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Teresa Temudo

Teresa Temudo

Neuropediatra

Almas gémeas

D.R.

"Reflectia naquela relação tumultuosa de atracão-repulsão entre dois seres tão iguais. Duas pessoas que por tanto se amarem não estavam a permitir uma à outra um normal desenvolvimento". Quinta crónica do blogue 'Cuidando e contando: crónicas de uma neuropediatra', da autoria de Teresa Temudo

Na agenda só estava escrito: gémeos. Vinham de longe, a pedido do Pediatra que os seguia, à consulta de hiperactividade.

Na sala de espera foi fácil reconhecê-los: duas gotas de água turbulentas. Só a camisola diferia, uma verde, outra cinzenta.

Mandei-os entrar acompanhados dos pais, mas rapidamente percebi que seria impossível colher a história com tal agitação. Decidi então convidá-los a sair da sala com o pai. A mãe achou boa ideia e respiramos em uníssono, aliviadas. Uma mulher bonita, com ar inteligente e decidido, mais perto dos quarenta que dos trinta.

- Então, o que os traz por cá? – comecei.

- O Ricardo e o Rodrigo (eram esses os nomes) estão a ter problemas na escola.

- Estão em que classe?

- Passaram para a segunda mas com algumas dificuldades, sobretudo o Rodrigo.

- E a que atribui essas dificuldades?

- Eles não param. Não se concentram. Disputam todo o tempo.

- Estão na mesma turma?

- Estão. Não conseguimos separá-los. Embora se peguem a todo o momento, não passam um sem o outro, especialmente o Rodrigo que é o mais afectuoso.

- E o Ricardo? É diferente?

- É. O Ricardo foi sempre mais independente. Por exemplo, nas férias a avó costuma levá-los separadamente – porque não os aguenta juntos – a passar quinze dias com ela na praia. O Ricardo não olha para trás, diverte-se imenso e, embora às vezes diga que tem saudades dos pais, aguenta firme o tempo todo. Já o Rodrigo tem umas saudades enormes do irmão e normalmente ao fim duma semana têm de mo trazer. É o mais frágil mas também o mais meigo e sensível. E o que está a ter maiores problemas na escola.

- A senhora acha que o Ricardo é o líder?

- Sem dúvida nenhuma e o problema é que me parece estar a “abafar” o irmão. O Rodrigo tem uma grande admiração por ele e simultaneamente uma raiva enorme por, ele próprio, o achar mais capaz. Está sempre a agredi-lo verbal e fisicamente. E contudo... adora-o.

- Dê-me um exemplo – pedi.

- O Ricardo é muito bom em jogos de computador e o Rodrigo tem dificuldades. Às vezes, quando o irmão não está em casa, pede-me para treinar com ele e quando não consegue fica muito triste. Outro dia, para o animar, disse-lhe que era necessário trabalhar pois ninguém nascia ensinado e ele respondeu-me prontamente que isso não era verdade pois o mano tinha nascido a saber fazer tudo.

- Estou a ver que ele já interiorizou bem essa superioridade do irmão. E a inferioridade dele, claro. E na escola, passa-se o mesmo? – continuei.

- É. Na escola o Ricardo é melhor em quase tudo e muito mais popular. Muitas vezes os colegas convidam-no só a ele para as festas, mas depois as mães como sabem que são gémeos, alargam o convite para o irmão. Isto até me dói.

Ficou por uns minutos com o olhar velado mas logo se recompôs e sorriu tristemente, da forma que só as mulheres fortes conseguem.

- Diga-me uma coisa, nunca pensou que seria melhor separá-los de turma?

- Já. Muitas vezes. O problema é que a professora é muito boa e, neste momento, se mudar um, sei que o vou prejudicar. Depois há os amigos que são os mesmos... Mas concordo consigo, acho que estão ambos a ser prejudicados por estarem juntos. E a prejudicar os colegas. Quando estão separados comportam-se muito melhor, ficam mais calmos, não precisam de competir. O Rodrigo, em especial, ia beneficiar com a separação. É o mais inseguro, tem muito medo de falhar ao lado do irmão e muitas vezes acaba por nem sequer tentar. Sinto-me um bocado perdida. É por isso que estou aqui.

- E o seu marido? Como é que ele vê este problema?

- Concorda comigo em parte, mas não quer separá-los. Tem medo que eles sofram.

- Muito bem. Acho que fez um retrato muito bem feito dos seus filhos e que é uma pessoa realista. Só há aqui um problema. É mãe e, tal como o seu marido, também tem medo de os magoar. Vamos fazer uma coisa. Eu não sei quem é o Ricardo e quem é o Rodrigo. Eles são iguais. A senhora vai lá fora pedir ao seu marido para entrar com eles mas não os tratar pelos nomes. Peça-lhes a eles para também o não fazerem.

- Nisso não há problema. Tratam-se um ao outro por “mano”.

- É que quero fazer um teste – continuei – para ver se aquilo que me disse coincide com a minha observação. Faça-os entrar, então.

Passados segundos entraram os quatro.

Constatei a incrível semelhança física dos gémeos. Apenas diferiam no olhar.

O da camisola cinzenta olhava de frente para mim, o da verde tinha um olhar disperso mas mais doce. Mandei-os sentar à minha frente. Pus duas folhas de papel sobre a mesa e dei um lápis ao de camisola cinzenta e uma esferográfica ao da verde.

Pedi-lhes para escreverem a palavra “gato”. O da camisola cinzenta apontou imediatamente o lápis para o papel e começou a desenhar a letra “g”. O outro ficou com um olhar inquieto, virou-se para o irmão sem tocar no papel e disse:

- Ó mano, trocas o teu lápis pela minha esferográfica?

O da camisola cinzenta deu-lhe o lápis e escreveu de uma penada a palavra “gato” sem hesitar.

O outro iniciou a medo um “g” olhando para o lado e só depois do irmão terminar, lá escreveu a palavra. Ainda assim pediu ajuda à mãe para conferir.

- Já sei quem é quem – disse. O da camisola cinzenta é o Ricardo e o da verde é o Rodrigo. Certo?

- Certíssimo – disseram os pais.

Em seguida falei com eles e diverti-me com as suas histórias. Eram bem simpáticos aqueles gémeos! Uns meninos normais e saudáveis, um pouco hiperactivos, mas nada de patológico. Era contudo evidente a baixa auto estima do Rodrigo e a supremacia do Ricardo sobre aquele.

Por fim despedi-me deles, pedindo à mãe para ficar na sala mais um pouco.

- Quero dar-lhe os parabéns pela objectividade com que conseguiu descrever-me os seus filhos. É raro ter o prazer de encontrar uma mãe assim. E estou de acordo consigo, penso que ambos vão beneficiar se forem separados na escola. Agora o que temos de procurar é a forma de o fazer sem nenhum deles se sentir com isso castigado.

- Eu já pensei numa coisa – disse a mãe. Dentro de um ano a professora deles vai reformar-se e nessa altura eles vão ser distribuídos por outros professores. Eu aí posso pedir para os porem em turmas diferentes.

- Óptima solução. Concordo consigo. Vamos aguardar mais um ano e aí pomo-los em classes diferentes. Até pode ser que se consiga que cada um vá acompanhado dos seus amigos. Também penso que separá-los agora era uma violência e, uma vez que vai haver essa oportunidade, vamos esperar.

A mãe respirou fundo, satisfeita. Depois disse:

- A doutora percebe muito de gémeos não percebe?

Senti-me apanhada em flagrante e soltei uma gargalhada.

- É que também tenho lá em casa um par delas com onze anos. E olhe que também tenho tido problemas para resolver...

Despedimo-nos cúmplices com a promessa de uma próxima visita.

Eram cinco horas da tarde e aqueles tinham sido os últimos doentes do meu longo dia de consulta. Curiosamente não me sentia cansada e continuei sentada, debruçada na secretária com os cotovelos apoiados, a mexer no cabelo com o olhar no vazio. Continuava a pensar na consulta que acabara de fazer. A lucidez e amor da mãe dos gémeos tocara-me profundamente. O conflito entre razão e emoção que a tinha feito procurar-me.

Será que procedera bem? Será que o reforço que lhe dera para os separar iria resultar? Será que iam voltar à consulta?

O meu instinto e experiência pessoal falaram mais alto que todos os livros científicos que lera. Ser médico era também isso por vezes, concluí.

Reflectia também naquela relação tumultuosa de atracão-repulsão entre dois seres tão iguais. Duas pessoas que por tanto se amarem não estavam a permitir uma à outra um normal desenvolvimento.

Afinal as almas gémeas tão apregoadas na literatura nem sempre, quando se encontravam, viviam felizes para sempre.

Levantei-me finalmente e fechei a porta da sala ainda a pensar em almas gémeas.

No caminho para casa regozijei-me por nunca ter encontrado a minha.

Teresa Temudo

Teresa Temudo

Neuropediatra

Pediatra e Neuropediatra no Centro Hospitalar do Porto. Doutorada em Ciências médicas. Professora de Pediatria no curso de medicina do ICBAS. Investigadora em doenças de movimento na criança e perturbações do espectro do autismo.