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Teresa Temudo

Teresa Temudo

Neuropediatra

Do outro lado

Nona crónica do blogue 'Cuidando e contando: crónicas de uma neuropediatra', da autoria de Teresa Temudo

Ajudei-a a tomar banho e vesti-lhe a bata verde esterilizada. Tirei-lhe os brincos, as pulseiras e o pequeno amuleto que traz sempre ao pescoço. Por fim, com um algodão embebido em acetona, retirei-lhe o verniz violeta com que pintara as unhas no dia anterior. Deitou-se e cobrimo-la com o lençol. Chegou o maqueiro.

- Tudo pronto?

Com um nó na garganta acenei que sim e percorremos o corredor em direção ao elevador que nos levará ao piso do bloco operatório. O hospital está diferente. Este não é o mesmo lugar onde todos os dias trabalho. Até os sons são distintos. O meu tempo é outro agora. São outros os meus interesses. Entramos para a antecâmara do bloco operatório, onde se encontram enfermeiros, médicos e outros doentes em macas.

Ao lado da minha filha está um rapazinho com ar assustado. Sinto uma enorme compaixão.

Todos tentam animar os doentes e eu sinto-me tão grata por cada palavra, por todas aquelas palavras que eu também digo aos outros no meu dia a dia de trabalho: “coragem, isto não é nada!”, “quando deres conta já passou tudo!”, “tens uma cara tão bonita!”, “ri um bocadinho só para me pores bem disposto!”.

Em seguida pedem-me para sair e eu dou um beijo à minha filha. Cá fora esperam os pais do menino que também vai ser operado. São gente muito simples, a mãe traz o cabelo apanhado num puxo e um avental de vendedeira ambulante. O pai é bombeiro e vem fardado. Dizem “tinha-nos” e “fazía-nos”, “botei” e “à conclusom”. Apesar disso, aqui, neste momento, somos completamente iguais. Somos só dor, angústia e esperança.

Passaram duas longas horas até que a porta metálica correu e uma enfermeira disse:

- Podem entrar os pais da Mariana!

Ainda não está consciente, tem os lábios entreabertos e uma madeixa de cabelo cruza-lhe a face. É tão bonita a minha filha!

O Pedro dá-lhe um beijo e chama-a baixinho.

- Pai, pai – balbucia.

O monitor mostra-me que tem uma boa saturação de oxigénio mas preocupam-me os valores da tensão arterial que estão muito elevados. Agora sou médica-mãe, não posso evitar. Chamo o anestesista, preocupada.

- É do stress da cirurgia, não é nada.

Mesmo assim, continuo preocupada.

Chegou o menino filho do bombeiro e em seguida entram os pais. Está cheio de dores e mais uma vez veem-me as lágrimas aos olhos. Os pais já perceberam que sou médica e pedem-me ajuda. Chamo a enfermeira que por sua vez chama o anestesista e prescreve-lhe um analgésico. Acalma. Que bom!

A Mariana está a acordar.

- A Graça, onde está a Graça? – pergunta ainda entre dois mundos.

Lembro-me delas ainda pequeninas, com menos de dois anos, de pé, na cama de grades ao acordar.

- “Gaça, Gaça”

Meu Deus como o tempo passou depressa!

Entra mais um doente. Um adulto de raça negra, politraumatizado. A face desfeita e ligado ao ventilador.

- Caiu de um andaime - diz a enfermeira - Trabalham sem nenhuma segurança!

O anestesista entra novamente. Não posso deixar de reparar que fica ridículo com o barrete à banda e apenas posto no cucuruto. Por segundos faz-me esquecer onde estou e recorda-me como sou. Cuscuvilha baixinho com a enfermeira e riem cúmplices duma qualquer intriguice à cabeceira do doente negro que está tão mal. Sinto-me um pouco indignada mas logo penso:

Eu também faço isto. Eu também continuo a viver no meio do sofrimento e da morte nos meus dias de trabalho. Eu também como, telefono para casa a saber se lá foi o picheleiro, praguejo contra o chefe, critico o colega que me disseram ter-me criticado, rio com a anedota que me conta uma auxiliar, indigno-me com o sol que brilha lá fora e eu não posso aproveitar. Eu também sou assim daquele lado.

E deste lado?

Deste lado sou frágil e tenho muitos medos. Sou como as mães dos meninos que trato. Faço perguntas e quero respostas. Quero tempo e atenção. Não gosto que o telefone toque durante as consultas nem que a porta esteja sempre a abrir-se enquanto a minha filha é observada. Quero privacidade. Quero que me peçam autorização quando vão estar presentes mais médicos na sala de consulta. E que peçam desculpa cada vez que entra na sala um médico mais novo com uma dúvida sobre um outro doente. Quero que nos respeitem. Quero uma palavra carinhosa num momento de dor. Quero silêncio.

Amanhã a Mariana tem alta. Vou ficar em casa alguns dias e depois volto ao trabalho. Será que vou esquecer este lado? Irei cometer exatamente os mesmos erros? Provavelmente sim.

Teresa Temudo

Teresa Temudo

Neuropediatra

Pediatra e Neuropediatra no Centro Hospitalar do Porto. Doutorada em Ciências médicas. Professora de Pediatria no curso de medicina do ICBAS. Investigadora em doenças de movimento na criança e perturbações do espectro do autismo.