"Ninguém nasce ensinado", diz o ditado. A investigação de Elizabeth Spelke, professora da Universidade de Harvard, EUA, mostra exatamente o contrário. Spelke está, há 30 anos, a tentar demonstrar que existe todo um portfólio de conhecimentos que já vem instalado à nascença. No seu babylab, aquela psicóloga analisa bebés e crianças, em brincadeiras concebidas para avaliar o seu grau de conhecimento de... conceitos matemáticos - pasme-se! Através de brinquedos e jogos, a diretora do Laboratório de Estudos do Desenvolvimento verificou que a noção de número/quantidade ou até de geometria é inata. "As crianças, bem como os peixes-zebra ou as galinhas, conseguem reorientar-se numa sala, usando noções de geometria", exemplificou Spelke, recentemente, num simpósio de neurociências organizado pela Fundação Champalimaud, em Lisboa. Já as capacidades de ler mapas, interpretar fotografias ou falar são "exclusivas dos humanos, mas também não dependem de treino".

Uma das áreas que desperta maior interesse nas neurociências é a da aprendizagem e memória. Entender o que se passa no cérebro durante este processo pode ajudar a travar a doença de Alzheimer e a demência, ou aumentar a capacidade mental. Timothy Salthouse, diretor do Laboratório de Envelhecimento Cognitivo, da Universidade da Virginia, nos EUA, acompanhou 2 mil pessoas, durante sete anos, com idades entre os 18 e os 60 anos. E concluiu que o auge das capacidades cognitivas, como o raciocínio, a visualização espacial ou a rapidez do pensamento, é atingido aos 22 anos. Por outro lado, a memória começa a decrescer a partir dos 37. Já os conhecimentos gerais ou o vocabulário continuam a aumentar, até aos 60 anos, altura em que a memória diminui acentuadamente. Salthouse sublinha, no entanto, numa publicação universitária, que há muitas variações individuais. "Há pessoas que mantêm um elevado nível de performance em todas as idades. O que fazem, ou herdaram, para envelhecer a um ritmo diferente?", questiona.

EXPANDIR A INTELIGÊNCIA

Até há uns anos, os cientistas pensavam que o cérebro parava de criar novos neurónios, após o nascimento. No entanto, hoje sabe-se que o seu processo de formação, a neurogénese, continua na vida adulta, em duas áreas específicas, migrando, depois, para estruturas como o hipocampo - uma região muito importante na formação da memória semântica e episódica (ver infografia). É adquirido que existe uma correlação entre a estimulação mental e o aumento da neurogénese. Por outro lado, o stresse, a ansiedade e, lá está, o envelhecimento parecem diminuí-la. Como é que estas novas células, frescas e sem memórias, que não param de chegar, se encaixam nas ligações já existentes, constitui uma questão que atormenta boa parte dos neurocientistas. 

Atsushi Iriki, do Instituto Riken para a Ciência do Cérebro, no Japão, estuda a inteligência e tem, nos macacos, as suas cobaias. Depois de os treinar, durante duas semanas, para apanhar bolas, usando uma ferramenta, verificou que o cérebro dos animais se tinha expandido 23 por cento. "Nos matemáticos, que treinam a vida toda, registam-se aumentos de até 3 por cento", disse Atsushi Iriki, à VISÃO, numa recente passagem por Lisboa, para participar num simpósio da Fundação Champalimaud. "Não sabemos, ainda, o que está a acontecer no cérebro: podem ser mais neurónios, mais sangue, mais células da glia [que protegem e suportam os neurónios]", avança. "Também não sabemos até onde podemos ir na expansão. Mas temos a certeza de que existe um limite."