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Usar fio dentário é, afinal, uma perda de tempo

Estudo do Dia

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Não, este artigo não foi patrocinado por higienistas interessados em ter muita placa para remover, no futuro próximo. Baseia-se na falta de evidência científica de todos os estudos, feitos até hoje, que comparam o uso da escova de dentes com o uso da escova de dentes combinada com fio dentário

Rosa Ruela

Rosa Ruela

Jornalista

Lê-se muito do que tem sido escrito ultimamente sobre o assunto e apenas uma coisa é certa: o fio dentário é eficaz a remover os pedacinhos de comida que ficam presos entre os dentes. E, quando isso acontece, mais vale usar alguns centímetros dele do que um antiquado palito.

Nada contra um bom palito feito em fábricas com nomes deliciosos como Palitos Campeões, ali no Lorvão, claro. Mas é preciso saber usá-lo sem magoar a gengiva – e , aí, mais ainda do que o fio dentário, a alternativa será a fita dentária, muito mais fácil de ser corretamente manuseada sem causar danos.

De resto, nada se pode escrever sobre a eficácia do fio dentário. O Departamento de Saúde dos Estados Unidos deixou inclusive de recomendá-lo oficialmente – nas suas últimas orientações, que estão em vigor até 2020, não há nem uma palavra sobre ele. Isto porque, segundo a lei, estas orientações devem basear-se em evidências científicas, e todos os estudos realizados até hoje são considerados maus ou fracos.

Os estudos foram postos em causa pela primeira vez em 2011, pelo Cochrane Oral Health Group (uma rede independente de pesquisadores, profissionais, pacientes, cuidadores e pessoas interessadas em saúde), que, ao analisar 12 estudos, encontrou pouca evidência de que usar o fio dentário (além da escova de dentes) reduz o sangramento das gengivas e nenhuma evidência de que reduz a placa.

Este ano, foi a vez de jornalistas da agência de notícias AP olharem com atenção para 25 estudos, concluindo que a evidência da eficácia do fio dentário é “fraca, muito duvidosa”, de “muito baixa” qualidade, e “tendenciosa”. Foi, aliás, esta diligência da AP que fez com que o Departamento de Saúde americano deixasse de recomendar o seu uso, coisa que fazia desde 1979.

Por mais que se saiba que a placa (ou “pedra”, como lhe chamamos corriqueiramente) é uma camada de bactéria misturada com matéria orgânica que cobre os dentes e causa inflamação das gengivas e cáries dentárias, não é por usarmos fio dentário que conseguimos ver-nos livres dela. A maioria das vezes, basta sabermos escovar bem os dentes para ela não aparecer. Na dúvida, utilize-se também um elixir oral e, adeus placa.

Quanto ao fio dentário, mais importante ainda do que usá-lo é saber usá-lo. Se imitar o movimento de uma serra, como faz erradamente muito boa gente, é o mesmo que nada. Para limpar o espaço entre os dentes, o fio deve andar sempre para cima e para baixo.