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Costa a pé: O primeiro mergulho, melão para todos e um táxi até Porto Covo

Do Minho ao Algarve, junto ao mar

Décima etapa da grande caminhada de Pedro Pimenta e amigos pela costa portuguesa, do Carvalhal a Porto Covo, com fotos e vídeos deste cantinho à beira-mar

Pedro Pimenta delineou um plano: percorrer toda a costa portuguesa a pé, de Monção a Vila Real de Santo António. São 940 quilómetros, que dividiu em 16 etapas, para cumprir até fevereiro de 2020, um fim de semana por mês. O ponto onde terminou a etapa anterior é sempre o ponto de partida da seguinte para todos os que o querem acompanhar.

Funcionário público, Pedro Pimenta, de 52 anos, é já um veterano das caminhadas – durante mais de uma década, liderou a secção de Pedestrianismo do Clube de Lazer, Aventura e Competição (CLAC) do Entroncamento, onde reside. Num registo informal, de impressões e pensamentos soltos, partilha agora, no site da VISÃO, uma espécie de diário desta aventura pela costa, ao mesmo tempo que nos brinda com belas fotografias e vídeos dos locais por onde passa (também os pode ver no site do projeto Costa a Pé).

Este é o relato da décima etapa, entre o Carvalhal e Porto Covo, realizada nos dias 24 e 25 de agosto.

Sábado, 24: Carvalhal – Lagoa de Sto. André, 28 kms

Mais um fim-de-semana cheio de companhia. Hoje, dormi em casa da Virgínia, uma amiga de longa data que tinha mostrado vontade de fazer uma etapa connosco. Saímos de madrugada, de táxi, rumo à estação de Sete Rios, em Lisboa, para apanhar o primeiro comboio para Setúbal. É sempre fantástica a vista do nascer do sol na Ponte sobre o Tejo.

Chegamos pelas 7h45, já alguns caminheiros nos aguardavam. Temos duas viaturas para nos transportar até ao Carvalhal, a da Elsa Mendonça e a da Cristina Caiolla. A Ana Tavares e o Rodrigo seguem com a Cristina, eu e a Virgínia vamos com a Elsa. Sento-me à frente e, pouco depois, num silêncio absoluto, adormeço ao sabor do fresco da manhã que entra pela frincha da janela.

Quando chegamos ao Carvalhal, já lá estão o António Carvalho, o Edu Gonçalves e a esposa do António, que nos vai ajudar no transporte das bagagens mais pesadas. Depois de um pequeno-almoço reforçado, iniciamos a caminhada. Tiramos logo uma foto de grupo junto à placa da identificativa da vila. O sol ainda está baixo pelas 9h30.

Todo o grupo em fila indiana pela berma da estrada, de frente para os carros. Uma das maiores etapas em asfalto. Na frente da fila, vamos rodando em bom ritmo. Menos eu. Como sempre, sigo mais atrás a controlar os andamentos dos novos caminheiros. O calor começa a fazer-se sentir. As sombras são raras. A paisagem alterna entre pinhal, areia e vedações. Grande monotonia, a requerer algum sacrifício na progressão. Não é fácil falarmos uns com outros, limita-mos a seguir a sombra do companheiro da frente.

Alguns carros buzinam como se de um cumprimento se tratasse. Acenamos. Perto dos 12 kms, paramos numa sombra para comer qualquer coisa, que o corpo já pede. Mais um pouco de alcatrão, e passamos por Pinheiro da Cruz. O asfalto, além de aquecer mais os pés, provoca um maior desgaste na sola do calçado. Já perto dos 20 kms, finalmente um restaurante com esplanada. Em primeiro lugar, matar a sede com umas belas cervejas e comer algo com mais substância.

Troco impressões com o Rodrigo, se está tudo bem ao nível dos pés. Responde afirmativamente. Sentados, já podemos falar um pouco mais. A Ana e a Cristina vão bem, de bom humor. A Elsa, sempre com um bom ritmo, também está entusiasmada. O António, o Edu e eu estamos cheios de sede e atestamos.

Pouco depois, finalmente, estamos a sair da estrada e a entrar nos arrozais. Muda a cor e o estado de espírito, saudades do pó e dos cheiros do terreno macio. Vamos caminhando aos pares, nada nos impede de parar e tirar umas fotos às cegonhas e ao ribeiro, enfim, estamos no campo.

Mais um pouco de estrada e chegamos à Praia de Melides. Hora de descalçar e ir à beira-mar até à Praia da Lagoa de Sto. André. Muita gente. Olham-nos com um ar pasmado, pois somos os mais vestidos por aquelas bandas. Sabe bem sentir as ondas a baterem nas pernas, a água está ótima. A areia é um pouco grossa e magoa um pouco os pés.

A distância entre os dois grupos vai aumentando. É difícil de caminhar. Estou com uma vontade louca de dar um mergulho. Olhamos uns para os outros a ver quem se despe primeiro. Sou eu. Tiro a carga de mim e lá vou eu para dentro de água. Outros três do grupo acompanham-me. Está bandeira verde e a temperatura excelente. Ficamos até chegar o último grupo de caminheiras, a areia tinha feito das suas a alguns pés. Finalmente, o primeiro banho depois de tantos quilómetros à beira do mar!

Hora de regressar. O Edu leva de volta a Elsa, a Ana e a Cristina, o António e a esposa deixam-me em Santiago do Cacém com a Virgínia. Pernoitamos na Residencial Covas, com uma simpática gerência que a nosso pedido nos reservou logo um táxi para no dia seguinte, às seis da manhã. Fica na memória um jarro de branco à pressão que nos matou a sede e um bom jantar que nos saciou a fome.

Despesas: Táxi - €16; Comboio - €7+€5; Jantar - €20; Dormida - €22; Vários - €10

VEJA A GALERIA DE IMAGENS E O VÍDEO DESTE DIA:

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Domingo, 25: Lagoa de Sto. André – Porto Covo, 45 kms

Já se notam bem os dias mais curtos. Às seis da manhã, eu e a Virgínia já estamos na esplanada da Residencial Covas, à espera do táxi, pontual. Destino: Parque de Campismo de Sto. André. Temos combinado encontro as 6h30 junto ao parque. O dia vai clareando. Está fresco. Esperamos pelo António e pelo Edu Gonçalves. Uma mais-valia, a esposa do António deslocar-se na viatura, o que alivia a nossa carga.

Iniciamos por um caminho encostado ao parque de campismo, com a indicação de PR1 Vereda dos Brescos. Mais à frente, passamos pelo parque escotista Monte Paio e por herdades com animais, no meio de uma bruma espetacular. A distração com o GPS não perdoa: temos que voltar para trás quase 1 km. Um engano, e lá se vai uma porção de tempo. O caminho é agradável, com a Lagoa como paisagem de fundo. O António e o Edu seguem na frente, eu e a Virgínia mais recuados. Vamos pela Nacional até Sto. André e paramos numa pastelaria para tomarmos o pequeno-almoço. Depois, procuramos uma estrada paralela à auto-estrada até Sines. Depois do Kartódromo, lá descobrimos um estradão em terra que fomos percorrendo durante alguns quilómetros.

A Virgínia, de vez em vez, cuida dos pés para que não aconteça o pior. Abrandamos um pouco e continuamos de seguida. Depois vem a parte mais chata: estrada em alcatrão praticamente sem trânsito. Uma seca! São uns bons quilómetros a penar, muito monótono e árido.

Mais à frente, o estradão que nos leva ao mar. Entramos pela praia do Canto Mosqueiro. Belas paisagens da costa. Para norte, areal a perder de vista. Aproveitamos para tirar umas fotos. Um pequeno desvio por um carreiro nas falésias anima-nos um pouco, com o seu esplendor. Mas é sol de pouca dura. Voltamos à estrada outra vez.

Estamos a entrar em Sines, em ritmo calmo. Continuam as grandes e largas vias alcatroadas e os grandes trevos. Uma estrutura rodoviária um pouco desproporcional. Aparece a vontade de comer qualquer coisa e descansar um pouco. Como o António conhece a cidade, sabe onde devemos parar para beber e comer. Entramos na baía e é logo ali junto à marina, num pequeno bar. Bebemos umas cervejas, com cajus e ovos cozidos. Aproveitamos para tratar dos pés e apreciar a praia, que por sinal tem pouca gente, talvez por causa das manchas mais negras na areia.

Com a barriga satisfeita e os pés tratados, levantamos âncora e prosseguimos. Estrada e mais estrada. Eu e a Virgínia ficamos um pouco para trás e comeamos a fazer contas às horas. Vamos pela berma e há muito movimento na estrada. Engraçado um vendedor de melão ter-nos oferecido uma fatia a cada um, o que nos adoça a boca.

Faltam 8 kms para Porto Covo e o relógio não para. Mais uma bebida e arrancamos todos juntos novamente. Começo a equacionar a possibilidade de chamar um táxi para chegarmos a tempo do expresso, visto que temos bilhetes pré-comprados. Aos 5 kms da chegada seria o ponto crucial em que teríamos de decidir, pois estávamos mesmo a queimar o horário. A estrada é horrível, nem bermas tem, e os carros passam a grande velocidade. Aviso o António de que vou chamar um táxi. Quinze minutos depois, está ao pé de nós.

Os taxistas são muito simpáticos, já estão habituados a estas andanças de caminheiros na Rota Vicentina. Contam histórias de andarem com a bagagem de um lado para o outro, pois engane-se quem pensa que quem anda a pé não tem fundo de maneio. Conversa de motorista. Chegamos a Porto Covo num instante, abancamos num café e matamos a sede com um branco fresco que, depois de 40 kms, cai-nos bem.

O António e o Edu ainda seguem a caminhar a grande ritmo, já a tocarem nos 45 kms. Por sorte, encontro a esposa do António e vamos diretos ao carro para levantar a nossa bagagem. Entretanto, eles estão também a chegar ao carro e levam um abraço por este grande esforço quase a conta-relógio.

Volto à esplanada onde está a Virgínia e esperamos 10 minutos pelo expresso que nos vai levar a Lisboa. Grande dia, apesar de muito alcatrão. Fica-me na memória que na Praia de S. Torpes a água é quente devido ao processo de refrigeração da central. Às 21h, chegamos a Lisboa. Duas horas de viagem em que dá para dormir um pouco e olhar o pôr-do-sol como fim de mais uma etapa.

Despesas: Táxi - €20 + €10; Comboio - €13; Expresso RN – €15.60; Vários - €10

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As 16 etapas do projeto Costa a Pé

1) 26 e 27 de janeiro: Monção – Caminha – Viana do Castelo, 47 + 27 kms

2) 23 e 24 de fevereiro: Viana do Castelo – Póvoa de Varzim – Porto, 53 + 42 kms

3) 23 e 24 de março: Porto – Ovar – Aveiro, 44 + 38 kms

4) 25, 26, 27 e 28 de abril: Aveiro – Tocha – Figueira da Foz – Pedrógão – Nazaré, 47 + 38 + 38 + 45 kms

5) 25 e 26 de maio: Nazaré – Peniche – Ribamar, 51 + 36 kms

6) 8, 9 e 10 de junho: Ribamar – Ericeira – Almoçageme - Cascais, 36 + 27 + 27 kms

7) 13 de junho: Cascais – Lisboa, 33 kms

8) 22 e 23 de junho: Trafaria – Meco – Sesimbra, 30 + 25 kms

9) 20 e 21 de julho: Sesimbra – Setúbal – Comporta, 30 + 28 kms

10) 24 e 25 de agosto: Comporta – Santo André – Porto Covo, 36 + 34 kms

11) 21 e 22 de setembro: Porto Covo – Almograve – Odeceixe, 35 + 37 kms

12) 26 e 27 de outubro: Odeceixe – Chabouco – Vila do Bispo, 35 + 31 kms

13) 23 e 24 de novembro: Vila do Bispo – Sagres – Lagos, 33 + 37 kms

14) 28 e 29 de dezembro: Lagos – Portimão – Armação de Pêra, 28 + 27 kms

15) 25 e 26 de janeiro de 2020: Armação de Pêra – Quarteira - Olhão 31 + 35 kms

16) 23 e 24 de fevereiro de 2020: Olhão – Cabanas – Vila Real de Santo António 35 + 25 kms