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"Sofri muita discriminação no meio científico, por ser uma mulher pequena, com sotaque, que assumia as suas características femininas"

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Manuela Martins-Green, cientista e docente da Universidade da Califórnia Riverside, em entrevista à VISÃO

Clara Soares

Clara Soares

Jornalista

Do Luso, em Angola, para Portugal e o mundo, esta mulher pequena, discreta e imparável, que se imaginava médica mas acabou por ser a primeira cientista a estudar Patologia Vegetal na Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos da América, é hoje um modelo inspirador para muitas jovens. Vice-presidente da Research Wound Healing Foundation, Manuela Martins-Green continua a trabalhar com afinco e prazer como professora e investigadora e lidera o departamento de Biologia Molecular e Celular daquela universidade. Pioneira nos estudos dos mecanismos de recuperação de processos inflamatórios crónicos, que lhe têm valido, desde o início, a atribuição de bolsas, financiamentos e vários prémios, foi mãe por três vezes, já é avó e sobreviveu a um cancro. E não se inibe de partilhar os valores e as condutas que entende essenciais para uma boa adaptação noutra cultura e singrar em ambientes altamente especializados e competitivos.

Após a morte do marido, o cientista Harry Green, com quem esteve casada 42 anos, Manuela mantém-se na Califórnia, onde diz estar a sua missão de vida e o seu sentido de comunidade. Sem vacilar, mesmo no mais duro dos cenários, como ilustram os lemas com que assina os seus emails: “Não vás onde o caminho pode levar-te, antes segue por onde não há caminho e deixa marca”; e “Não deixes que o medo de ser atacado te iniba de perseguir os teus sonhos”.

O estudo de paisagens microscópicas e o percurso intercontinental está-lhe nos genes?
O meu pai tinha 16 anos quando foi para África com a intenção de se estabelecer em Angola, junto de um tio, e fazer carreira como negociante de retalho. Uma doença de coração e a guerra fizeram-no regressar a Santa Comba de Seia, na Beira Alta, com a mulher e os três filhos. Eu nasci na cidade do Luso, capital do distrito de Moxico, e tinha pouco mais de 10 anos quando cheguei a Portugal. Passei dois longos anos com a minha irmã mais nova num colégio das Doroteias, em Viseu, mas que me deram um nível de integridade e uma formação moral que fez de mim o que hoje sou. Depois, o meu irmão ficou doente e, dado o custo dos tratamentos, pus de lado a ideia de cursar Medicina. Entusiasmei-me com a Biologia e fui para os Estados Unidos da América com uma das únicas duas bolsas que havia na altura, do Fulbright.

Como explica o salto tão rápido para uma carreira científica na Universidade da Califórnia Riverside?
Devo-o ao professor Luís Bramão, da Estação Agronómica de Oeiras. Ele era o meu diretor e foi também o meu padrinho científico. Na altura, era preciso alguém para assegurar a manutenção do microscópio eletrónico da Philips e mandaram-me à Holanda, durante uma semana, para aprender como se fazia. Ele deu-me o empurrão de que precisava para me candidatar à bolsa de doutoramento em Patologia Vegetal e rumar aos Estados Unidos da América.

Não teve medo de partir sozinha e largar tudo?
Ah!... Muitas vezes tive medo, sim. Deixei família, amigos, hábitos alimentares. Foi muito difícil por serem culturas tão diferentes. Valeu-me o homem com quem vim a casar-me, que me ajudou muito.

Como conheceu o seu marido?
Num congresso de microscopia eletrónica, em Manchester, no Reino Unido. Ele trabalhava com essa técnica em rochas e eu, em plantas. Começámos a falar no autocarro da excursão. O Harry era geofísico e fora colocado como professor assistente na Universidade da Califórnia, em Davis, e eu mudei-me para lá. Tirei só o masters e comecei a trabalhar como técnica num departamento, a meio-tempo. Em quatro anos, tive três filhos e regressei para fazer o doutoramento, já não em plantas, mas em Zoologia, com foco na Biologia do Desenvolvimento. Depois, também como bolseira, fiz mais três anos de investigação e continuei na carreira científica em Biologia Celular. A seguir ao pós-doutoramento em Berkeley, estive um ano na Universidade Rockefeller, em Nova Iorque, a trabalhar em Biologia Molecular. Até que acabámos os dois por conseguir ser colocados na Universidade da Califórnia Riverside, ele como diretor do Instituto de Geofísica Planetária e eu como professora assistente no departamento de Biologia.

Quando começou a interessar-se pela investigação do cancro e das quimiocinas (subclasse de proteínas com papel nas doenças inflamatórias e infeções virais)?
Ainda era adolescente quando dei por mim a querer perceber o mistério que levava as células a saírem de um tumor e a propagarem-se pelos vasos sanguíneos para outras partes do corpo. Comecei a investigar nas plantas e, mais tarde, continuei a estudar as quimiocinas em galinhas, por me permitir penetrar no campo da investigação sem tanta concorrência. Na viragem do século, concluí uma sabática de nove meses, no Instituto Nacional de Saúde, em Maryland, e, já como professora associada, comecei a estudar em ratinhos modificados. Noutra sabática, em Stanford, dediquei-me às feridas crónicas nos humanos. Em 2008, voltei a Riverside e construí um modelo verdadeiramente crónico em ratinhos.

Como funciona o modelo das feridas crónicas, que lhe deu visibilidade a nível mundial?
As quimiocinas têm um papel crucial a atrair as células sanguíneas no início da cicatrização. Os métodos usados hoje não chegam, é preciso intervir mais cedo e com conhecimentos mais finos que permitam saber quando é que uma ferida evolui para a cicatrização ou não. As pessoas que têm doenças como diabetes, obesidade, má circulação ou problemas prévios ao ferimento que não sara precisam de os tratar ao mesmo tempo.

O que há de inovador e revolucionário nestas pesquisas coordenadas por si?
As células estaminais neste ambiente não podem sobreviver, mesmo fazendo tratamentos de crescimento de tecido, pelo ambiente hostil que está na base da inflamação crónica. É preciso normalizar esse microambiente, para que se possa desenvolver tecido novo. Estamos a separar os processos que ocorrem no animal e os processos que ocorrem com as bactérias. Isto vai permitir perceber que tratamentos podemos aplicar para dissolver o biofilme (infeção bacteriana resistente, impregnada em fibras onde não chegam os antibióticos) e quais os que podemos usar para estimular o tecido. Se o tecido não está bem formado, não basta reepitelizar, porque a ferida volta a abrir – é preciso revascularizar e desmantelar o biofilme. E, antes de tudo, perceber os processos que levam à cicatrização ou à não cicatrização.

Isto também se aplica aos cancros e não apenas às feridas crónicas?
Estas são cancros, de certa forma, mas com um comportamento diferente. Os tumores metastizam noutras partes do organismo humano e as feridas mudam a fisiologia através de citocinas e de outras moléculas que colocam o corpo num estado inflamatório crónico. Em qualquer dos casos, é um problema do sistema imunitário, que fica desregulado. Temos de compreender primeiro quais as moléculas e os sistemas que definem se uma ferida vai ou não sarar. Sabemos que, se o stresse oxidativo for demasiado, não há cicatrização mas morte celular, criando condições para que as bactérias façam uma festa, ou seja, o biofilme.

Isto é crucial para os diabéticos, podendo evitar amputações?
Em Coimbra, há um centro de enfermagem que trata feridas deste tipo, que não saram facilmente (o contrário das escaras, em que há cicatrização excessiva). Há tratamentos hiperbáricos (com oxigénio) que funcionam em 75% dessas feridas, o problema está nos restantes 25 por cento. Uma situação de amputação, a que se seguem cinco anos de vida, é horrível, pior do que o cancro e em que se gasta muito dinheiro em tratamentos. Apesar de já existirem no mercado muitas moléculas e tratamentos, e de termos sido contactados por algumas empresas interessadas no nosso trabalho, ainda é cedo para falar em aplicação prática na intervenção com humanos. Talvez possamos ter resultados daqui a um ou dois anos.

Não deixa de ser irónico o facto de investigar o cancro e de ter sido diagnosticada com um.
O meu tumor surgiu antes da menopausa e era muito agressivo. Como examinava o peito mensalmente, a seguir ao período, uma vez encontrei um caroço que não era normal e, apesar de não sentir qualquer incómodo, fui imediatamente ao médico. A médica sugeriu que vigiasse apenas, mas discordei e exigi uma série de testes. Foi isso que me salvou. Entre a deteção e a cirurgia, passaram dez dias. Nem tudo correu bem, precisei de ser operada uma segunda vez porque faltou remover uma parte do tecido. Era muito pequeno e não metastizou, mas se tivesse sido detetado um pouco depois, eu já cá não estaria.

Como foi para si estar no papel de paciente? Valeu-se da fé, achou que foi azar ou sorte?
Atribuo os resultados aos meus conhecimentos e à vigilância regular. Não havia antecedentes na minha família, mas sabia que tinha muitos quistos no peito e disseram-me que precisava de estar sempre em cima deles. Só comecei a fazer mamografias depois dos 40 anos, mas as minhas filhas já começaram aos 35, tendo em conta o meu caso.

Qual foi o seu maior desafio quando entrou no mercado de trabalho noutra cultura?
Sofri muita discriminação no meio científico, por ser uma mulher pequena, com sotaque, que assumia as suas características femininas e era frontal. A discriminação também existia entre mulheres, mas mostrei que isso não iria derrubar-me.

O que recomenda a quem deseja singrar num mundo competitivo como o científico?
Quero dizer-lhe que é possível ser esposa, mãe, cientista e ter uma carreira académica. Precisa, antes de tudo, de perseverança. Também precisa de um nível de integridade elevado e de ter muita organização e disponibilidade para os filhos, que também ficam doentes e precisam da nossa atenção, embora saibam que, às vezes, não é possível porque há um relatório para entregar, por exemplo. É bom que encontre um parceiro que entenda a vida louca dos cientistas – isso é um fator-chave. E que desenvolva o seu nível de consciência necessário para cultivar a empatia. Este último ponto é crítico, porque precisamos de nos relacionar com outros e de os compreender, mesmo quando não podemos ajudá-los. Estas foram as coisas que fizeram a diferença para conseguir o que consegui, e é isto que transmito às mulheres a quem faço mentoria.

Quais são as características pessoais que estão na base da liderança?
A intuição, a compaixão e a perseverança. A intuição é algo com que se nasce e é mais prevalente nas mulheres. As outras duas aprendem-se (no meu caso, foi durante aqueles dois anos que passei no colégio interno).

E partilham-se, como faz na assinatura dos seus emails ou com alunos e colaboradores?
Sim, tem que ver com a minha história de vida – ter nascido em Angola, sem um hospital por perto, e chegar à melhor universidade pública do mundo. Foi sorte mas não só.

Apesar de poder reformar-se, continua a trabalhar intensamente e por longas horas?
Sim, continuo a trabalhar 12 ou 14 horas, todos os dias. Os meus filhos ligam-me e perguntam: “O que estás a fazer até tão tarde, aí?” Para mim, a ciência é um modo de vida. Mais agora, desde que o meu marido morreu; parar de fazer aquilo de que gosto seria preparar-me para morrer. O embate da perda dele foi como ficar sem metade de mim. Tenho de complementar essa metade com a minha ciência. E foi isso que ele me disse antes de partir: “Continua a tua vida e a tua carreira, nunca desistas da tua ciência.”