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"Os partidos acham que as sondagens influenciam o comportamento dos eleitores. E eu acho que, se eles acham, provavelmente, têm razão..."

Entrevistas VISÃO

Luis Barra

Entrevista a Pedro Magalhães, investigador principal do Instituto de Ciências Sociais

Filipe Luís

Filipe Luís

Editor Executivo

Durante anos responsável pelas sondagens da Universidade Católica, o cientista político Pedro Magalhães, 49 anos, investigador principal do Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa, dá a cara pelos estudos de opinião do ICS/ISCTE, encomendados pelo Expresso e pela SIC para estas eleiçõe. Numa conversa decorrida no seu gabinete do campus universitário, explica o que a investigação nos permite saber sobre o “estado de alma” atual dos portugueses...

O tema “corrupção” tem dominado as preocupações das pessoas, nos últimos estudos de opinião...
Tem crescido...

Tem crescido. Mas porquê agora, e não antes, sabendo-se que a corrupção é um problema transversal a várias épocas?
Estamos num contexto em que um dos temas tradicionais de destaque, a economia, se tornou pouco interessante, porque, apesar de o nosso crescimento económico ser, comparativamente com outros países, pouco elevado, o desempenho é considerado positivo, sobretudo tendo em conta a baixa do desemprego. Ainda por cima, um dos aspetos que, nos últimos anos, mais têm preocupado as pessoas, o défice, apresenta-se como controlado...

Isso significa que há uma variação das preocupações entre o período do governo anterior e a presente legislatura?
Certamente que sim. Nós [ICS/ISCTE] não fazíamos este tipo de inquérito no período do governo anterior, mas o Eurobarómetro indica que os temas de economia foram completamente dominantes ao longo de grande parte desse período. Só que, à medida que a economia melhora, os agentes políticos procuram outros temas que lhes confiram uma vantagem competitiva, pelo menos, do lado dos partidos da oposição. E isso explica parte do crescimento da importância de temas como o da corrupção ou o do estado dos serviços de saúde. E a preocupação também tem que ver com outras notícias, não necessariamente sobre corrupção, mas sobre assuntos que as pessoas atribuem a conflitos de interesses...

Refere-se aos temas recentes de alegada endogamia no Governo?...
Por exemplo. Eu sei que corrupção e endogamia são coisas diferentes, mas o cidadão estabelece uma ligação entre eles, por pressentir a existência de abuso de poder, para privilégio destes ou daqueles interesses. E, portanto, esse tema – vamos dizer assim, genericamente – do “mau governo” aparece como sendo importante para os eleitores. Basta ver que, quando decompomos a amostra, a preocupação dos eleitores do PSD com a corrupção é muito maior do que a dos eleitores do PS – porque isto também tem que ver com o cenário político.

Apesar dessas ditas “trapalhadas”, e de outras, o atual Governo resistiu bem nas sondagens, e o primeiro-ministro parece incólume a tudo. Porquê?
Não podemos supor que, pelo facto de o PS aparecer numa posição destacada nas sondagens, estes casos não tenham feito mossa. Não sabemos quais seriam os resultados sem estes casos. Aliás, mesmo entre os simpatizantes do PS inquiridos sobre os tais casos de familiares de membros do Governo no aparelho do Estado, as pessoas que consideravam esses episódios graves faziam uma avaliação mais negativa do que antes de António Costa e do Governo. Agora, o que existe é muitas outras forças no terreno que empurram os eleitores para direções diferentes. Uma das forças importantes é a situação da economia.

Daí a popularidade do ministro Mário Centeno?
Com a situação de crescimento económico, a baixa de desemprego, a aparente recuperação do problema do défice (um tema que se tornou muito importante para os eleitores...), a situação acaba por favorecer essa popularidade. Aliás, o défice, hoje, colhe alguma unanimidade, tornou-se aquilo que nós, em Ciência Política, chamamos um “tema de valência”, ou seja: quanto mais disciplina orçamental, mais as pessoas apreciam. Ora, quando estes indicadores apresentam esse desempenho, quando, nos estudos, o ministro Mário Centeno aparece como aquele cuja atuação é mais positiva, obviamente que isto tem efeitos na intenção de voto. E não é apenas o efeito de beneficiar o partido do Governo. É o de deixar os partidos de oposição com uma grande dificuldade em articularem um discurso de combate ao executivo. Torna-se muito mais difícil convencer os eleitores de que “nós conseguimos fazer melhor” – mesmo que isso possa, ou não, ser verdade...

Ou seja, na hora de manter ou de mudar um governo, pesa muito o estado da carteira do eleitor...
É verdade, tem bastante peso...

Sendo assim, até que ponto é que outros temas – corrupção, endogamia, degradação dos serviços públicos – se refletem no voto? Ou na intenção de não votar?
Do que sabemos da investigação – e estes são os tais “temas de valência”, toda a gente quer menos corrupção e mais crescimento... –, quer a economia quer a corrupção se refletem nos resultados eleitorais de um governo. Mas também sabemos que o efeito da corrupção varia de acordo com o estado da economia. Ou seja: quando o estado da economia é positivo, a corrupção tem menos efeito nas decisões das pessoas. A altura em que a corrupção (ou temas que pressuponham abuso de poder para proveito próprio) ganha o seu máximo efeito no comportamento eleitoral é quando o estado da economia é negativo.

Quer dizer que um político com imagem de “homem sério” tem mais capacidade para sobreviver a períodos de crise…
Sem dúvida. Aliás, isto não é igual em todos os países. Nos países nórdicos, por exemplo, ou em países como a Nova Zelândia ou a Austrália, em geral, a perceção é a de que o Governo é imparcial e pouco corrupto. Quando isso sucede, as pessoas votam menos com a carteira. Estão mais dispostas a tolerar sacrifícios, ou quebras no seu rendimento, sem que, necessariamente, penalizem os políticos por isso. Na Europa do Sul, porém, como o grau de confiança na classe política é mais baixo, as pessoas reagem mais perante o curto prazo: “O que é que fizeste por mim, ultimamente?”…

Apesar de tudo isto, não há ainda, em Portugal, forças ditas populistas. E o voto é bastante estável há, praticamente, 40 anos. A que se deve este fenómeno?
Muitos destes partidos cresceram em torno do tema da imigração e da suposta ameaça que ela apresenta sob o ponto de vista cultural, e da segurança, ou económico. Em Portugal, desde logo, as condições básicas para o apelo a esses temas não se verificam. Portugal não foi afetado pela crise dos refugiados, tem uma baixa taxa de imigração e grande parte desses imigrantes fala português. Depois, temos de considerar o facto de, para um segmento muito importante do eleitorado português, existir alguma segurança no trabalho, menos presente em países de tradição mais liberal, onde a ameaça de que os imigrantes venham “roubar o nosso emprego” é mais sentida do que no nosso país. E muita gente também fala da forma como se deu a transição para a democracia e de como as ideias de extrema-direita estão “deslegitimadas” em Portugal. Isto dito, devo salientar que, pelas sondagens que fizemos no ICS/ISCTE, as ideias populistas que costumam distinguir entre elites perversas e um povo puro e virtuoso são muito prevalecentes na sociedade portuguesa... O que não temos é uma oferta política que possa “ativar” estes sentimentos – porque eles existem.

Mas podem refletir-se na abstenção...
Sim, é verdade, e refletem-se numa forte desafeição política.

E esse alheamento da política não ajudará a explicar a forte ascensão do PAN – que é um partido visto como “pouco político”... – ou há mesmo uma genuína preocupação com os temas que o PAN traz para a discussão pública?
O PAN é um fenómeno por estudar, pelo que só podemos especular. E a minha especulação vai no sentido da sua. Há dois fatores a funcionar, sendo que um deles é o facto de não termos tido, em Portugal, até agora, um partido que claramente articulasse as preocupações com o ambiente. Mas, por outro lado, eu suspeito de que o facto de um partido aparecer para tratar de um único tema – que também é de valência, visto que toda a gente está de acordo... –, e de o fazer de uma forma relativamente apolítica, é algo que predispõe as pessoas descontentes com os formatos políticos tradicionais para o escolherem – e, muitas vezes, até como uma opção pela diferença, pela novidade e pela perturbação.

Também porque o ambiente não aparece no top 5 das preocupações, nos estudos de opinião…
De facto, não aparece, mas se aparecesse, provavelmente, o PAN seria um partido muito maior. Mas, quando os cidadãos hoje adolescentes puderem votar, este tema será muito mais importante do que é hoje...

Isso explica o interesse do PAN em propor o alargamento do voto aos 16 anos?...
Acharia muito estranho ser uma proposta inocente… No entanto, pelo que sabemos do que aconteceu nos países que alargaram a idade do voto – e a Áustria é o caso mais estudado – é que muitos dos receios que havia não se concretizaram. Não se confirma que os mais jovens votem menos ou que sejam menos interessados.

Os casos das eleições norte-americanas e do referendo do Brexit provocaram um clamor sobre o falhanço das sondagens. A acusação é justa, isto tornou-se um mito urbano, há aqui uma tendência ou foram casos isolados?
Nunca ouvimos falar sobre o facto de as sondagens acertarem... Pelo que esta perceção se deve, sobretudo, aos resultados que foram inesperados em relação às sondagens, e isto em dois atos eleitorais de importância global. Acho que essa perceção é, realmente, desproporcionada, em relação ao desempenho das sondagens. Mas, em todos os países, estamos a observar um declínio nas taxas de resposta. As pessoas estão cada vez menos disponíveis para responderem a sondagens. Isto significa que as amostras são cada vez menos representativas da população no seu todo e cada vez mais representativas da população que gosta de responder a inquéritos. Isto é um problema.

Essas pessoas que não respondem terão vergonha de confessar o sentido do seu voto, quando ele se reflete em forças políticas com ideias socialmente sancionáveis?...
Quando as pessoas têm preferências que intuem ser minoritárias, socialmente sancionadas e que fogem da norma, têm dificuldade em exprimi-las em inquéritos, Isso explica, por exemplo, porque, durante tanto tempo, as sondagens, em França, tiveram dificuldade em medir o real apoio da Frente Nacional.

O resultado das sondagens pode influenciar o sentido do voto?
Os políticos acham que as sondagens influenciam o comportamento do eleitor. E eu acho que, se eles acham, provavelmente têm razão... Há muita gente que defende que o facto de um partido aparecer com uma grande vantagem provoca um efeito de band wedding – o carro alegórico com a banda, que encabeça os desfiles e leva toda a gente atrás. A tal dinâmica de vitória. Mas eu também posso supor que o facto de um partido aparecer com uma grande vantagem pode gerar desmobilização. E o que é que acontece no final? Como se cruzam estes efeitos? Anulam-se mutuamente ou há um mais forte do que outro?...

E sente-se ou não a pressão dos agentes políticos sobre quem faz as sondagens?
Eu nunca a senti, pelo menos em privado. Em público, claro, os estudos pelos quais tenho sido responsável foram, algumas vezes, criticados por políticos, e num caso concreto fui atacado pessoalmente por um político. Mas sempre em público, nunca em privado. Ora, as críticas públicas, embora possam ser interpretadas como tendo o objetivo de pressionar, têm como fito principal o de influenciar a maneira como os resultados são lidos pela opinião pública.

Há países com sondagens até ao momento das eleições. Nós continuamos a ter um dia de reflexão que nem permite o noticiário político. Isto não é um anacronismo?
O dia de reflexão está totalmente desfasado do que é a comunicação política de hoje. Eu chego a qualquer computador, no dia de reflexão, e tenho a discussão e informações políticas permanentes. E uma grande parte das pessoas tem como principal fonte de informação política o Facebook... Pessoalmente, porém, não me faz impres-são nenhuma a existência desse dia de reflexão. Trata-se de um ritual.

E é possível ter uma base minimamente correta de aferição da opinião através das redes sociais, ou o que lá está não corresponde, necessariamente, à realidade do País?
Desde que as redes sociais começaram a ter uma expressão significativa, em número de utilizadores e na própria atenção que os políticos lhes dão, há um esforço enorme no sentido de constituir indicadores de opinião em torno do Twitter (ou do Facebook). Eu não creio que esse esforço tenha tido sucesso até agora. Aquilo representa a opinião de quem? As pessoas muito interventivas, politicamente, nas redes sociais, são uma fatia ínfima da nossa sociedade. Mesmo para aqueles que as usam para procurar informação, uma coisa é consumirem essa informação, outra coisa é envolverem-se com comentários ou posts. A fatia é pequena e muito pouco representativa. Isto só torna a construção desses indicadores útil se soubermos quem estamos a representar. O que está ali não é um espelho do País – nem a opinião nem a acrimónia com que ela é transmitida.

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