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Teresa Temudo

Teresa Temudo

Neuropediatra

À espera

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Crónica inaugural do blogue 'Cuidando e contando: crónicas de uma neuropediatra', da autoria de Teresa Temudo

I

São sete horas da tarde e ficamos paradas na auto-estrada por falta de gasolina. Chove torrencialmente e o vidro embaciado faz-me sentir isolada, como que dentro de um submarino. Não serve de nada desesperar. Temos que aguardar com calma pelos serviços de apoio. Vamos comendo as bolachas de chocolate que restam e conversamos para matar o tempo.

- É aborrecido esperar – diz a Cristina.

- Às vezes na espera acontecem muitas coisas....Temos é que saber aproveitar esse tempo.

- Sim, mas pode ser desesperante. Por exemplo, a espera num consultório médico. Já cheguei a estar 3 horas na sala de espera....

- Eu já fiz esperar muita gente... Agora as coisas estão diferentes, mas há uns anos....

E começo a contar.

II

Terça-feira, dia da consulta de epilepsia. Os doentes vinham sem hora marcada, apenas para “o período da tarde, a partir das 13h30” e acumulavam-se durante horas na sala de espera.

Por vezes, o barulho era insuportável, assim como era difícil circular no corredor por entre crianças a correr, cadeiras de roda, cestos e sacas plásticas com agasalhos, farnéis e presentes. As crianças batiam-se, os pais conversavam, por vezes discutiam devido à ordem de entrada para a consulta, mas na maioria das vezes as crianças iam comendo ou mamando ao seio e trocavam-se fraldas, experiências e queixas.

Numa destas tardes – lembro-me que era Inverno e chovia torrencialmente – a sala estava apinhada de crianças e pais e eu chegava esbaforida e escorrendo água com um atraso de quase uma hora. O chão escorregadio e lamacento, o cheiro a suor e fumo, a iluminação artificial, o frio e a humidade deram-me vontade de fugir.

- Tem que ser! – e entrei no meu gabinete. Olhei com desalento para a pilha de processos em cima da secretária. Contei-os: catorze! Nunca mais de cá vou sair! – pensei.

Percorri um a um o nome das crianças que ia ver. A primeira era a Fátima, depois o Leandro, em seguida o Cristiano....

Depois, mentalmente, fui reconstruindo a história de cada um.

A Fátima, uma paralisia cerebral grave, dois anos de idade, com uma epilepsia refractária ao tratamento. Filha única de uma mãe muito nova e bonita, costureira, que veste com esmero a filha, fazendo-lhe vestidinhos com o resto do tecido com que faz as suas saias. Tão engraçado vê-las sempre de igual!

O Leandro filho de um polícia que bate à mulher, gordinho e atrasado. Com cinco anos quase não falava e começara um ano antes a ter crises epilépticas.

O Cristiano, ex-prematuro olheirento, sete anos mal medidos, cabeça de alfinete, tão moreno quanto sujo, sempre com os joelhos esmoucados e com um nariz de pássaro que o antecede.

- Olá Temudo! – dizia-me sempre que entrava na consulta.

A mãe era uma cópia ampliada do filho, com uma cara cadavérica, cabelo preto desgrenhado, magra como um espeto, com peúgas de homem e chinelos de borracha.

- Ó doutora, não o aturo! – e escarranchava-se na cadeira à minha frente.

Preparava-me para começar a chamá-los pelo intercomunicador quando ouvi uma algazarra lá fora. Abri a porta e espreitei.

- Ladra, ladra – gritava a mãe da Fátima.

- Ah sua badalhoca, que vai já engolir o que disse – ameaçou a mãe do Cristiano.

- Que aconteceu? – perguntei a outra mãe.

- Ah, doutora, nem queira saber. É tudo derivado aos ouros.

- Aos ouros como?

- Eu vou-lhe contar. Mas espere, espere um bocadinho que eu quero ouvir o que a polícia está a dizer...

Um polícia gordo acabara de chegar e levava à força, arrastada por um braço, a mãe do Cristiano.

- Pronto doutora, agora posso contar-lhe. Isto foi assim: a mãe da menina paralítica quis ir à casa de banho e pediu à senhora que estava ao lado para lhe deitar uns olhinhos à filha. Quando chegou, a filha já não tinha os anéis - parece que eram sete doutora!- nem as três voltinhas de ouro. À “conclusom”, só podia ter sido ela a roubar. Claro que a patifa negou tudo e então os outros pais revoltados – Ó doutora, ele agora a roubar a entrevadinha! – decidiram ir às urgências chamar as autoridades. Ela desatou aos gritos e pediu que a revistassem, que ela caísse ao chão ceguinha “amais” o filho se tinha roubado a paralítica. O polícia revistou-a toda e não encontrou nada. Então, ali o pai daquele menino manco, lembrou-se que talvez ela os tivesse engolido e o polícia disse que aquilo só se deslindava com um “rom x”. Foram lá acima às urgências para um médico passar a “requisiçom”. Ò doutora, ele há cada ordinária neste mundo. Ele agora dar-lhe em comer os anéis da entrevadinha!

Tive pena de deixar o local do crime e perder a telenovela, mas estava atrasada e tinha que fazer a consulta.

- Fátima – gritei pelo intercomunicador.

A mãe entrou esbaforida. Vinha vermelha de raiva com a menina ao colo, vestida a preceito como sempre, mas sem os sete anéis e as três voltinhas.

- Ai doutora tiveram que me segurar para não a esgadanhar toda! Não saio do hospital enquanto a bandida não for presa!

Lá fiz a consulta à Fátima com a mãe sempre a bufar de raiva, ansiosa pelo veredicto do polícia. Para falar verdade eu também estava inquieta de curiosidade e quando a consulta terminou, fui lá fora saber o final da história. A mãe do Cristiano já lá estava com o nariz enterrado nas peúgas e o polícia ao lado, vitorioso, com um Raio X na mão.

- Estão cá os sete, doutora, mais as três voltinhas de ouro! Engoliu-os, a safada!

- E agora, como vai ser?

- Eu por mim levava-a presa – respondeu ele – agora depende da mãe da menina querer seguir com a queixa.

O Cristiano, ao lado, desatou a chorar com a cabeça enterrada na barriga da mãe.

Um homem atarracado – o inteligente que apostou na ingestão dos ouros – decidiu novamente intervir.

- Eu por mim desculpava-lhe desde que ela devolvesse os ouros – sentenciou.

-Mas como é que eu posso ter a certeza de que a ladra mos vai devolver? – gritava a mãe da Fátima.

- Ela que lhe deixe a aliança e o relógio de penhora. Agora tem é que esperar que o intestino lhe funcione...

- Que é que vocês acham? – perguntou a mãe da Fátima indecisa aos restantes pais .

As opiniões dividiam-se. Uns que sim, que lhe perdoasse, que também tinha um filho doente. Outros que não, ora agora a descarada que até os paralíticos roubava. A mãe da Fátima continuava indecisa...

- E a doutora, que é que fazia?- decidiu perguntar por fim.

O Cristiano, de repente, correu para mim desesperado, apertou-me a mão e gritou:

- Ó Temudo, diz-lhe que perdoe!

- Bem, perdoe lá por esta vez, mas, à cautela, fique-lhe com o relógio e a aliança.

A consulta lá continuou, com duas horas de atraso e cada pai a fazer o seu julgamento da situação quando entrava no consultório.

Saí cansada mas feliz, que se há coisa que eu gosto é de uma boa história para contar.

Em casa, ao jantar, saborearam o meu conto já um pouco floreado porque, como se sabe, “quem conta um conto acrescenta um ponto”.

III

Parou de chover e, entretanto, fez-se noite.

- Porque é que lhe disse para perdoar? – perguntou a Cristina. Não acha que deveria ser castigada?

- E foi. Tu já viste a vergonha que passou em frente ao filho? E depois, sabes, se há coisa a que eu não resisto é à tristeza de uma criança…

- Pois é, mas provavelmente continuou a roubar.

- Não sei, mas tenho a certeza que ficou envergonhada pois nunca mais apareceu na consulta. Aqui há uns anos, ia a descer a rua dos Clérigos e vi-a sentada numa soleira a vender peúgas e cuecas. Mais magra, mais olheirenta, olhou para mim a apregoar umas meias. Acho que não me reconheceu. Afinal quem se lembra das personagens são os leitores e não o contrário…

- E a Fátima, ainda anda com os anéis?

- Morreu há uns anos. A mãe veio à consulta e ofereceu-me uma medalhinha de ouro com um santinho para não me esquecer dela. Pensar por onde andou aquela medalha!

Parou o carro de apoio à nossa frente. Chove novamente e um homem encapuzado bate no vidro do nosso carro.

- São as senhoras que estão à espera de gasolina?

- Tão rápido! – diz a Cristina.

Rio-me. Estivemos mais de uma hora paradas na auto-estrada. Afinal nem sempre desespera quem espera. Na espera cresce o desejo e a imaginação. Tomam-se decisões. Descobrem-se talentos. Acontecem coisas engraçadas …

A história “dos ouros” seria agora muito menos provável de acontecer. Os doentes chegam à hora marcada e é raro esperarem mais de meia hora pela consulta.

Que pena! Quantas histórias que não acontecem!

Teresa Temudo

Teresa Temudo

Neuropediatra

Pediatra e Neuropediatra no Centro Hospitalar do Porto. Doutorada em Ciências médicas. Professora de Pediatria no curso de medicina do ICBAS. Investigadora em doenças de movimento na criança e perturbações do espectro do autismo.