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"Se não conseguirmos plantar videiras no Douro, mata-se a região. Toda a atividade económica, incluindo o turismo, está dependente disso"

Entrevistas VISÃO

Lucília Monteiro

"A nossa indústria pode ser muito afetada com as alterações climáticas", avisa Adrian Bridge, CEO da The Fladgate Partnership, em entrevista à VISÃO

O CEO de um dos grandes grupos produtores de vinho do Porto, The Fladgate Partnership, continua envolvido nas questões ambientais e a apostar em trazer ao Porto grandes especialistas na área. Se no ano passado trouxe Obama, este ano virá Al Gore. Mas são apenas os nomes mais sonantes. Muitos outros estarão, entre 5 e 7 de março, na Alfândega do Porto, para contarem e partilharem as suas experiências, este ano mais concentradas na indústria do vinho. A segunda edição da Climate Change Leadership tem um orçamento global “à volta dos 750 mil euros” e a terceira está já apontada para 2021.

E se o Porto Protocol já conseguiu comprometer várias empresas a reduzir as emissões de carbono, estas conferências pretendem também pôr o assunto na agenda de cada um de nós, porque “cada um pode fazer a diferença”. Ativistas sociais e associações não governamentais marcarão presença. Os bilhetes já estão disponíveis: até 22 de fevereiro custarão €270, depois disso aumentarão para €335.

Qual a grande diferença entre esta edição e a do ano passado?

A do ano passado foi apenas um summit, que serviu mais para lançar o Porto Protocol. Este ano, temos um dia e meio focados só na partilha de soluções para a indústria de vinhos, envolvendo várias áreas: agricultura, enologia, embalagem, rede logística, tudo o que pesa na taxa de carbono das empresas. Convidámos gente da África do Sul, onde viveram três anos de seca, para falar sobre a escassez de água, por exemplo. O restante meio dia é mais próximo do que se fez no ano passado, com oradores que fizeram a diferença. Como Afroz Shah, da Índia, que incentivou um processo de limpeza nas praias de Mumbai. Começou por convidar os vizinhos, estes convidaram os seus vizinhos, estendeu-se à comunidade e ao governo local e acabou por ser um exemplo nacional. O encerramento é com Al Gore, alguém com impacto e que já realizou vários filmes.

Esse já é uma máquina...

É uma máquina e tem o seu projeto The Climate Reality, que vai ensinar muita gente. Todos temos de fazer a diferença, vivemos no mesmo mundo. Temos de ter consciência de que os bens são limitados e os nossos filhos e netos serão os herdeiros do que fizermos.

Que resultados práticos teve a conferência do ano passado?

Houve muitas adesões de produtores ao Porto Protocol, que aproveitarão a informação para iniciar os seus projetos. Outra vantagem é que, com os mais de 2 mil ingressos e a cobertura da comunicação social, o assunto foi posto na agenda: o Governo tem um plano de redução de carbono até 2050. E o último relatório do IPCC [Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas] já avisa que só temos mais dez anos para arranjar soluções. O aumento da temperatura vai ter um impacto irreversível.

Se Obama ou Al Gore não têm conseguido alterar o curso das coisas, que influência pode ter este Climate Change Leadership? Tem expectativa de que a partir daqui se consiga mudar o mundo?

[Silêncio] Há várias opções. Uma é dizer que sozinho não posso fazer nada. Outra é aceitar que este é um problema do nosso mundo e que, só porque o Presidente Trump não entende a realidade, não posso ficar atrás dessas declarações estúpidas sem alterar a minha vida. Todos temos de perceber quanto isto nos custa. Se pouparmos luz e água diariamente, no fim do mês a nossa conta é menor – e assim fica-se com mais dinheirinho para um Porto [risos].

Baixar a conta da luz se calhar não interessa à empresa de energia...

Interessa. Se ninguém fizer nada até tudo estar perdido, será mais complicado reconstruir. Se as empresas de energia não fizerem nada, temos de denunciar e dizer que têm responsabilidades. Apliquem--se multas brutais e estas têm de apresentar soluções. Quando as empresas de charutos ignoraram que causavam o cancro, tiveram de indemnizar por nada terem feito. Terá de ser assim também para as empresas de energia, petróleo, água... É preciso que as grandes empresas apresentem grandes soluções, para o que não podemos fazer individualmente. Na seca da África do Sul, cada um tinha direito apenas a 50 litros de água por dia. Aqui, não posso dizer a alguém para poupar um litro de água por dia se a empresa de águas tem furos nos seus tubos a perderem 100 litros por minuto. Estas grandes empresas têm ainda muito para fazer.

Esse era o ponto: mais do que em cada um de nós, as grandes soluções não estão na mão das empresas?

Não. A solução, em democracia, está na mão dos cidadãos. Caso contrário, não se faz nada. Por isso, o Porto Protocol é um compromisso do que os seus aderentes têm de fazer nas suas empresas. Mas também integra pessoas com capacidade de pressionar: a empresa, a comunidade, a autarquia... Os políticos não fazem nada se não os pressionarmos. Em democracia temos de forçar e denunciar.

O cidadão deve então pressionar os governos e as empresas?

Sim, porque o mundo é de todos, não é dos governos. Estes têm de prestar serviços aos seus cidadãos, que para isso pagam impostos. Se numa empresa o trabalhador deteta um problema e vai perguntar ao CEO o que está a ser feito para resolver, ele não pode dizer que não vai fazer nada. Vai ter de resolver.

O que faz a sua empresa?

Entre outras coisas, está a construir balneários com painéis solares. Custará 80 mil euros, mas poupará 6,2 toneladas de carbono por ano. A partir do oitavo ano, teremos dois anos de água quente sem custo. É uma pequena diferença, mas tudo conta.

No ano passado, foi muito criticado o facto de terem servido comida embrulhada em plástico…

… que foi reciclado… Não correu bem, havia muito plástico. É verdade que as pessoas ficaram chateadas. Mas até acho que ficaram mais chateadas com o demorado processo de acreditação e entrada na conferência, com muita polícia, restrições da segurança de Obama. A forma como o mostraram foi queixarem-se do plástico. Se vou a um hotel e não durmo bem, começo a dizer que o pequeno-almoço é mau. Agora, se fizemos bem… não.

Outra das críticas foi: porque se gasta tanto dinheiro com uma conferência destas – diz-se que só o Obama levou 500 mil euros?

Isso foi uma grande especulação. Esse valor nunca foi anunciado e não vou credibilizar esse número.

Porque se gasta tanto dinheiro nisto, em vez de o usar em algo efetivamente importante para o ambiente?

Este problema não tem soluções fáceis. Todos precisamos de alterar o nosso modo de vida, os nossos hábitos. Muitos não querem. É mais fácil criticar. Não vale a pena fazer nada em Portugal, se a China consome muito. Não vale a pena poupar água quando as empresas de águas têm perdas imensas. Não vale a pena gastar dinheiro com uma conferência, se o dinheiro podia ser gasto numa zona de reciclagem. Pode ser. Mas se temos capacidade de levar conhecimento a uma pessoa, depois a dez, depois a mil, provavelmente esta amplificação da mensagem faz uma diferença maior do que só uma unidade de reciclagem. Positivo foi que todos falaram que o plástico era negativo.

E não é?

É. Mas [a polémica] mentalizou as pessoas. E todos estão, e bem, a diminuir o seu uso. Bom sinal. Não precisava propriamente de gastar dinheiro da nossa empresa numa conferência destas. Podemos ficar na posição de que somos uma empresa com 327 anos e, provavelmente, nos próximos 100 não teremos qualquer problema, não vale a pena estar a fazer coisas destas. Outra maneira é encarar isto como um assunto sério, dizer que estamos envolvidos com soluções para 20 anos, e queremos partilhar essa experiência com os nossos
74 lavradores. E porque não partilhar também com os nossos concorrentes? Juntos poderemos trabalhar soluções. Porque se a minha quinta está direitinha, perfeita, e eu tenho ao lado uma quinta maltratada cheia de doenças, facilmente o vento passa essas doenças para a minha quinta. Não vivemos numa redoma. É importante fazermos isto. E para os 800 trabalhadores da Fladgate também. E para as famílias de cada um... Fazemos este investimento para afirmar e amplificar que não há mais tempo para discutir, pois agora temos de arranjar soluções.

Em que é que a indústria do vinho pode ser afetada com as alterações climáticas?

A videira é uma planta muito resistente, por isso é plantada onde nada mais cresce, como no Douro ou em certas zonas do Alentejo. Mas o fruto é frágil. E a qualidade da uva é essencial para o produto final. No ano passado, houve muita chuva. E, em agosto, vieram temperaturas elevadas. Perdemos muita uva. A nossa indústria pode ser muito afetada. Podemos alterar as nossas metodologias para poupar água, energia, diminuir a aplicação dos inseticidas ou pesticidas, escolher uma embalagem mais leve, porque cada grama de vidro pesa na rede logística inteira. Há zonas muito dependentes dos vinhos. Se não conseguirmos plantar videiras no Douro, mata-se a região. Toda a atividade económica, incluindo o turismo, está dependente disso. Perdemos videiras, perdemos tudo. E afeta 250 mil pessoas. São zonas com história, cada vida conta. Temos de salvar o Douro. É a nossa terra há 300 anos. Estamos preocupados com isto e queremos fazer a nossa parte.

Tem alguma estimativa de quanto se pode perder?

A 28 de maio do ano passado, no Pinhão, choveu numa hora 12% do total anual. Numa das quintas em que caiu granizo, perdemos tudo. No nosso grupo, o custo daquela hora foi de 400 mil euros. Mas custará muito mais se desistirmos e dissermos que não é possível continuar a produzir vinho do Porto no Douro, que já não é sustentável. Custa empregos, a nossa história, as nossas comunidades. Não é fácil calcular isto.

Outras regiões podem ser afetadas?

Fale com os viticultores do Napa, onde os incêndios da Califórnia destruíram as suas adegas. Isto é sério. Um incêndio que destrói videiras, adegas e stock mata o negócio. Quando uma empresa do nosso tamanho perde 200 pipas e 400 mil euros numa hora, causa dor, mas não é o fim do negócio. Quando os nossos vizinhos perdem 100% da sua produção, é um impacto imenso naquela família. Numa hora, perderam tudo.

Esse pequeno agricultor já está sensibilizado para estas questões?

Se eu fizer essa pergunta ao ministro do Ambiente, Matos Fernandes, ele vai dizer que o setor agrícola faz menos do que outros. Provavelmente porque é muito fragmentado, tem muitos pequenos lavradores. Por isso queremos que esta conferência chame a atenção do indivíduo e da empresa, pequena ou grande. Se conseguirmos, também fazemos a diferença. O processo só está a começar, quero muito mais gente envolvida.

Há mesmo vinho biológico?

Nós fazemos Porto biológico, que implica intervenções naturais, sem tratamentos químicos. Mas o biológico vai salvar o mundo? Não. Porque a videira tratada biologicamente produz menos 25% do que a normal. E exige o mesmo trabalho, sendo que o peso carbónico por cada litro produzido é mais pesado. Mas nos vinhos somos muito puros, comparando com outros setores.

A Fladgate é uma empresa de vinho do Porto que também opera no turismo ou estão a caminho de se transformar num grupo de hotelaria?

Os dois negócios estão bem juntos. O turismo dá a capacidade de convidarmos gente de todo o mundo para entrar na alma da nossa cidade, da nossa região e dos nossos produtos. As 151 mil pessoas que visitaram a Taylor’s no ano passado tiveram a sua experiência, e 10% vão continuar a beber Porto. Nem que seja uma garrafa por ano, é um bom negócio.

O que dá mais lucro: o vinho do Porto ou o turismo?

Ainda é o vinho do Porto.