O PS parece, por estes dias, um jogo de Tetris. Mas, ao contrário do objetivo deste jogo, só algumas peças vão encaixando.

E o ecrã está longe de ficar limpo. Falta aquele pequeno quadrado solitário que se enfileira em qualquer lado, limpando linhas e pondo ordem na "casa". Esse quadrado parece ser António Costa, atual presidente da Câmara Municipal de Lisboa, que já teria confidenciado a um pequeno círculo de socialistas, na semana passada, que sim, ia disputar a liderança do PS. Segundo apurou a VISÃO, o presidente da Câmara de Lisboa terá sido recentemente visitado, em sua casa, por alguns dos principais banqueiros portugueses, que lhe deram uma espécie de "aval". Na reunião, os homens fortes da Finança terão mostrado preocupação com o atual rumo da oposição e, sabendo que o Governo pode estar por um fio, num cenário de crise política, temem a falta de "alternativa credível", por, alegadamente, "faltar experiência" à atual liderança do PS.

Subitamente, o calendário socialista acelerou. Na terça-feira, a Comissão de Política Nacional reuniu-se (à hora do fecho desta edição ainda decorria a reunião), no Largo do Rato, para aclarar posições e, no próximo dia 10 de fevereiro, em Coimbra, é a vez de a Comissão Nacional órgão máximo entre congressos discutir a situação política e marcar a data do Congresso do partido, que será precedido de eleições diretas para o cargo de secretário-geral. Mas há ainda uma outra data a ter em conta: 5 de fevereiro. Nessa terça-feira, a Concelhia de Lisboa do PS quer anunciar o nome do candidato às eleições autárquicas na capital. Nos próximos dias, as peças vão começar a encaixar-se.

A dúvida reside em saber o que faria António Costa em relação a Lisboa, ao formalizar a sua candidatura a secretário-geral do partido, o que fará "caso o lider não consiga unir o PS", até à reunião do Conselho Nacional, agendada para o próximo dia 10. Avançando para a capital corre o risco de o pretendente do PSD, Fernando Seara, que muitos consideram uma "máquina" em campanha eleitoral capitalizar essa opção, colocando, perante o eleitorado, o adversário como um putativo edil a prazo, dada a sua intenção de correr para primeiro-ministro.

No PS, os "ânimos estão exaltados", mas para o "lado da entourage de Seguro ", refere um deputado, para quem a mudança de opinião do atual secretário-geral quanto à urgência de marcar a data do Congresso "não bate certo". Afinal, "havia mesmo pressa", diz outro parlamentar.

E um outro socialista "desmonta " as intenções de António José Seguro: "Foi tudo uma encenação. Seguro já tinha decidido marcar o Congresso para antes das autárquicas, mas como o Pedro Silva Pereira falou [disse: "Se é necessário acelerar os calendários, conviria, também, que o Congresso pudesse realizar-se tão rápido quanto possível."] lançou os peões para o criticar." Ao perguntar "qual é a pressa?" e, dois dias depois, marcar as reuniões da Comissão Política e da Comissão Nacional, Seguro pôs a bola do lado de António Costa.

Força-o a tomar uma decisão. "Se, com este cenário, Seguro pensa que Costa não se candidata à liderança do PS vai sair-lhe o tiro pela culatra", refere um deputado que responsabiliza a direção do partido pela eventual perda da Câmara de Lisboa.

Seguro com as bases

Mas António Costa não tem a vida facilitada nas bases socialistas, muito bem "oleadas " pelo atual secretário-geral. Em caso de, a curto prazo, se realizarem as eleições diretas para líder do partido e, posteriormente, o Congresso, o challenger de António José Seguro não terá muito tempo para ampliar e consolidar os apoios não tem tropas e está apenas à espera de uma vaga de fundo. Aparentemente, Costa considera que essa vaga começou a movimentar-se. E o empurrão de Carlos César, que o elogiou como "homem de Estado" e, enigmaticamente, mostrou esperanças de voltar a trabalhar com ele (no Governo?), foi muito importante. Costa abriu o Congresso açoriano, Seguro encerrou-o e tiveram idêntico protagonismo, num episódio que pode ter assinalado o arranque da pré-campanha interna. Foi, aliás, visível a frieza entre César e Seguro que, à despedida, apenas fez um aceno ao ex-líder regional, e lhe gritou, de relativamente longe: "Carlos, um abraço"...

Em todo o caso, o aparelho continua com António José Seguro. Vários elementos da direção do PS percorrem o País, ao fim de semana, em contacto com as bases, numa política de proximidade de que Costa é incapaz. Note-se o facto de não ter havido, até ao momento, qualquer conflito na escolha dos candidatos às autarquias.

Os candidatos andam contentes com Seguro e as bases não o enfrentarão, apoiando Costa ou não entrariam nas listas para as autarquias... Um jogo de pequenos interesses de que os partidos são feitos mas que Costa não domina.

Na próxima semana, Seguro vai ter um palco importante, dias antes da reunião da Comissão Nacional, ao ser anfitrião de uma reunião da Internacional Socialista, de que é vice-presidente. Será mais uma demonstração de força, desta vez, jogando no prestígio internacional.

Há quem, facilmente, veja o outro lado da moeda: "Se aparecerem sondagens nacionais que deem António Costa à frente de António José Seguro, como escolha preferencial para primeiro-ministro, as bases podem mudar o sentido de voto." Por outro lado, acalmar as hostes e retardar a velocidade do jogo para ter mais tempo para decidir como encaixar as peças também pode ser uma boa estratégia. "Não há datas boas ou más, há é vantagens e desvantagens. A realização do Congresso antes das autárquicas é desvantajosa para António Costa, mas não há drama nenhum nisso", resume um parlamentar.

Zanga com 30 anos

António Costa e Seguro só convergem no nome próprio e na filiação partidária.

Tudo o resto os separa desde que, em 1984, tiveram uma zanga, na JS. António Costa tinha apoiado o ex-Secretariado, um grupo de dirigentes que se opunha ao então líder Mário Soares. Nessa altura, o velho fundador do PS lançou-lhe uma fatwa: "Trocaste uma carreira política por uma assinatura." E vetou a sua ascensão à liderança da JS, para substituir Margarida Marques. O soarista António Campos, o homem do aparelho, rapidamente "inventou " um então obscuro líder de uma associação de estudantes, José Apolinário, para a "jota". Inesperadamente, Seguro virou as costas... a Costa. E alinhou com o poder interno, vindo, logo a seguir, a assumir o apetecido cargo de presidente do CNJ (Conselho Nacional da juventude).

António Costa nunca lhe perdoou.

O ajuste de contas pode estar por meses.