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A ciência por trás do "food porn": O que faz o bombardeamento de imagens de comida ao nosso cérebro

Estudo do Dia

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LUCILIA MONTEIRO

O mais imediato é sentir "água na boca" quando se vê algo que parece delicioso (ou até quando se lê uma descrição), mas por trás deste efeito há uma série de reações no cérebro

A pornografia continua imbatível no primeiro lugar nas categorias mais pesquisadas na Internet. Mas o que vem logo a seguir? Isso mesmo, comida.

Publicado no início deste mês, o livro Gastrophysics: the New Science of Eating (Gastrofísica: A nova ciência da alimentação, numa tradução livre), de Charles Spence, propõe uma viagem ao mundo do "food porn", ou pornografia alimentar, à luz da ciência.

O autor britânico explica que apesar de o cérebro representar apenas 2% da nossa massa corporal, usa cerca de 25% do total da circulação de sangue. E um dos maiores aumentos da circulação dá-se precisamente quando o cérebro é exposto a imagens de alimentos apetitosos (se às imagens se juntar o aroma, mais pronunciado ainda é o efeito). O primeiro "sintoma" é a salivação, que, garante o especialista, pode ser desencadeado simplesmente pela leitura sobre comida deliciosa.

Perante o "food porn", ativam-se várias áreas do cérebro, incluindo as responsáveis pelo paladar e o chamado "centro de recompensa". A dimensão deste efeito depende de vários fatores: da fome no momento, de estar ou não a seguir uma dieta e de ser ou não obeso (neste caso, por exemplo, a resposta cerebral é mais pronunciada mesmo sem fome).

E como "a primeira garfada é sempre com os olhos" (frase atribuída ao romano Apicius, que viveu no século I), percebe-se a importância cada vez maior dada à aparência dos pratos, seja na publicidade, nas redes sociais, nos programas de televisão, e que resulta no cenário insólito que se vê em muitos restaurantes: chega o prato, fotografa-se, partilha-se e só depois se come.

Charles Spence acredita que a aparência da comida já se tornou um fim em si própria, levando os publicitários a postas em técnicas cada vez mais refinadas. Já percebeu, por exemplo, que a comida em movimento é sempre mais apelativa. Seja no caso da lasanha que se levanta do tabuleiro, fumegante e com o queijo derretido ou na imagem parada mas que apanha o movimento de um sumo de laranja a encher um copo, ou ainda no bolo de chocolate com o centro a derreter... (chega de "food porn?")

O autor chama ainda a atenção para o facto de as imagens de comida serem mais atrativas quando o cérebro do espectador consegue facilmente simular o ato de comer, como quando a comida é mostrada numa perspetiva da primeira pessoa. No caso da publicidade a uma sopa, por exemplo, é mais eficaz se a uma colher se aproximar do prato do lado direito (visto que os dextros estão em maioria) do que do esquerdo.

Dito tudo isto, devemos preocupar-nos com os efeitos da pornografia alimentar? Afinal, olhar para imagens não engorda nem prejudica o organismo... Mas segundo Charles Spence, há, pelo menos, quatro problemas a ter em conta:

1 - Aumenta a fome

Isto é certo: ver imagens de comida aumenta o apetite, mesmo de quem comeu há pouco tempo

2 - Promove uma alimentação pouco saudável

Muitos dos pratos que se vêem na televisão são terrivelmente calóricos. E mesmo que quem assiste a programas de cozinha não tente sequer reproduzir os pratos em casa, o tipo de comida apresentada e as porções que são servidas podem, em muitos casos, levar à ideia de que aquela é a norma.

3 - Quanto mais "food porn" se vê, mais elevado o índice de massa corporal

O autor sublinha que esta ligação não é causal, mas correlacional, pelo tempo que se passa em frente à televisão. E embora os amantes do sofá existam há muito mais tempo que esta obsessão atual com a comida, de uma perspetiva "gastrofísica", a questão é se aqueles que vêem mais comida na televisão têm um IMC mais elevado do que os que assistem às mesmas horas de TV mas sem ser programas de comida. Spence acredita que sim, "dadas todas as provas que mostam que a publicidade alimentar leva ao consumo subsequente, especialmente em crianças".

4 - Esgota os recursos mentais

Sempre que vemos imagens de comida, o cérebro não consegue evitar uma simulação mental sobre a sua ingestão, quase como se não distinguisse imagens de uma refeição de uma refeição real. O que é que isto implica: que usamos vários recursos mentais para resistir, inconscientemente, a todas essas tentações virtuais.