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"O mindfulness é a ‘espiritualidade do capitalismo’"

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Em entrevista à VISÃO, Ronald Purser defende que "o mindfulness retira das empresas a responsabilidade pelo stresse que causam e coloca-a nos indivíduos, como sendo algo com que estes têm de aprender a lidar"

Depois de uma troca de emails, combinámos a entrevista para quando Ronald Purser, 63 anos, voltasse de um retiro. Este docente de Gestão na Universidade de São Francisco, na Califórnia, é budista, faz meditação e é professor de Zen Dharma, ordenado, em 2013, pela Korean Zen Taego, uma ordem do budismo, religião que estuda desde 1981. Autor de oito livros (incluindo How Mindfulness Became the New Capitalist Spirituality, editado este ano) e de múltiplos artigos científicos, Ronald Purser é muito crítico do mindfulness que se pratica no mundo ocidental, especialmente no âmbito empresarial. Os seus argumentos são claros: as pessoas usam este tipo de meditação para aprender a lidar com o stresse, stresse esse que é causado pelo contexto laboral em que se inserem. Este mindfulness ao jeito de fast-food acaba por dar uma ajuda às formas mais graves de exploração dos trabalhadores, dizendo-lhes que o stresse é algo com que têm de lidar. Ponto. “O mindfulness envia a mensagem de que os indivíduos são responsáveis pela sua saúde mental, independentemente dos salários ou das condições de trabalho”, diz. Recordando que este tipo de meditação era, na sua origem, um modo de vida, “um caminho de desenvolvimento ético e moral, que levava à sabedoria e à compaixão”, Purser coloca o dedo na ferida desta sociedade obcecada por aplicações de telemóvel, nos intervalos da lufa--lufa diária. Depois de um artigo seu intitulado Beyond McMindfulness se ter tornado viral, Ronald Purser tem falado sobre o assunto em diversas entrevistas e artigos de jornais um pouco por todo o mundo. Além de o ler aqui, vale também a pena espreitar o seu podcast em mindfulcranks.com.

Os efeitos do mindfulness estão sobrevalorizados?
Sim, sem dúvida. Sobrevalorizados e vendidos de forma exagerada. O marketing vende o mindfulness como se fosse bom para toda a gente e para qualquer situação.

E é bom em qualquer situação?
Não. O problema está justamente aí. O mindfulness é vendido como se fosse uma panaceia para qualquer estado mental de ansiedade. Não é bom para toda a gente, e os estudos começam a mostrar que pode, aliás, causar ainda mais ansiedade e que a meditação mindfulness tem efeitos adversos para algumas pessoas. Mas, com isto, não quero dizer que seja completamente inútil ou desprovida de qualquer benefício.

Diz-se que um dos benefícios é que as pessoas tomam o controlo das suas emoções…
Estou mais preocupado com a forma como o mindfulness tem sido usado em determinados contextos como uma forma de controlo social. Falo, por exemplo, do ambiente empresarial, em que o mindfulness é usado como um meio de substituir o fardo, ou seja, de levar os trabalhadores a adaptarem-se e 
mesmo a assimilar determinadas condições de trabalho numa cultura empresarial que é ela própria a causa de tanto stresse. Ou seja, o ónus passa a ser dos indivíduos, e o mindfulness é usado para manter um sentimento de pertença e statu quo em vez de ajudar as pessoas a, coletivamente, trabalhar para que haja mudanças estruturais nas condições de trabalho a que estão sujeitas – e assim reduzir o stresse. Assim, estes problemas laborais ficam reduzidos a uma questão individualizada, como se fosse uma questão de lifestyle com que a pessoa tem de lidar, e não uma questão social e política. Assim, focando-nos no stresse, podemos ser ensinados a ser mindful em vez de olharmos para as condições subjacentes que nos causam tanto stresse.

Como se a culpa fosse dos trabalhadores.
Certo. Retira da empresa a responsabilidade pelo stresse que está a causar e coloca-a nos indivíduos. É por isso que eu chamo ao mindfulness a “espiritualidade do capitalismo”. Se olharmos para o mindfulness promovido pelas empresas – e estas são mesmo iniciativas da gestão –, parece, na superfície, que é uma situação em que todos ganham: podemos aumentar a produtividade mantendo os trabalhadores mentalmente em forma. Mas, ideologicamente, isso funciona como um instrumento para a autodisciplina.

Porque trabalhadores felizes são mais produtivos…
Bem, isso tem sido uma ideia da gestão desde há 60, 70 anos, que vai e vem em diferentes momentos. Mas o mindfulness envia a mensagem de que os indivíduos são responsáveis pela sua saúde mental, independentemente dos salários ou das condições de trabalho.

Então diz que esta doutrina da “autorresponsabilidade” está a distrair-nos dos problemas reais…
Sim. E já há muito tempo. Houve um académico (não recordo o nome) que cunhou o termo self-helpism (autoajuda), e que coloca os problemas a nível do indivíduo. Isso quer dizer que as soluções também são formuladas a esse nível. Isso molda a forma como refletimos sobre os problemas reais, colocando-os no plano do não político, privatizando a luta pelo bem-estar.

Vê-o como um instrumento de desigualdades nas empresas?
Sim, mantém as relações de poder desiguais que caracterizam as empresas e organizações capitalistas. Basicamente, reproduz estas relações de poder através da ilusão da autodisciplina.

Na opinião publicada há quem chame ao mindfulness “uma revolução”, como a Time, por exemplo. É mesmo revolucionário?
O que é que o mindfulness muda radicalmente para ser considerado revolucionário? Ao contrário, acho-o bastante conservador e harmonioso com os valores liberais.

Mas se de facto resulta, se faz as pessoas mais felizes, o que interessa que seja um “instrumento do capitalismo”, como diz?
O que quer dizer com “de facto resulta”? Em que contexto?

Se de facto reduz o stresse…
Isso é o que é apelativo no mindfulness; dizer que é uma técnica que resulta em qualquer contexto para qualquer objetivo. Ao mesmo tempo, é bastante problemático. Resulta com que propósito? O Exército norte-americano pode dizer que resulta para melhorar a performance dos seus atiradores de elite… A questão de fundo é que o movimento do mindfulness está a ser usado para dizer que é o indivíduo que tem de se adaptar às condições políticas, sociais e económicas, que a mudança tem de ser feita dentro da própria pessoa. O que oculta a importância da ação coletiva. O mindfulness é um pobre substituto para a real mudança das organizações, agarrando nos problemas estruturais e reformulando-os como problemas psicológicos.

No entanto, parece libertador poder controlar os nossos próprios níveis de stresse.
Sim, as pessoas ficam com a ilusão de que estão realmente a fazer uma escolha usando estas técnicas. Só que os promotores do mindfulness estão ligados às empresas, às organizações, privadas e públicas. Se vendem os workshops e cursos às empresas, não vão querer tornar-se um problema para as mesmas colocando questões difíceis. Não são uma ameaça para o statu quo ao dizer que o stresse pode ser gerido dentro da nossa cabeça e não interrogando as causas. 
“O stresse é privado, é um problema teu, é um fator que pode ser gerido dentro da tua cabeça” – isso é apenas uma narrativa, e muito limitada, falhando no reconhecimento do contexto da vida das pessoas. Um indivíduo não é um átomo, é também o seu contexto social e político. Por outro lado, normaliza o stresse, naturaliza-o e diz às pessoas: “Olha, o stresse é algo com que tens de lidar, então descobre por ti como lidar com ele, seja através do mindfulness, ioga, o que quer que seja.” Por isso é tão atraente para as empresas e os governos que tentam reduzir os programas e o orçamento da assistência social.

Vê o mindfulness no plano político.
Sim, tornou-se político porque individualiza todas as questões. Promove a ordem e a harmonia social dentro das empresas persuadindo as pessoas de que o stresse que sentem deve-se simplesmente à sua incapacidade de ser mindful, de controlar as suas emoções. O que pode levar um indivíduo a culpar-se por não ser capaz: “Se toda a gente parece estar a beneficiar com o mindfulness, então devo ter alguma coisa de errado.” Mas é muito popular porque é vendido com o foco no campo médico, como uma ideia de bem-estar, uma técnica terapêutica de automonitorização, autorregulação, auto-otimização. Assim é fácil de vender.

Não é consensual a cientificidade do mindfulness como técnica terapêutica?
Há uma grande diferença entre o que os média dizem e o que os artigos científicos dizem. Muitos estudos tiveram conflitos de interesses e o que se está a descobrir agora é que os resultados foram inflacionados. A verdade é que o entusiasmo pelo mindfulness está bem acima do que a comunidade científica tem dito sobre esta técnica. Vendem-no com uma aparência de cientificidade para o tornar credível. Como acontece com qualquer nova dieta que apareça no mercado. Mas não é o caso. Tem-se provado que esses estudos científicos têm inúmeros problemas metodológicos que estão a ser expostos.

Fala contra a exploração dos trabalhadores no mercado livre…
O que eu digo é que as corporações têm responsabilidade pelas condições de trabalho. Porque hão de descartar essa responsabilidade atirando-a para o campo dos problemas mentais? Além disso, ainda usam o mindfulness no campo das relações públicas. Promovendo programas para os seus trabalhadores, fá-las parecer empresas benevolentes. É como as empresas de petróleo e de químicos a aparecer em anúncios de televisão a dizer que estão muito preocupadas com o ambiente…

Estamos então a “consumir” mindfulness como quem vai almoçar ao McDonald’s?
Sim, de facto. O mindfulness é apresentado como uma cura rápida e fácil para o stresse. Como uma fast-food espiritual.

Você faz meditação…
Sim. Mas não tem nada que ver com o mindfulness que é praticado nas empresas.

E é professor de Dharma. O que é isso?
É um passo no percurso de um professor na tradição da escola budista.

É ainda possível espalhar pelo mundo o mindfulness original, na sua versão “lenta”?
Não é possível voltar atrás no tempo. Mas é importante ter consciência de que o mindfulness veio de um contexto social, cultural e político completamente diferente do que o temos agora. Apareceu há séculos na Índia e o seu propósito não era apenas tirar o stresse e fazer com que as pessoas se sentissem um pouco melhor, mas percorrer um caminho espiritual que incluía muitas outras coisas além da meditação per si. Um caminho de desenvolvimento ético e moral, que levava à sabedoria e à compaixão. O contexto original do mindfulness era baseado na libertação espiritual que pretendia reverter as causas do sofrimento dos seres humanos. Era uma tradição monástica e as pessoas dedicavam-lhe toda uma vida; e não apenas três minutos por dia através de uma aplicação qualquer. Não era sobre o “eu”; pelo contrário, era uma forma de se libertar das fronteiras do “eu”. O que vemos agora é um mindfulness como terapia centrada no “eu”, no bem-estar, algo reduzido a uma competência. É muito diferente.