar pelo autocarro, habitualmente era hora de ele chegar. Desviava então a minha pequena enxada para outro lado e dava mais uma oportunidade à alfazema. Até que um dia de manhã, após ter tomado o pequeno almoço e ainda de pijama, fui ao jardim regar. Entre as hidrângeas e as estrelícias, havia uma mancha violeta maravilhosa. A minha alfazema tinha finalmente decidido florir. E de que maneira! A partir desse Verão, e em todos os que se seguiram, deu-me o prazer do seu aroma e da sua cor e muitos foram os saquinhos que enchi para perfumar os roupeiros. Nesse mesmo ano, por coincidência, uma minha doente com défice intelectual e com muitos problemas de comportamento, surpreendeu-me ao conseguir finalmente aprender a ler aos 16 anos, após uma insistência infinita dos pais e professores do ensino especial.

É, as crianças são muito parecidas com as plantas. Há-as de todas as qualidades, com potenciais genéticos muito diferentes à partida. Mas são também muito influenciadas pelo solo onde são plantadas e pelo jardineiro que as cuida, que as rega, que as aduba. Às vezes o solo é pouco fértil e temos que mudar a planta de local. Outras vezes temos que pôr estacas para que cresça corretamente. Ou mesmo podar alguns ramos para que outros cresçam mais fortes. E há também que vigiar as ervas que vão crescendo ao lado e arrancar as que nos parecem nefastas, sugando-lhes os nutrientes. E temos que falar com elas, mirá-las

diariamente, tocar-lhes, arrancar as folhinhas mortas, sacudir o pó, pousar nelas o nosso olhar de admiração. E ter paciência. E não desistir rapidamente. Acreditar.

É, as crianças são como as plantas. Não florescem todas ao mesmo tempo.

Turiz, 25 de Abril de 2018

Teresa Temudo

Teresa Temudo

Neuropediatra

Pediatra e Neuropediatra no Centro Hospitalar do Porto. Doutorada em Ciências médicas. Professora de Pediatria no curso de medicina do ICBAS. Investigadora em doenças de movimento na criança e perturbações do espectro do autismo.