O Governo português vai repensar toda a rede de carregamento de carros elétricos em Portugal. O secretário de Estado da Energia, Artur Trindade, garante que a aposta nos veículos elétricos é "muito interessante", mas o custo unitário da estrutura de carregamento "é quase proibitiva". Para o secretário de Estado, a atual rede "só é viável com o recurso a dinheiros públicos".

"Está pedida uma avaliação de todo o projeto. O Governo quer saber quanto custam as alternativas. O desafio seguinte será desenvolver a rede de carregamento sem ser à custa do erário público", diz Artur Trindade.

Segundo aquele elemento do executivo de Passos Coelho, a realidade tem vindo a mostrar que quem tem carros elétricos utiliza mais "a garagem de casa ou do escritório para efetuar os carregamentos ". Outra das razões que levaram a repensar a estrutura da rede Mobi-e é o "aspeto de vulnerabilidade" dos pontos de carregamento da rua. Além disso, para Artur Trindade, "é inconcebível que o custo do estacionamento do veículo seja superior ao custo da energia elétrica".

As críticas ao atual modelo da rede, não justificam que o Governo queira acabar com a estrutura já existente, que conta já com cerca de mil postos de carregamento instalados nas principais cidades do País. Bem pelo contrário: "A ideia é aproveitar melhor o que já está feito", remata Artur Trindade.

O mercado de carros elétricos em Portugal caiu cerca de 65% nos primeiro semestre do ano, quando comprado com igual período de 2011, segundo os dados da ACAP - Associação do Comércio Automóvel de Portugal. Valores que podem por em causa uma das grandes apostas do País: uma aposta forte na mobilidade elétrica, com o objetivo de reduzir a nossa dependência dos combustíveis fósseis, diminuir as emissões de carbono para a atmosfera, melhorar a qualidade do ar e reduzir o ruído nas grandes cidades.

 

 

MENOS INCENTIVOS, MENOS VENDAS

Segundo os principais representantes do setor automóvel, a redução da venda deste tipo de veículos deve-se, em primeiro lugar, à quebra generalizada de vendas do setor automóvel menos 42% no primeiro semestre devido às medidas de austeridade.

Mas, também, pelo facto do Governo ter acabado com os incentivos financeiros, no valor de 5 mil euros, para aquisição de carros elétricos, criados pelo governo anterior, medida que foi revogada pelo atual executivo. Aliás, um dos grandes investimentos industriais que Portugal iria receber ligados aos carros elétricos, a construção em Cacia, Aveiro, de uma fábrica de baterias da Nissan.

Apesar dos responsáveis da marca nipónica justificarem que o cancelamento do projeto se deveu à "inviabilidade desta fábrica", o fim dos incentivos à compara de veículo elétrico teve um peso forte na decisão, pois o projeto tinha sido negociado em consonância com o anterior governo.

A APOSTA INTERNACIONAL

Enquanto em Portugal acabam os incentivos à compra deste tipo de veículos, um pouco por todo o mundo, os responsáveis governativos fazem uma forte aposta na mobilidade elétrica. Na cidade olímpica, a marca alemã BMW, patrocinador dos Jogos, cedeu uma frota inteiramente movida a eletricidade para permitir a deslocação dos atletas entre os alojamentos e as instalações onde se realizam as provas. O Governo francês decidiu criar incentivos fiscais mais arrojados para dinamizar o uso de veículos elétricos no país. No Japão, o executivo vai dar fortes apoios a quem construa casas já preparadas para carregar veículos elétricos. O Governo dinamarquês, um dos países com os impostos mais elevados para os automóveis, decidiu, em 2009, isentar fiscalmente os veículos elétricos. Mas este tipo de iniciativas não se fica apenas por países ou Estados. A Google, uma das maiores empresas do planeta, decidiu ela própria desenvolver uma rede de carregamento de carros elétricos, que conta já com cerca de 500 pontos, que abastecem não só a sua frota, cada vez mais reforçada, como de todos os seus funcionários que optem por este tipo de veículo.

E muitos mais exemplos se poderiam referir, desde Israel, passando por vários estados norte-americanos e cidades europeias que optaram por criar incentivos ao uso de veículos elétricos com melhores condições que as praticadas no país.

Ao contrário da tendência internacional, o Governo português decidiu terminar com o incentivo de 5 mil euros para ajuda à compra de carros elétricos, acabando com uma das apostas em que o País estava na liderança internacional e era apontado como exemplo a seguir.

Afinal, o setor dos transportes é um dos principais responsáveis pela fatura energética que pagamos e pelas emissões de carbono para a atmosfera. Para poupar nos incentivos fiscais, e arrecadar mais impostos, estamos, assumidamente, a perder terreno numa corrida que liderávamos. Quanto nos custará este recuo no futuro?

 

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