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Perfil

António Lobo Antunes

António Lobo Antunes

  • A minha vocação ecuménica

    Havia também, isso aprendi mais tarde, certas operações sexuais entre homens que culminavam com aquilo a que chamavam o desafogar do ganso, às quais eu amante dos animaizinhos de pescoço comprido, nunca me dediquei. O Brasil foi fundamental para o refinamento da minha cultura e ainda mais para me impedir de engordar

  • Dava um ano de ordenado por um minuto da minha infância perdida

    Dava tudo para tornar a ver os desenhos animados da minha infância, que a tia Madalena nos levava a assistir aos domingos à tarde, num sítio chamado Chiado Terrasse, que de certeza já não existe e onde me sentia o garoto mais feliz do mundo. As luzes apagavam- -se devagarinho, o écran iluminava-se e principiava a minha alegria, uma alegria como nunca voltei a sentir

  • O meu velho

    Desprezava o dinheiro mas era teso que se fartava, o meu velho, de uma coragem que alguns dos meus irmãos herdaram. Eu nem por isso, tenho dias. Portanto, no meio dos seus inúmeros defeitos, possuía umas qualidadezitas e nunca o vi gabar-se fosse do que fosse. Mesmo assim, em Santa Maria, ainda deu porrada num ou noutro colega que ele considerava desonesto

  • Pedro

    Não falava mal de ninguém. Misterioso, secreto, muito raramente mostrava o que sentia e, apesar do seu silêncio imperturbável, percebia-se que gostava de nós, sem palavras, sem pieguices, sem exibir emoções. Não se queixava de nada conforme, aparentemente, não se zangava com quase nada

  • Um hipopótamo chamado Jorge

    Tudo isto porque uma rapariga de olhos cor do musgo nas árvores velhas pegou no filho pequeno e lhe começou a meter letras dentro. A culpa é sua, senhora. De modo que ando assim. O único medo que tenho é que me apareça um hipopótamo macho chamado Jorge: não me apetece ficar o resto da vida na Penitenciária. Matar um bicho daqueles deve dar uma pena pesadíssima

  • As coisas que mais prazer me deram na vida

    Agrafar mais, carimbar mais, vestir a camisola do Benfica aos quinze anos no primeiro treino, as Variações Goldberg, chegar da mata em Angola, os primeiros passos da minha filha Zézinha, eu a ensinar a Isabel a ler, o meu primo António a explicar-me Se a mãe sêsse o pai puzia gravata, um abraço do meu tio João Maria, o meu pai a deixar-me ganhar-lhe uma corrida

  • O senhor Barata

    As pessoas têm a ideia que a morte é a solidão total num nada completo. E provavelmente é. Julgo que é. Mais: tenho a certeza que é, mas não somos capazes de conceber isso. Não aceitamos conceber isso. De forma alguma nos resignamos a isso. E assim nasceram as religiões. Que todas elas nos prometem, nos garantem, nos juram a existência do dia seguinte e o tornam mais ou menos aceitável

  • Que farei quando tudo arde?

    Como até o mundo era novo nesse tempo. E vi Gouveia em chamas na televisão, e vi a parte boa da minha vida inteira consumir-se em labaredas, e vi a minha saudade a chorar, e vi o cheiro que logo em Carregal do Sal nos conduzia até nós mesmos pela mão. Tudo isto continua em mim, tudo isto nunca se apagará em mim

  • O novo livro

    Um dia levaram o escritor francês Gautier a ver as Meninas de Velázquez. Ficou que tempos a olhá-las até perguntar – Mas onde está o quadro? é isso que me pergunto ao olhar um livro meu: – Onde está o livro? e no entanto está ali, exactamente onde o pusemos. É nosso e não é nosso: em última análise é só dele