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António Lobo Antunes

António Lobo Antunes

  • 10.6.17 (dia da morte do meu Pai)

    Claro que há aqueles malucos como Picasso ou Miró e necessitamos de os ter no Zoológico do nosso espírito embora entreguemos o nosso dinheiro a imbecis oportunistas a que chamamos gestores. E, claro, os gestores gastam mais do que gerem, com o seu português horrível e a sua habilidade de vendedores ambulantes: Porquê? Porque nos sossegam. Salazar sossegava

  • O Liceu Camões

    Um dos contínuos, que tinha um gabinete minúsculo e uma mala muito grande, recebia uma porção de professoras no dito gabinete. Abria a mala, que estava cheia de lingerie mais ou menos transparente e outras coisas esquisitas que a minha mãe também não tinha e as setôras vinham comprar

  • Crónica do menino de par de estalos

    Devia ser um chato para os outros e era também um chato para mim. Tirando escrever não me apetecia mais nada, e as pessoas eram todas tão óbvias. Portanto fui um aluno péssimo, uma criança esquisita, uma entidade insólita e sofria como um cão com isso. Seguiu-se a pavorosa chumbada do liceu, sem ligar nenhuma às aulas, com notas miseráveis. Como num instante metia meia dúzia de noções no caco aos dezasseis anos matricularam-me na Faculdade de Medicina

  • A Bíblia de Frederico Lourenço

    Para mim, que sempre tive com Deus uma relação complicada, que tanto me zango com Ele, que às vezes sou tão injusto (ou talvez não, pode ser que em algumas ocasiões a razão esteja do meu lado) que me apetece, quando me interrogam acerca da nossa relação, responder como Voltaire (– Cumprimentamo-nos mas não nos falamos) mas este trabalho de Frederico Lourenço fez-me aproximar mais d’Ele e de Cristo

  • Agustina

    Os livros de Agustina são um alimento difícil porque a transgressão sistemática dos nossos conceitos racionais é metodicamente eficaz, substituindo- -os por uma espécie de nudez primordial. E sai-se dos romances como de um pesadelo implacável, irónico, terno, violento, doce, obscuro e evidente

  • Os meus manos

    Pela primeira e última vez, fiz-lhe uma festa na cabeça ao sair. Foi um momento tão intenso de amor: vi-lhe as pálpebras tremerem e foi tudo. Foi tanto. O João falou-me nisso, que tempos depois, uma só ocasião. Nunca nos criticámos também. O máximo que podia sair-nos da boca

  • Subsídios para a biografia de Dinis Machado

    A avó do Dinis dirigia uma casa de prostituição onde ele comia em miúdo com as raparigas que lá trabalhavam e das quais falava, é evidente, com o maior respeito. Levei-o para minha casa (eu nessa época estava sempre a levar gente para casa) onde ele ainda viveu longos meses, obriguei-o a escrever na mesa em que eu escrevia, alimentado a tabaco e a água das pedras