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Perfil

António Lobo Antunes

António Lobo Antunes

  • O mundo começou a ser feito por detrás

    Foi curioso dado que ele era pequenino e a pistola enorme, e o sujeito espumava, ameaçador, berrando que eu o metera num livro chamado Conhecimento do Inferno. Disse-lhe que sim, era verdade, e pode ler-se o recto, julgo, em qualquer edição mais recente e séria da História de Portugal

  • Não se pode nada contra o céu sobretudo quando está a chover

    Com mais dois ou três compinchas, tão palermas quanto eu, levávamos um frasquinho de Madeiras do Oriente, aos domingos de manhã, para os degraus da igreja de Benfica, no propósito louvável de o exibir a cristãos idosos que subiam, de bengala, os degraus da Eternidade, propondo-lhes, berrando de ternura – Se quer rezar por alma da sua tesão experimente comprar isto e deixa de necessitar de novenas

  • Júlio Pomar

    Gostei do seu sorriso, da ironia terna dos olhos, ele que podia ser implacável, que era implacável. Rimo-nos imenso. O Zé calado, atento, a verificar a temperatura da nossa relação, a sossegar aos poucos, a sossegar de todo, visto que a corrente passava

  • Ná havendo novidade

    O tempo apagará para sempre o que fomos até não termos sido nada. E as palavras que deixarei são provisórias como todas as palavras que se pronunciaram no mundo. Ná havendo novidade, dizia o velhote sem pernas. Mas havendo ou não havendo novidade será assim. A sua cadeira de rodas desaparecerá também. Mesmo o teu nome, António Lobo Antunes, não terá sequer a sombra de uma sombra

  • Uma história de amor

    Não andei a disparar contra os franceses, nem a desmaiar de calor na Amazónia, nem a morrer à fome numa aldeia perto da Póvoa do Lanhoso. Da aldeia perto da Póvoa do Lanhoso ficou-me o Antunes, de Belém do Pará o Lobo, da Alemanha boa parte das feições: que estranha mistura de sangues, latino, judeu, teutónico, sem falar do árabe que a talassemia da minha mãe me legou, ou fenício, ou cartaginês, ou sei lá

  • Embrulhem e vão buscar

    Apesar da angústia que traz consigo há não sei quê de divertidamente apaixonante na composição de um livro. Escreve-se numa espécie de estado segundo, a flutuar, tudo é ao mesmo tempo denso e leve, resistente e submisso, impossível e fácil. Era o que faltava que me deixasse vencer. A única questão complicada é que é perigoso, não existe rede por baixo como têm os trapezistas

  • Zé Tolentino

    Esta crónica não vai ser comprida porque está cheia de amor, amizade, respeito e ternura e esses sentimentos poupam-se. Só quero dizer quanto te agradeço não por seres meu amigo, só quero dizer quanto te agradeço por eu ser teu amigo

  • Tudo o que a vida nos pode dar é um certo conhecimento dela que chega sempre tarde demais

    A nossa vida é feita igualmente de tanta coisa boa. Até no horror há coisas boas às vezes: um sorriso, por exemplo. O que há melhor que um sorriso? O que há melhor que um amigo? O que há melhor que ler? Ou que o céu de Lisboa em junho? Ou uma criança a dormir? É um privilégio imenso estar vivo, uma grande honra a que temos de ser fiéis. Sê fiel até à morte, diziam. Eis o mais importante: ser fiel até à morte