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António Lobo Antunes

António Lobo Antunes

  • Uma história de amor

    Não andei a disparar contra os franceses, nem a desmaiar de calor na Amazónia, nem a morrer à fome numa aldeia perto da Póvoa do Lanhoso. Da aldeia perto da Póvoa do Lanhoso ficou-me o Antunes, de Belém do Pará o Lobo, da Alemanha boa parte das feições: que estranha mistura de sangues, latino, judeu, teutónico, sem falar do árabe que a talassemia da minha mãe me legou, ou fenício, ou cartaginês, ou sei lá

  • Embrulhem e vão buscar

    Apesar da angústia que traz consigo há não sei quê de divertidamente apaixonante na composição de um livro. Escreve-se numa espécie de estado segundo, a flutuar, tudo é ao mesmo tempo denso e leve, resistente e submisso, impossível e fácil. Era o que faltava que me deixasse vencer. A única questão complicada é que é perigoso, não existe rede por baixo como têm os trapezistas

  • Zé Tolentino

    Esta crónica não vai ser comprida porque está cheia de amor, amizade, respeito e ternura e esses sentimentos poupam-se. Só quero dizer quanto te agradeço não por seres meu amigo, só quero dizer quanto te agradeço por eu ser teu amigo

  • Tudo o que a vida nos pode dar é um certo conhecimento dela que chega sempre tarde demais

    A nossa vida é feita igualmente de tanta coisa boa. Até no horror há coisas boas às vezes: um sorriso, por exemplo. O que há melhor que um sorriso? O que há melhor que um amigo? O que há melhor que ler? Ou que o céu de Lisboa em junho? Ou uma criança a dormir? É um privilégio imenso estar vivo, uma grande honra a que temos de ser fiéis. Sê fiel até à morte, diziam. Eis o mais importante: ser fiel até à morte

  • Tocar lira antes de morrer

    Chaplin contava que após terminar um filme sacudia a árvore, e todas as cenas que não se aguentavam nos ramos eram eliminadas. Eu lia o material fazendo troça dele, utilizando uma voz de desenhos animados a fim de fazer saltar os erros, as asneiras, as redundâncias, gritava as frases, sussurrava-as, desprezava-as. Se elas se aguentassem talvez servissem. Isto aprendi de Flaubert

  • O Conde de Redondo

    Caminhava rente à parede comprida do Hospital Miguel Bombarda, repleta de cartazes que se desfaziam e grafitis de toda a ordem. Lembro-me um que afirmava EU NÃO SEI SENÃO SONHAR numa caligrafia caprichosa, perfeita, que um segundo artista comentou a carvão, em letras apressadas NUNCA CAGAS?

  • A longa brevidade da vida

    Voltando à Professora Mahler estar com ela era isto o tempo inteiro. Tinha sempre em casa músicos vindos da sua terra que ela achava talentosos e ajudava com a sua generosidade. Uma ocasião era uma pianista que convidei para sair comigo. A Professora olhou-me furiosa: – If I was younger I would seduce you (se eu fosse mais nova seduzia-o)

  • Crónica com a Avó Margarida no fim

    A sensação desagradável, eu que não sou hipocondríaco, que o meu corpo está a mudar, se afasta permanecendo aqui, não sinto febre, não sinto dores, não descubro nenhum sinal de alarme claro, apenas um incómodo difuso, uma agitação vaga ao longe, a sensibilidade da pele diferente, o meu corpo, estranho, a afastar-se devagarinho de mim, os meus sentidos, como explicar isto

  • Seráque Seráque

    Desisto, recomeço, nem um parágrafo se aproxima de mim, qualquer coisa lá ao fundo, na cabeça, que ao chegar devagarinho, na esperança que não dê por ela, reparo que não é nada e isto durante horas, dias, semanas, onde pára o meu livro

  • Uma história de amor

    E realmente, aos trinta e dois anos, sou velhíssimo, aposto que a batina vermelha de menino do coro já não me serve, os calções não me servem, de certeza que nada me serve, a menina para mim – Como é que te passou pela cabeça que eu podia apaixonar-me e casar contigo, és tão tonto