María e eu (ASA) do autor espanhol Miguel Gallardo (cocriador da personagem Makoki e colaborador em revistas emblemáticas, como El Víbora ou Cairo) é sobretudo uma chamada de atenção, feita carta de amor. Ou vice versa. Originalmente publicada em 2007 a obra teve grande aceitação em Espanha, sendo posteriormente (2010) transformada em documentário.

Á primeira vista esta é uma história autobiográfica simples e terna sobre as férias estivais de um pai e de uma filha num pachorrento complexo turístico na Gran Canária. Mas claro que falta referir um pormenor. María, a filha de Miguel Gallardo, é autista. María e eu mistura pois retratos anódinos do quotidiano com as alegrias e os desafios inerentes às características de María, incluindo observações pedagógicas do autor quanto aos mitos (e medos, e olhares de soslaio) que geralmente rodeiam o autismo em particular, e as idiossincrasias comportamentais em geral. Tendo em conta os objetivos do livro ao desenho pede-se uma funcionalidade icónica de base; que Gallardo transgride em momentos de maior tensão ou fragilidade, usando a cor vermelha como pontuação, ou exacerbando a característica interessante de o traço não ser contínuo, mas resultar de um conjunto sobreposto de traços. Mas o desenho não é aqui apenas desenho, é a ferramenta utilizada por Miguel Gallardo para poder comunicar melhor com a filha, e de modo a que esta também se possa exprimir e viver (graficamente) o seu mundo (de resto Gallardo lista María como coautora). Não será coincidência que uma solução deste tipo tenha sido trabalhada por um pai/autor de BD, e a empatia que os protagonistas conseguem estabelecer com recurso ao desenho cria momentos a um tempo simples, conseguidos, ternos e pungentes. Claro que há sinais do inevitável desgaste subjacente a quem tem um filho autista. O pormenor de Miguel Gallardo escolher deliberadamente um hotel frequentado por turistas alemães é, por si só, esclarecedor: a distância criada ao rodear-se de estranhos com os quais não comunica, tem paralelismo óbvio na relação de María com o que não lhe é familiar.

Há em María e eu uma componente de terapia pessoal e (auto)validação de um percurso comum a outras obras que têm encontrado leitores fora do universo habitual da banda desenhada. Cancer Vixen de Marisa Acocella Marchetto (editado em português pela ASA) ou Our Cancer Year de Harvey Pekar, Joyce Brabner e Frank Stack são exemplos na área do cancro; Psychiatric Tales do inglês Darryl Cunningham uma abordagem interessante a várias doenças mentais; Stitches de David Small, Stuck Rubber Baby de Howard Cruse ou Fun Home de Alison Bechdel diferentes tipos de abordagens à diferença e à alienação. María e eu emana uma luz simples, é um livro útil e corajoso; mesmo quando parece ingénuo, é-o de modo esperançoso, pela positiva. Mas é justo dizer que outros leitores poderão encará-lo enquanto sintoma de autoilusão piegas; ingénuo sim, mas no pior sentido da palavra. Embora dificilmente o admitam. É aceitável. Lamechice e cinismo ainda não pagam imposto. Dada a riqueza tributária em potência, se calhar pouco falta.

 

 

María e eu. Argumento e desenhos de Miguel Gallardo (com María Gallardo). ASA, 64 pp., 15 Euros.