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"Sentir prazer com a desgraça dos outros é uma emoção humana bastante comum"

Entrevistas VISÃO

Roberto Ricciuti/ Getty Images

Tiffany Watt Smith, historiadora cultural na área das emoções, fala sobre um tema ainda tabu e defende que não devemos diabolizar a emoção de sentir prazer com a desgraça dos outros "nem ficar preocupados se nos disserem que isso faz de nós pessoas terríveis"

Clara Soares

Clara Soares

Jornalista

A primeira coisa que se destaca na sala onde se apresenta para a entrevista, por Skype, é o cartaz da comédia romântica Breakfast at Tiffany’s (Boneca de Luxo, na versão portuguesa), datada de 1961, com a carismática atriz Audrey Hepburn, um ícone da moda e conhecida filantropa. “Gosto de ter o nome dela!”, exclama, a sorrir, a historiadora britânica que trabalhou como diretora teatral antes de se dedicar à docência, na School of English and Drama, e desde então continua a analisar as emoções numa perspetiva cultural.

Aos 41 anos, a investigadora do Centre for the History of the Emotions, na Queen Mary University of London, no Reino Unido, tem dado que falar por causa do livro publicado no ano passado, Schadenfreude: The Joy of Another’s Misfortune (“schaden” significa prejuízo ou dano, e “freude” quer dizer alegria ou prazer). Eleita pela BBC, em 2014, como “pensadora da nova geração”, Tiffany notabilizou-se ainda pelos artigos e pelas palestras na TED Talks, que acumulam mais de três milhões de visualizações. Com presença confirmada na 6ª edição do colóquio Morality and Emotion, que se realiza a 18 de outubro na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, a autora vai falar sobre essa estranha satisfação que pode dar-nos ver o que corre mal na vida dos outros, emoção que foi alvo da atenção do pai da psicanálise, Sigmund Freud, que a estudou há mais de um século. É legítimo interrogar o motivo de este assunto voltar a despertar o interesse de académicos e dos média: será mais prevalecente hoje do que antes? Na curta meia hora de conversa com a VISÃO, a autora esclareceu que a perturbadora emoção acompanha a condição humana desde tempos bem mais remotos, apenas diferindo a forma de se manifestar, até pela proliferação de novos canais de expressão.

Se esta maneira de sentir não constitui um motivo de orgulho, pode ser uma fonte de vergonha ou de embaraço, mas que não nos define na totalidade, o que fazer quando nos bate à porta? Por mais inapropriado que pareça, aceitá-la é o caminho, adianta a historiadora britânica. No final de contas, a Schadenfreude põe a nu a complexidade humana e a paleta de emoções que somos capazes de sentir. Podemos bem com o mal dos outros porque nos faz sentir menos sós nos nossos infortúnios quotidianos. Graças a essa malícia, a essa tábua de salvação provisória, podemos sentir-nos oponentes de peso em momentos de adversidade, sem sucumbir a sentimentos de impotência.

O que a levou a estudar a emoção de comprazer-se com o mal dos outros? Algo que em Portugal se aproxima da expressão “pimenta no cu dos outros para mim é refresco”?
[Risos.] Quero anotar isso! Pimenta porquê?

Havia a tradição de colocar pimenta na língua das crianças que se portavam mal ou diziam coisas que não era suposto…
É hilariante [gargalhadas]! Na língua inglesa também não existe tradução para Schadenfreude. Este conceito tornou-se interessante para mim quando, depois de terminar a minha investigação, me dei conta da quantidade de notícias sobre o estarmos a viver na era da Schadenfreude: celebridades desavindas, intrigas nos tabloides, memes de Trump que acumulavam “gostos”, trolls no Twitter e por aí fora. Quis perceber se estávamos realmente a sentir mais regozijo pelos fracassos e azares dos outros e a corromper-nos emocionalmente. Se assim fosse, era relevante apurar as razões para isso, já que tanta gente parece agora mais preocupada com este assunto. Talvez isso se deva a um equívoco gerado há um século, quando alguém disse à [revista semanal britânica] The Spectator que não havia um equivalente na língua inglesa para Schadenfreude pelo simples facto de tal sentimento não existir no país. Não admira que, ultimamente, andemos tão obcecados com o tema!

As crianças também têm esta emoção, divertem-se ao ver pessoas a cair e em situações desfavoráveis ou humilhantes, seja em programas de entretenimento ou na vida real?
No livro, faço essa pergunta: quando se começa a ter esta emoção, se é na vida adulta ou desde cedo. Freud advogava que as crianças tinham prazer com esses momentos por vingança em relação aos pais – a autoridade – quando eles faziam figuras, mesmo sem querer, que os embaraçavam ou comprometiam. O psicólogo do desenvolvimento Caspar Addyman, citado na minha obra, estuda o riso nas crianças no mesmo laboratório que eu e entende que a excitação e o riso infantil têm a função de estabelecer vínculos em momentos em que são confrontadas com um elemento surpresa e estão a aprender, mais do que devido a razões obscuras e sinistras!

O humor negro, que envolve o elemento surpresa, está relacionado com a Schadenfreude?
Sentir prazer com a desgraça dos outros é uma emoção humana bastante comum. Não devemos diabolizá-la nem ficar preocupados se nos disserem que a Schadenfreude faz de nós pessoas terríveis. É preciso reconhecer que não há nada de errado nisso.

Chegou a referir-se a esta emoção como um desporto de bancada (ou de espetador). O que dizer das arenas romanas, das praxes ou do clássico filme Joker, exemplos que envolvem humilhação e prazeres isentos de culpa?
Usei a designação “desporto de espetador” na medida em que se expõem, com gozo, fraquezas e vulnerabilidades alheias online, mas atrás do ecrã, ou seja: sem o risco de ser agredido ao murro. Aqui, pretendo distinguir o sadismo, que consiste em desfrutar da dor que se causa a outrem, da Schadenfreude, centrada na observação das falhas e dos fracassos dos outros à distância, tirando dessa experiência uma dose de satisfação.

A razão que leva à necessidade de ver outras pessoas na mó de baixo para se sentir bem, ou melhor consigo mesmo, revela inferioridade moral?
Existem várias razões, como a inveja ou a inferioridade, como sugere, e que conferem uma forma de compensação. Noutros casos tem que ver com a forma de nos envolvermos em grupos, em que essa emoção é mais forte, como confirmam os estudos em ciências sociais.

Onde se intensifica a divisão entre o Nós e o Eles?
Precisamente, é um território perigoso porque temos essa política a nível global. Quando um político convida os cidadãos a sentirem Schadenfreude e o faz por uma razão, como faria um publicitário a produzir uma emoção com um determinado fim, é importante reconhecer que isso está a acontecer, para destrinçar quando se trata de algo divertido e agradável ou parte de um relacionamento mais problemático, com um nível de violência instintiva, primária. E, nesse caso, procurar inibir essa sede de sangue ou de curiosidade mórbida.

A Schadenfreude pode ser um mecanismo de defesa usado por grupos minoritários, como na comunidade queer, que estudou?
Fiz um trabalho académico sobre os estilos emocionais, como estes definem uma forma de posicionar-se socialmente e mudam ao longo do tempo. Na subcultura queer, as drag queens valiam-se da língua viperina para se defenderem de quem tentava humilhá-las, humilhando-as também. Essa forma de conduta ganhou uma estética própria na cultura performativa das drag queens, que tem raiz no cross-dressing da época vitoriana, em finais do século XIX. Nos anos 1930, veio a converter--se num novo género performativo. Ao desempenhar estilos emocionais, legitima-se o que foi aprendido na cultura dominante. O uso e a improvisação desses estilos definem a identidade e funcionam também como escudo: é isso que está em jogo.

E não se corre o risco de se ficar no lugar de bode expiatório?
É uma boa questão. Se no começo podia ser assim, e refiro-me às drag queens, nas primeiras décadas do século XX esse estilo começou a entrar na moda.

Até que ponto se pode afirmar que a cultura inglesa é melhor a celebrar os seus infortúnios do que os seus triunfos? Pensando no Brexit…
Parece que sim, nós somos melhores nisso! A Schadenfreude teve uma grande influência no processo, na medida em que o discurso se polarizou: de um lado, aqueles que queriam sair da União Europeia [UE] e, do outro, os que preferiam ficar, além das repercussões que se seguiram nos média sociais. Eu, por exemplo, votei para ficar e sinto uma grande satisfação sempre que constato que um político nosso falha nos esforços para alcançar um acordo. Digo isto apesar de ser eu a sofrer as consequências! O caso do Brexit é um bom exemplo de como a Schadenfreude se manifesta no plano coletivo. O seu poder é tão grande que, mesmo se sofrermos com o resultado, os fracassos sucessivos são geradores de contentamento.

Acaba por ser um paradoxo ou, talvez, uma espécie de haraquiri, não acha?
Chamar-lhe-ia perversidade. Ocorre-me uma história de Milan Kundera e a sua intraduzível litost, palavra checa para uma emoção com contornos semelhantes: um rapaz que tinha um professor violento e temerário decidiu tocar a nota errada no violino vezes sem conta, até que o professor se enfureceu e o atirou pela janela; durante a queda, o rapaz sentia-se vitorioso só de pensar que o homem seria preso pelo crime cometido. Este estranho sentimento existe hoje na Grã-Bretanha. A situação afigura-se de tal modo desastrosa que a crise se torna desejada, apenas como oportunidade de vingança, para se poder dizer “nunca deviam ter saído da UE, vejam só o que fizeram”!

Esse sentimento traduz um imperativo moral ou a via possível para digerir o fracasso?
É um mecanismo de defesa próprio de quem fica no lugar do perdedor. Uma pessoa sente-se melhor com isso, se puder tirar partido desse breve momento de superioridade e de vingança. O filósofo Nietzsche referiu-se à Schadenfreude como a vingança dos impotentes. Impotente face ao Brexit, faz-me bem sentir-me temporariamente poderosa, mesmo sabendo que adotar essa atitude não é grande ajuda. No limite, pode agravar o cenário, ao contribuir para o aumento da polarização e da alienação.

Porque foi eleita, há cinco anos, pela BBC, como pensadora da nova geração?
Aconteceu na sequência da minha carreira no teatro, quando me doutorei em História das Emoções, há quase 20 anos. Interessava-me saber como as culturas científicas e teatrais, no final do século XIX e início do século XX, se articulavam para criar novos significados para as emoções. Trabalhei com esta questão, quer do ponto de vista da gestão das emoções por parte dos atores, quer para conseguir impacto na audiência. Assim, comecei a dedicar-me a explorar o que os atores podiam sentir quando representavam emoções em palco e começavam a senti-las ao mesmo tempo, o que criava neles um sentimento de estranheza. Depois de estudar o assunto, concluí que as emoções não eram apenas um produto que vinha de dentro para fora mas que eram também moldadas pela cultura em que se está, podendo seguir o caminho inverso. Chegámos a equacionar, eu e alguns colegas, as emoções como entidades coletivas que nos influenciam na forma de sentir, em função dos ambientes.

Em que medida é que isso altera o modelo que se tem das emoções?
Costumamos vê-las como respostas fisiológicas ou psicológicas, comuns a todos nós, e creio que Freud as considerava como algo reprimido no interior de cada um, à espera de sair cá para fora, que eu chamaria um modelo hidráulico das emoções. Para mim, são formas de moldar o que sentimos e como o fazemos numa cultura partilhada.

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