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O segredo para combater a obesidade pode estar... nas embalagens

Estudo do Dia

© Dominick Reuter / Reuters

Quem o diz são três neurocientistas premiados da Universidade de Cambridge

Wolfram Shultz, da Universidade de Cambridge, Peter Dayan e Ray Dolan, ambos do University College de Londres foram ontem galardoados com o Prémio do Cérebro, um prémio de neurociência no valor de 1 milhão de euros por um trabalho que desenvolveram no sentido de compreender o processo cerebral de decisão. Segundo esta investigação, as embalagens coloridas e atrativas que envolvem e publicitam os alimentos ricos em calorias, como os hambúrgueres, as pizzas ou as batatas fritas, despoletam químicos que encorajam o consumo em excesso.

Assim, os investigadores defendem que os alimentos que não são saudáveis devem ser vendidos em embalagens simples e estandardizadas, homogéneas, sem logótipos, cores ou slogans associados, unicamente com o nome da marca do produto, como tem acontecido com o tabaco.

O professor e investigador da Universidade de Cambridge, Wolfram Shultz é um dos pioneiros deste estudo das funções da Dopamina como um agente de "compensação" cerebral e da forma como os humanos aprendem a adaptar os seus comportamentos, libertando uma mensagem química.

Tanto os pensamentos como as sensações associadas a comidas altamente calóricas provocam uma resposta de dopamina que contribuiu para estimular as dietas pouco saudáveis.

"Se sabemos que não devemos ser obesos, então não devemos publicitar, propagar ou encorajar uma ingestão desnecessária de calorias", diz Wolfram Shultz que acrescenta "as embalagens coloridas promovem o aumento do consumo e comprando mais, tendo mais no frigorifico, estando a nossa frente sempre que o abrimos, acabamos por comer e comer em excesso".

Os resultados desta investigação foram conclusivos por razões de saúde publica, em parceria com a luta contra a obesidade, mas tiveram também contributos para o estudo dos comportamentos económicos, dos tratamentos de adições como o jogo ou as drogas e o estudo de comportamentos compulsivos.

O que há de impressionante nesta investigação é o facto de ter começado há 30 anos atrás, quando Schultz estava a estudar os neurónios cerebrais que libertavam esta mensagem química chamada dopamina. Começou por testar animais. Quando lhes era dada uma recompensa como sumo de frutas, os seus neurónios apreciavam muito mas quando lhes era mostrada uma imagem de um sumo de frutas os neurónios também disparavam a libertação da dopamina. Ao longo do tempo, se nunca viessem a ter nenhum sumo real associado às imagens, a reação ia desaparecendo.

A dopamina é, por vezes, encontrada nos medicamentos administrados a doentes com Parkinson para lhes restaurar o movimento normal e para melhorar a cognição. Mas, uma vez que passam a ativar mais este mecanismo de compensação, segundo Ray Dolan que tem tratado muitos destes pacientes, alguns dos doentes de Parkinson tornam-se viciados no jogo, por exemplo.

Os investigadores devem receber o prémio a 4 de maio, em Copenhaga, pelas mãos do Príncipe Frederico da Dinamarca.