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Perfil

António Lobo Antunes

António Lobo Antunes

  • Foi assim

    Eis-me aqui em Lisboa mas nunca saí inteiramente de lá. Já não tenho camuflado, já não tenho arma, já não tenho cabelo loiro. O que tenho eu então? O que aconteceu à minha G3, o que me aconteceu a mim?

  • A partir dos cinquenta quem manda é o cavalo

    Como era o nome do muralista? Rivera, isso. Ainda cá canta, o México, nem o cavalo me desvia dele, palavra de honra. Depois dos cinquenta é o cavalo quem manda mas eu continuo no selim. Com o futuro talvez não à minha frente, atrás, mas continuo no selim. Por mais esforços que o tempo faça não me tira daqui. Posso baloiçar, posso escorregar mas aguento. Torto mas aguento. Quase a tombar mas aguento

  • Os livros. Nós – 4 (crónicas pequeninas)

    Trabalhei como um danado, diariamente, anos a fio, de modo que me sinto no direito de repetir a frase de Bocage, depois de dizer aos outros um poema seu: – Isto é meu, isto não morre que é a única eternidade a que posso aspirar e que, de qualquer maneira, não me servirá de nada

  • O meu pai Nós – 3 (crónicas pequeninas)

    À hora do jantar interrompeu a música, sentou-se na cabeceira da mesa, no lugar dele, esperou que chegássemos com a mãe e ocupássemos os nossos lugares, tirou os óculos escuros que enfiou no bolso, parecia sereno e distante, quase indiferente, praticamente não tocou na sopa nem no que havia para comer a seguir, e ali ficámos todos calados durante o tempo da refeição

  • Crónica familiar Nós – 2 (crónicas pequeninas)

    Por baixo da tua aparente distância, tu que algumas pessoas consideravam arrogante, havia um coração de oiro e uma discreta bondade sem fim. A tua relação com o pai era complexa e competitiva. Eu nunca entendi bem essa fraqueza tua por me estar nas tintas para uma opinião que não fosse a minha. Fiz sempre o que queria e não me interessavam guerras inúteis

  • Ontem voltei a ser feliz

    E sentou-se de pistola na mão, e depois abraçou-me, e depois desatou a chorar porque a vida não é verdade, porque a vida senhor doutor, porque a vida, porque a vida, porque a vida, o enfermeiro pegou na pistola

  • Zé

    Ambos pouco tolerantes aceitávamos sem qualquer dificuldade o feitio complicado do outro. O Zé costuma dizer – Posso ser amigo de um pintor, de um pedreiro, de um médico. Para ser amigo de um escritor tenho que admirá-lo. E, (...), aceitávamos o outro e criámos uma relação indestrutível

  • A gente os três

    Numa das ocasiões em que lá foi espreitou a minha turma pela janela e voltou aterrada porque eu me achava sentado ao contrário na carteira, a olhar para o tecto. Segundo ela a setora de Francês perguntou-lhe – Como é que eu podia chumbar aqueles olhos azuis? e a minha mãe chegou a casa capaz de estrangular-me, a repetir advérbios de modo que levou a minha infância a atirar-me à cara: – Francamente