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Teresa Temudo

Teresa Temudo

Neuropediatra

Visita ao domicílio

DR

Oitava crónica do blogue 'Cuidando e contando: crónicas de uma neuropediatra', da autoria de Teresa Temudo

- Deus traz-nos sempre ao colo, mas de vez em quando cansa-se e pousa-nos um bocadinho no chão. Nessa altura sofremos muito.

Dª Alzira semicerra os olhos ao dizer-me isto. Tem sessenta e nove anos mas parece mais velha. A cara tem uma pele clara e com tantas rugas que é difícil imaginar que esta velhinha já foi aquela mulher atraente que vejo na fotografia pousada na cómoda “quinane”1. Traz um vestido de cetim que ela mesma fez – Ah Doutora, fui uma grande modista, tinha quarenta e cinco freguesas. Agora, até enjoo a cozer um botão… - e ao pescoço tem, suspensa num fio de ouro, uma foto oval do marido. As pernas arquearam-se com o tempo, os joelhos são umas bolas disformes e os pés edemaciados transbordam dos sapatos.

Pela janela da saleta virada a sul, entra um sol coado pela cortina de crochet. Defronte, vê-se um outro prédio igualzinho a este e, mais abaixo, um outro ainda. Em todos eles está afixada uma placa de mármore com as letras “H E”. Perguntei-lhe o que significavam.

- Habitação económica. Este bairro foi construído pela “Têxtil” para alugar aos seus trabalhadores. Agora pertence à Segurança Social. Há dois anos disseram-me que a podia comprar. Mil contos, senhora doutora, onde ia eu arranjar tanto dinheiro? Mas eu tenho Deus comigo. Demora, mas vem sempre ter comigo. Uma amiga minha telefona-me sempre aos domingos. Mas, imagine, eu tinha até sexta feira para entregar o dinheiro e, naquela semana, ela telefonou-me numa quarta. Nunca me lembraria de lhe pedir o dinheiro. Credo, senhora doutora! Mas claro, palavra puxa palavra, eu disse-lhe que estava triste e ela quis saber porquê.

- Ó mulher- disse-me ela- porque não me pediste o dinheiro? Vem cá amanhã a casa que eu to empresto. E assim foi.

No quarto ao lado, subitamente, ouvimos umas gargalhadas.

- Que é, Belinha? Já lá vou, está sossegadinha que não demoro.

- Agora, o que me preocupa, é a Belinha. Tenho sessenta e nove anos, sou viúva, não tenho nenhuma família. Quem vai ficar com ela quando eu morrer?

Uma nuvem encobre-lhe a cara, mas logo se anima outra vez.

- Deus não me vai abandonar.

Sentamo-nos em cima da cama de casal, onde ela dispôs álbuns de fotografias, relatórios médicos, electroencefalogramas. Pego num bloco e numa esferográfica e começo a tirar notas.

A Isabel nasceu tinha a mãe já trinta e oito anos. Tudo correu bem até ao fim do primeiro ano de vida. Andava, dizia algumas palavras com sentido, brincava, era a alegria da casa. Depois, de um dia para o outro, deixou de brincar e passou a esfregar continuamente as mãos uma na outra como se as estivesse a lavar. Chamavam por ela e parecia não ouvir.

- Era como se estivesse noutro mundo. Corremos os médicos todos da cidade e nada. Só lhe davam medicamentos para acalmar, porque gritava toda a noite. Dois vizinhos fizeram queixa à policia porque não conseguiam dormir. E as crianças, doutora, sem dormir não desenvolvem. Antes dormir que comer! Cheguei-me a meter no eléctrico para ela adormecer. Se adormecia, chegava a dar quatro voltas à cidade. Os revisores já me conheciam e só vinham ter comigo para saber se ela já tinha acordado. Se a viam a dormir davam-me um outro bilhete.

- E como dormia a senhora?

Mudei-me para o quarto dela e, até hoje, é onde eu durmo.

- E o seu marido?

- O meu marido enganou-se a ele próprio muitos anos. Ralhava muito à menina por ela esfregar as mãos. Dizia que aquilo era mania. Só quando deixou de andar, aos seis anos, é que ele se convenceu que era uma doença ruim. Coitado, sofreu muito à maneira dele. Não íamos a nenhum lado por causa da Belinha. As pessoas impressionavam-se porque ela estava sempre a ranger os dentes e, de vez em quando, desatava aos gritos que parecia ter o diabo no corpo.

- Olhe, vê aqui a Belinha antes de ter começado a doença? Olhe os olhinhos dela, que esperta era!

Na fotografia está uma menina de cerca de um ano, vestida com um sobretudo de dupla abotoadura e com um chapelinho de malha. Ao seu lado, de mão dada, no meio da Praça da Liberdade, está um homem moreno ainda jovem e de porte garboso.

Ouvimos novamente ruídos no quarto ao lado e fui finalmente observar a doente.

Quem diria que aquela menina tão bonita se iria transformar nesta mulher de trinta e um anos, com um corpo disforme, encurvada sobre ela própria, sem expressão, imóvel num leito, completamente isolada do mundo!

- Veja doutora, veja como eu puxei pela cabeça para ajudar a minha filha!

O quarto é pequeno e está atravancado com duas camas, uma cómoda com uma televisão, um cadeirão e um guarda vestidos que quase roça o tecto. Dª Alzira dirige-se para a janela e sobe a persiana para eu ver melhor. Na parede há inúmeras estampas de Santa Rita, a santa das causas perdidas. No tecto, por cima da cama da Isabel, está uma calha metálica de onde estão suspensas correntes de ferro e uma roldana - as invenções de dona Alzira e do Sr. João, o carpinteiro surdo-mudo que a ajudou a concretizar as suas invenções.

- Agora vou-lhe explicar como isto funciona. Primeiro vou-lhe mostrar o “vai-vem”.

O “vai-vem” funciona com um quadrado de lona com ilhós metálicos nas quatro pontas que dona Alzira coloca sob Isabel e, em seguida, suspende num gancho que está na ponta de uma das correntes. Depois, com a ajuda da roldana, puxa outra corrente e Isabel é suspensa acima do colchão. Em seguida muda-a de posição.

- Só assim posso mudá-la, fazer a cama, colocá-la na cadeira. Pesa sessenta e um quilos. Quando cá vêm os bombeiros para a levar às urgências, são precisos quatro homens e eu, sozinha, com o “vai-vem”, consigo pegar nela!

Dona Alzira diz isto com orgulho e tem toda a razão para o sentir.

- Agora vai ver como eu a sento. Sabe doutora, a Belinha já não se senta sozinha há muito tempo e tem muitas dores na coluna e nas ancas. Já ma quiseram operar mas eu não quis porque me disseram que podia nunca mais acordar. Ora eu não vou mandar a minha filha para o matadouro! Está a ver este colete de couro? Primeiro ponho-lhe o colete e depois prendo-o às correntes e ela fica sentada sem fazer esforço sobre as ancas. Agora ponho-lhe umas almofadinhas de lado e uma grande atrás e fica a ver televisão. Ela gosta muito!

- Ó Belinha, já não está a dar os “Miquis”2. Vamos procurar um canal que tenha música. Sabe doutora, a minha filha sai ao falecido pai. Gosta muito de música.

Isabel olha fixamente para a televisão e parece estar contente. O olhar permanece vivo, é a única parte do seu corpo que tem mobilidade. De vez em quando acelera a respiração e no fim dá um suspiro. A mãe ajeita-lhe o cabelo e dá-lhe um beijo na face.

Saímos do quarto e passamos à sala de visitas, que dona Alzira nunca usa. Há centenas de bibelots pequeninos, chavenazinhas de porcelana, coleções de dedais, copinhos com bordos doirados numa cristaleira, músicos de diversas cores, cavalinhos em diferentes posições. E tudo limpo, sem pó.

Peço para ir à casa de banho e fico surpreendida com a quantidade de brinquedos antigos que decoram as prateleiras. Não necessito de perguntar a quem pertenceram.

A um canto da “marquise” da cozinha está uma cadeira de rodas há muito por usar. Como subiria dona Alzira com a filha para um segundo andar de um prédio sem elevador? Como pagou a todos aqueles médicos que não acertaram com a doença de Isabel? Como aguenta ela viver há trinta anos fechada em casa sem ajuda, com uma filha deficiente profunda?

Depois de terminar o exame de Isabel e de anotar tudo no meu caderno, despeço-me de dona Alzira e lamento não a poder ajudar mais.

Dona Alzira agarra-me nas duas mãos com as suas e sorri tranquilamente.

- Eu tenho Deus comigo. Demora, mas vem sempre ter comigo.

Porto, Julho de 2002

Teresa Temudo

Teresa Temudo

Neuropediatra

Pediatra e Neuropediatra no Centro Hospitalar do Porto. Doutorada em Ciências médicas. Professora de Pediatria no curso de medicina do ICBAS. Investigadora em doenças de movimento na criança e perturbações do espectro do autismo.