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António Lobo Antunes

António Lobo Antunes

  • A gente os três

    Numa das ocasiões em que lá foi espreitou a minha turma pela janela e voltou aterrada porque eu me achava sentado ao contrário na carteira, a olhar para o tecto. Segundo ela a setora de Francês perguntou-lhe – Como é que eu podia chumbar aqueles olhos azuis? e a minha mãe chegou a casa capaz de estrangular-me, a repetir advérbios de modo que levou a minha infância a atirar-me à cara: – Francamente

  • A viagem à China

    Meu Deus o que eu teria gostado de, aos cinco anos, viajar à China com o meu pai. Ou sozinho. O problema é que não conheço muito bem o caminho, não estou certo se para a China se vira antes ou depois do Marquês de Pombal, se é necessário passar pelo Areeiro, se há uma seta nos Olivais com a palavra China por baixo

  • MÃE

    Os nossos mal entendidos residiam nisso: eu só me preocupava com o centro da Terra e a minha Mãe queria que eu fosse uma pessoa responsável e séria. Compreendo-a muito bem: no seu lugar faria os impossíveis para impedir um filho meu de se tornar uma espécie de Ícaro a tombar, de asas desfeitas, no negrume do desconhecido

  • O dentista

    – Estás a ver esta tenaz? É canja: apontas o instrumento à boca, apanhas o que estiver a chatear, puxas para fora e acabam-se os incómodos. Se por acaso o doente protestar enfias-lhe o joelho nas costelas, que é como se faz lá em Portugal e aquilo cai-te logo na mãozinha que é uma beleza

  • Manos

    Com o Pedro, por exemplo, os momentos em que dialogávamos mais eram a seguir ao jantar das quintas-feiras, quando íamos fazer chichi contra a cascata à esquerda do portão, ambos olharmos para baixo, lado a lado, no escuro. Fazer chichi acompanhado é o acto de amizade mais profundo que conheço

  • O doente

    Talvez seja completamente idiota dizer isto mas dei por mim a gostar muito de si. Há uma dor aqui no quarto, filho, mas não sei se sou eu que a tenho. E o meu coração entendeu que daria a vida por mim. Graças a Deus não foi preciso

  • Valerio Adami

    Sempre me espantou ver um pintor trabalhar: por mais agradáveis e pacíficos que sejam basta terem o pincel na mão para se transformarem numa espécie de hienas. A cara deles mete medo, os olhos ficam terríveis. Quando o Júlio, Júlio Pomar, me fez o retrato, estive para ali que tempos a posar enquanto ele avançava para a tela e se afastava, tornado um bicho terrível na iminência de me engolir inteiro

  • José David

    A seguir ao jantar o Zé da Vida mostrava os quadros ao amigo. Levantava-se cedíssimo e trabalhava imenso. O tal António gostava da pintura e do apaixonado entusiasmo da sua vocação. O tal António achava o Zé da Vida, para além de pintor, um santo. Um exemplo de perseverança e generosidade

  • E no Seu Nome esperarão as gentes

    E ali ficámos, agarrados, comigo de novo tão pequeno, tão feliz. Gija. Gija Gija Gija. Os convidados do casamento espantados, as pessoas que olhavam espantadas e eu, muito maior do que ela, de repente pequeno, ao seu colo. Ao seu colo. Tinha um senhor ao lado, que era o marido que eu não conhecia, mas eu queria lá saber do marido. Éramos um do outro, Gija, e voltei a ser o menino de alguém