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Teresa Temudo

Teresa Temudo

Neuropediatra

Por amor

D.R.

"Quanto tempo, doutora? Diga-me a verdade, por favor. Tenho um filho com paralisia cerebral e tenho que deixar a vida orientada". A dura e dramática segunda crónica do blogue 'Cuidando e contando: crónicas de uma neuropediatra', da autoria de Teresa Temudo

I

- "Dona Alice Constâncio Pereira, sala 27", gritaram pelo intercomunicador.

- "Está com sorte, hoje está pouco atrasada", disse a senhora sentada a seu lado.

Ajeitou a peruca que tendia a descair para testa, pôs-se de pé e pegou na carteira e no saco onde transportava o pano de crochet que nunca mais terminava.

- "Espero que hoje não demore muito, disse à senhora de azul com quem estivera a conversar. Da última vez estava sempre a receber telefonemas e nunca mais acabava a consulta…Tenho o meu filho à guarda da vizinha e fiquei de o ir buscar à hora do almoço".

Dirigiu-se a uma porta que dava acesso ao corredor dos consultórios médicos. Algumas mulheres olharam-na com ar assustado. Já estava habituada. A roupa negra baloiçava-lhe no corpo esquelético. A peruca barata nem tentava disfarçar… De manhã, ela própria quase se assustara ao ver-se, sem querer, no espelho da casa de banho. Já não tinha cor, ou se a tinha era cinzento-esverdeada. As olheiras fundas, a falta de sobrancelhas, a magreza a acentuar as rugas e, ainda por cima a calvície, faziam dela uma personagem de filme de terror. Só ao filho aparecia naquela figura. Tinha que ser.

O intercomunicador gritou de novo:

- "Dona Alice Constâncio Pereira, sala 27!"

A porta da sala estava aberta. Lá dento, à esquerda, a médica esperava-a atrás da secretária. Gostava dela. Era de poucas falas, mas também não lhe mentia. A primeira vez que a conhecera, já lá iam 6 anos. Quando lhe aparecera o nódulo na mama esquerda. Nessa altura, ainda com o marido vivo, ela tinha-lhe dado a notícia.

- "É um carcinoma muito maligno. À partida, o prognóstico é muito mau. Vamos fazer exames para ver se tem metástases noutros órgãos".

A partir daí, não mais se livrou do Instituto de Oncologia. Tiraram-lhe a mama e os gânglios afectados. A seguir fez quimio e radioterapia. Ao fim de um ano de tratamentos, disseram-lhe que estava curada, mas que tinha que fazer controlos regulares. Cinco anos depois, foi-lhe detectado um carcinoma na outra mama. Desta vez tinha também metástases no fígado e ossos. Estava tramada, não tinha safa. Mesmo assim, recomeçaram o tratamento. Cirurgia, com novos ciclos de quimioterapia. Pelo filho. Só fazia isto pelo filho. Que seria dele quando ela morresse? Ninguém o queria…

- "Então, Dona Alice? Como se sente?", perguntou a médica.

- "Cansada, Doutora. Muito cansada. Tenho vomitado muito com a quimioterapia e quase não consigo comer. Neste mês já se foram quatro quilos".

- "Vou-lhe receitar uns comprimidos mais fortes para o enjoo e uma vitaminas. Sempre ajudam qualquer coisa".

- "Ó doutora, desculpe pedir-lhe. Pode-me passar os medicamentos da epilepsia do meu Toninho? É que me custa tanto ir ao Centro de Saúde…"

- "Não há problema nenhum, dona Alice. Eu passo a receita. Como é que ele está?"

- "Como sempre doutora. Hoje ficou com a minha vizinha. Tenho que chegar a tempo de lhe dar o almoço."

A médica pediu-lhe ainda umas análises e marcou a próxima consulta. Desta vez tinha demorado pouco. Não lhe tinham telefonado…

Quando saiu, a senhora de azul ainda esperava. Coitada, também estava cheia de metástases!

II

À saída do Instituto, avistou a paragem de autocarros. Credo, tanta gente à espera! Como sempre, os lugares sentados estavam ocupados. Custava-lhe tanto estar de pé! Ao fim de uns vinte minutos, lá chegou o trezentos e vinte. Vinha meio vazio e conseguiu um lugar à beira da janela. Era bom ser conduzida. Aquele tempo era só seu e podia ir pensando à vontade. Às vezes, em horas de ponta, divertia-se a ouvir as conversas dos passageiros. Da janela avistou as árvores ao longo da avenida. Estava tudo a despontar. Era tão bonita a Primavera! Outrora, quando era nova, sentia todos os anos uma energia renovada. Até parecia que lhe brotavam folhas dos dedos!

Conhecera o Artur nessa estação, viviam ainda os dois em Cabeceiras. Eram filhos de lavradores e esperavam deles que continuassem a trabalhar as terras. Mas ele tinha ideias diferentes e decidiu, depois de casar, que viriam tentar a sorte para o Porto. Arranjou um lugar na polícia e ela começou a fazer limpezas numas senhoras. No início viviam num quarto alugado, na rua da Firmeza. Ao fim de um ano, já tinham poupado o suficiente para a mobília e alugaram uma casinha. Foram tão felizes aqueles tempos! Ao domingo tomavam o eléctrico e iam lanchar para a Foz.

O autocarro parou finalmente na Praça da Liberdade. Tinha que sair e apanhar um outro para ir para casa. Na Praça, o sol iluminava a Câmara, lá ao fundo. Estava bonita, a cidade! Tinham começado a recuperar as casas antigas do centro e agora muita gente nova animava a cidade à tarde e à noite. Apanhou o segundo autocarro. Eram só quatro paragens até casa. Saíu no Marquês e aproveitou para comprar uns legumes na mercearia. Conhecia o dono desde há muitos anos.

- "Então dona Alice, hoje o que vai ser?"

Era um bom homem, aquele senhor Manuel. Quando o seu Artur ainda era vivo, mandava-lhe sempre o jornal ao fim do dia, depois de o ler. Sabia que ele gostava de ler as notícias… A mulher do senhor Manuel também era diabética, mas tinha mais cuidado que o Artur e ainda estava bem boa.

Escolheu as couves e pagou. De repente um suor frio inundou-a e uma náusea subiu por ela acima. Encostou-se ao balcão de olhos fechados.

- "Está-se a sentir mal dona Alice? Quer sentar-se?"

- "Isto já passa. Pode-me arranjar um copo de água?"

Bebeu a água, ainda de olhos fechados e esperou um pouco antes de partir. Desde há uma semana que aquilo lhe dava a toda a hora.

III

O bairro onde morava era pobre, mas tinha algumas vantagens. Conheciam-se todos e ajudavam-se nas muitas crises por que iam passando. À entrada da sua casa, o Pirata dormitava, enrolado no tapete. Estava velhinho, coitado. Antes, vinha ela no meio da rua e já ele começava a ganir, impaciente. Agora, só dava conta dela quando já dentro da porta. Levantou-se a custo e conseguiu saltar uma vez. Os olhos, outrora brilhantes e negros, eram duas manchas opacas e inexpressivas. Seguiu-a para a cozinha, onde a vizinha dava o almoço ao filho.

- "Então Maria, que tal se tem ele portado?W

- "Já lhe dei a sopa. Estava agora a tentar dar-lhe o conduto, mas ele já me parece enfartado. Podes terminar tu? É que tenho o meu neto a chegar da escola…"

- "Vai mulher, muito obrigada. Se não fosse a tua ajuda…"

Alice sentou-se em frente do filho e, automaticamente, arranjou-lhe o cabelo que tombava para a testa e compôs-lhe a gola da camisa. Era tão bonito o seu Toninho. Não fora a doença... O filho tentou endireitar a cabeça e olhou-a de viés, rindo daquela maneira peculiar, com esgares repetidos da boca. A baba escorreu-lhe em fio pelo lábio inferior e Alice, rapidamente, puxou a babete e limpou-o. Já tinha barba, mas continuava a ser o seu menino. Dependia dela para tudo. Que seria dele quando… Tinha que ter uma conversa séria com a médica. Quanto tempo lhe restava?

IV

- "Quanto tempo, doutora? Diga-me a verdade, por favor. Tenho um filho com paralisia cerebral e tenho que deixar a vida orientada".

A médica baixou a cabeça e olhou fixamente para os papéis espalhados em cima da secretária. Era raro os doentes quererem saber a verdade. Percebeu, no entanto, que era importante dizê-la àquela doente. Tinha metástases no fígado, ossos, pulmões…

- "Uns três meses, dona Alice, não mais que isso."

- "Obrigada doutora. Eu sei que também não é fácil para si."

Levantou-se a custo e dirigiu-se para a saída. A morte é isto, pensou. É já não ter futuro. Eu já morri.

V

- E o Toninho? Quem fica com o Toninho quando eu morrer? Deu mais uma volta na cama e virou-se para a esquerda. Na mesa de cabeceira, o relógio mostrava serem quatro da manhã. Não adiantava, era melhor levantar-se. Vestiu o roupão e foi à cozinha fazer uma cevada. O Pirata abriu os olhos e levantou a cabeça, mas deixou-se estar enroscado no ninho. Na mesa coberta de oleado, num cesto de verga, ao centro, estavam os inúmeros medicamentos, dela e do filho. Ao lado, inacabado, o pano de crochet que andava a fazer. Sentou-se, ligou o rádio portátil e começou maquinalmente a tricotar, aguardando que a cevada “assentasse”. O Marante cantava.

Quando partiste foram contigo os meus desejos
Quando partiste foram contigo os meus abraços,
Quando partiste nunca supus que à despedida
Ia contigo naufragar a minha vida

Lembrou-se das tardes de domingo passadas na academia Apolo. Bons tempos esses....Tanto que o Artur gostava de dançar! Ao princípio ela não apreciava, tinha sido criada para trabalhar, nada mais. Com o tempo ele foi-lhe ensinando a gozar a vida. Como ele gostava de viver! Tinha amigos em todo o lado, cantava, tocava cavaquinho, dançava, gostava de comer e conversar pela noite dentro. Meu Deus, que saudades! Quando ela ficava triste por causa do Toninho, logo acudia ele para a alegrar.

- "Então mulher, que é isso? Nós somos tão felizes! O Toninho é assim, porque tinha que ser assim. Não penses, mulher. Toca para a frente que atrás vem gente!"

Mas, de certa forma, o optimismo dele fizera com que agora o Toninho estivesse naquela situação ...

O filho tinha estado na escola. As professoras do Ensino Especial, que estavam diariamente com ele, tratavam-no muito bem e tinham muita pena dela, ainda mais quando souberam da sua doença. Sabia que o filho só poderia ficar na Escola até aos 16 anos. Depois… As professoras tinham-lhe falado que seria melhor pensar num Lar para o internar … que seria um caso difícil de cuidar em casa, até pelas doenças deles. Quiseram ajudar na inscrição do Toninho num Centro de Atividades Ocupacionais; fizeram relatórios; sugeriram os três Centros que existiam próximos da área de residência; avisaram que poderiam ter de esperar por uma vaga. Não lhe agradou esta mudança para o desconhecido. Que pena que não pudesse continuar naquela Escola e com as professoras em quem confiava.

Telefonou ainda várias vezes para um dos Centros, tentou falar com a assistente social. Ao fim de meses de insistência, conseguiu agendar reunião para inscrição do filho, mas foi-lhe dito que tão cedo não tinham vaga, ainda mais necessitando de transporte na carrinha do Centro. A lista de espera era de mais de 200 e havia casos que eram mais graves que o seu filho, jovens sem família ou com família que os não cuidava. Foi visitar o Centro e não gostou do que viu. Pareceram-lhe crianças e adultos demais para a quantidade de pessoas para os cuidar. Estavam para ali sentados nas cadeiras de rodas, uns curvados, outros amarrados com lençóis às cadeiras, muitos virados para uma grande janela onde apenas se via um céu imenso, carregado de nuvens cinzentas. Sim, o dia também não tinha ajudado... Os invernos no Porto são tristes quando não há sol.

Como é que o Toninho seria ali cuidado? Como é que podia separar-se do filho para o entregar ali, permanecendo o dia inteiro, se calhar todo sujo, sem o limparem, sem o alimentarem, em frente àquela janela… Deixou a inscrição, mas ela e o marido decidiram que o Toninho ficaria em casa, quando a Escola não o aceitasse mais. Telefonaram do Centro, passados 2 anos, perguntando se ainda estavam interessados em manter a inscrição …. Ainda não era sequer para o admitirem… Disseram que não. Afinal ele estava tão bem com eles! O que custava mais era o esforço para o vestir e dar banho... Soube então que poderia contratar um serviço de Apoio Domiciliário – o Centro mandava diariamente alguém para lavar e vestir o filho. Tinham de pagar, conforme os rendimentos. Apresentaram os papéis para que os mesmos fossem apurados e calhou-lhes pagar uma quantia mensal que mal podiam aguentar... Ainda por cima as funcionárias faltavam muitas vezes… Estiveram assim uns meses e desistiram. O Toninho ficou então só para eles…

VI

Abriu a porta do roupeiro para arrumar as roupas que usara no dia anterior. Estava muito cheio. Nunca tivera coragem de retirar as roupas do marido. As camisas, as calças, as gravatas penduradas na porta, os sapatos deformados, os chinelos de quarto, o casaco de malha velho com que andava em casa, ainda ocupavam todo o lado direito do armário. Era uma pessoa tão boa! Tinha morrido de uma forma estúpida, há menos de um ano. Segundo os médicos, tinha-se provavelmente enganado e injectara uma dose excessiva de insulina. Por azar, ela estava nessa altura internada e não lhe pudera valer. Como ele não tivesse aparecido na hora da visita, telefonara à vizinha para saber o que se passava. Tinham-no já encontrado morto, ainda na cama. O médico disse-lhe que devia ter entrado em coma e não sofrera. Ao menos isso.

E se…

Acabou de arrumar a roupa e foi à cozinha. No aparador abriu uma das gavetas. Sim, ainda lá estava o estojo com várias ampolas e as seringas de insulina. Fez as contas e viu que eram doses suficientes para mais de duas semanas. Devia chegar para os dois.

VII

Terminado o jantar, deu banho ao filho. Vestiu-lhe um pijama novo e deitou-o na sua cama. Em seguida lavou-se e vestiu a melhor camisa de noite. Decidiu não tirar a peruca.

Em cima da cómoda estavam já pousadas várias seringas cheias. Metodicamente, injectou três na coxa do filho. Ele gemeu um pouco e ela olhou-o. De repente sentiu-se uma assassina e, a soluçar, abraçou-o. Mas logo se calou e limpou a cara. Deitou-se ao seu lado e injectou nela as três seringas que restavam. Apagou a luz, abraçou o filho e rezou ao seu Deus.

Sentiu finalmente paz. Ninguém os separaria.

Teresa Temudo

Teresa Temudo

Neuropediatra

Pediatra e Neuropediatra no Centro Hospitalar do Porto. Doutorada em Ciências médicas. Professora de Pediatria no curso de medicina do ICBAS. Investigadora em doenças de movimento na criança e perturbações do espectro do autismo.