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"Tudo o que usamos vai parar à praia, desde a cápsula de café ao pacote de manteiga. Temos de perder o hábito de usar e deitar fora"

Entrevistas VISÃO

Ana Pêgo, Bióloga, criadora do projeto Plasticus Maritimus

Marcos Borga

Leia ou releia a entrevista a Ana Pêgo, Bióloga, criadora do projeto Plasticus Maritimus

Encontramo-nos na Parede, com o mar à vista. Nem podia ser noutro sítio: esta terra, no concelho de Cascais, imprimiu em Ana Pêgo o amor eterno pela praia, para onde ia – e continua a ir – passear sempre. O livro que acabou de editar com a chancela da Planeta Tangerina, e a meias com Isabel Minhós Martins, nunca sai de cima da mesa, enquanto conversamos numa movimentada esplanada no centro da vila. Ao folhear este Plasticus Maritimus, Uma Espécie Invasora (€17,90), a bióloga de 47 anos começa imediatamente a discorrer sobre o problema dos plásticos nos oceanos. As suas obras, feitas com lixo que apanha junto ao mar, têm como objetivo criar impacto junto do público. “Primeiro, as pessoas acham as minhas composições bonitas, depois pensam: ‘Como é possível? Isto estava tudo na praia!’.”

Deitar lixo para o chão ainda é um comportamento socialmente aceitável?

Há muitos objetos que as pessoas atiram para o chão, por negligência e por acharem que é lixo “pequenino”, mas esquecem-se de multiplicar esse gesto pelos milhões de pessoas que fazem exatamente a mesma coisa. É o caso das beatas (estima-se que vão parar ao chão cerca de 7 500 por minuto) – deitam-se fora, sem que ninguém critique, porque esse comportamento é considerado normal. As pessoas nem pensam que, com as chuvas, elas são jogadas para as sarjetas e acabam nas linhas de água.

O que a levou a criar a página Plasticus Maritimus, em 2015?

Era só para mostrar aos meus amigos, e a outras pessoas de Cascais, as coisas curiosas que eu encontrava na praia. Ao mesmo tempo, comecei a guardar algum lixo que apanhava nos areais e ia fazendo coleções com a ideia de um dia as expor.

Mas, antes, já tinha enveredado pela educação ambiental.

Fazia ateliers na Gulbenkian com os miúdos, porque era um tema que me preocupava muito e sobre o qual ninguém falava. E, depois, em 2014, criei, junto com o fotógrafo Luís Quinta, uma instalação só com lixo marinho branco – Balaena Plasticus. Fizemos “artivismo”, mesmo antes de eu conhecer esta palavra atualmente muito em voga (refere-se a pessoas que usam a arte para dar expressão ao seu ativismo).

Tem alguma veia artística?

Nenhuma, zero. Foi o pânico total [risos]. Aquilo [uma baleia com 10 metros] era supostamente uma brincadeira de sensibilização dos amigos. Se caísse ao chão, paciência. Mas, de repente, Luís Quinta conseguiu o apoio da Câmara de Almada e aí, perante a responsabilidade, tive um ataque de pânico. É que nenhum de nós é escultor. Valeu-nos o apoio dos serralheiros do município. Na Gulbenkian, também tenho trabalhado muito com artistas plásticos.

Porque se atiraram logo ao maior animal do planeta?

Sempre tive a mania das baleias, e o Luís Quinta também. Por isso achámos que elas eram ideais para representar um dos maiores problemas da atualidade. Além disso, sofrem imenso com a poluição nos mares. Este ano, por exemplo, apareceu uma baleia na Tailândia, com 80 sacos de plástico na barriga. Em 2017, outra deu à costa na Noruega, com 30 no aparelho digestivo. Neste momento, esses sacos estão expostos no Museu de História Natural de Bergen, para confrontar as pessoas com a realidade.

Também é esse tipo de confronto que procura através das fotografias que publica com o lixo que recolhe?

É importante criar esse impacto. Primeiro, as pessoas acham as minhas composições bonitas, depois pensam: “Como é possível? Isto estava tudo na praia!”

Antes de dedicar-se à educação ambiental, tinha outra vida, certo?

Sim, mas desde pequena que vou à praia, ter o meu momento. Agora, toda a gente quer ir apanhar lixo comigo, mas eu não gosto de organizar campanhas de limpeza.

A sua praia era aqui na Parede?

Tive a sorte de os meus pais terem uma casa mesmo ao lado do areal – era o meu quintal.

Isso fez com que escolhesse o curso de Biologia?

Sim. Trabalhei durante muitos anos em investigação na área das pescas e, depois, estive no Laboratório Marítimo da Guia, em Cascais.

Em que momento decidiu mudar de vida e dedicar-se à consciencialização da sociedade para o perigo do lixo marinho?

Quando comecei a aperceber-me de que havia cada vez mais lixo e a constatar que esta nova espécie marinha estava a invadir as praias – o plasticus maritimus. Vou para a praia no verão e no inverno, por isso vejo de tudo. Além do mais, os ventos e as correntes dos meses mais quentes afastam os detritos da terra.

Quando começou a guardar o lixo para as suas coleções?

No final de 2015, na altura da criação da página. Antes, só usava o lixo para os meus ateliers e depois deitava-o fora.

Para a reciclagem? Hoje defende--se que esta não é a solução, mas o final de um conjunto de ações que começa na redução do consumo...

A reciclagem é o último dos erres. Há muito mais a fazer, mesmo antes do reduzir e do reutilizar. O mais importante, para mim, é o repensar e depois o recusar. Quando vamos a uma loja, devemos questionar-nos se precisamos mesmo do que vamos comprar – e, depois, recusar os sacos de plástico, as embalagens, além de se optar por outros materiais, especialmente nos casos de objetos de uso único, como os cotonetes. Mas, acima de tudo, temos de perder o hábito de usar e de deitar fora.

Que hábitos podemos criar em alternativa?

Ir beber um café e pedir uma colher, em vez daqueles pauzinhos de plástico que nem sequer vão ser reciclados; não comprar carne e peixe já embalados; não usar garrafas de plástico. É bem fácil mudar estes comportamentos.

Não acha que esse tipo de informação chega apenas a um nicho muito específico da sociedade? Os materiais alternativos são mais caros, não estão disponíveis em todo o lado...

Tem sido um processo difícil chegar às pessoas. Às vezes nem é por mal, são hábitos de anos, coisas que nos põem à frente, e nós nem pensamos no que estamos a fazer. No entanto, a partir do momento em que se dá o clique, as pessoas largam esses comportamentos, como, por exemplo, deixam de usar palhinhas, objeto de que não precisamos para nada. Tudo o que usamos vai parar à praia, não há volta a dar, desde a cápsula de café ao pacote de manteiga.

Estará muito feliz com a proposta do Parlamento Europeu, que prevê a proibição da venda de produtos de plástico de utilização única, na União Europeia, a partir de 2021.

Finalmente!

E com a estratégia europeia para os plásticos, definida em janeiro deste ano?

É importantíssima, mas fiquei um bocado desiludida, porque as datas atiram a resolução do problema para 2030. Se continuarmos com esta vida, morreremos até lá, atolados em plástico. Não temos tempo a perder – estima-se que, em 2025, haja tanto plástico como peixe nos oceanos.

O que mais apanha nas suas caminhadas?

Em primeiro lugar, estão as beatas, logo seguidas pelos cotonetes que são deitados nas sanitas.

São os principais alvos a abater?

Sim, e também os balões. Trata-se de algo que não é essencial às nossas vidas e que as pessoas utilizam com as melhores das intenções, mas que se tornam um grave problema ambiental.

Na realidade, os balões desaparecem da nossa vista, mas não efetivamente...

E, no caso das largadas de balões, são às centenas de cada vez. Achamos aquilo lindíssimo. Normalmente, estão associadas a causas bem-intencionadas, porém, passados cinco minutos, já não vemos nada – mas eles não se evaporaram: vão cair em algum sítio, em terra ou no mar. Além do plástico do balão, ainda há a corda que o segura (muitos animais ficam presos neste fio). Ultimamente, ainda se acrescenta um led de plástico, com uma pilha, para que os balões sejam visíveis à noite. Gostava que a nível europeu se proibisse estas largadas.

Considera-se uma beachcomber. Pode explicar-nos do que se trata, porque não é apenas alguém que apanha lixo na praia, pois não?

Na altura em que estava bastante angustiada com o lixo encontrado e andava à procura de informação e a acompanhar várias páginas internacionais de pessoas que faziam o mesmo do que eu, deparei com essa definição e identifiquei-me logo com ela. Trata-se de pessoas que apanham detritos na praia, mas que querem saber de onde estes vêm, pelo que recolhem a maior quantidade possível de informação sobre eles. E, no fim, guardam esses “tesouros”. As histórias dos objetos que eu encontro servem para atrair as pessoas para esta questão. Se me cruzar com uma boia dos Estados Unidos da América, ela vai ajudar-me a explicar as correntes marítimas e a perceber como o lixo não fica parado no mesmo sítio.

Guarda tudo o que apanhou até hoje?

Nem pensar. Seria impossível...

Tem ideia de quantos quilos já recolheu?

Não faço ideia, mas terão sido muitas toneladas, com certeza. Só guardo uma parte mínima.

O que faz ao resto?

Quando saio da praia, faço logo uma triagem do que quero e do que não quero. Algumas coisas deixo na reciclagem, mesmo sabendo que muitas delas não vão ser recicladas, porque as peças já passaram muito tempo no mar e perderam características. O que levo para casa, ponho de molho, durante alguns dias, e seco em tabuleiros.

Os microplásticos são um problema grave. O que podemos fazer para minimizá-los na nossa vida?

É de facto um drama o que se passa nos oceanos. Trata-se de partículas inferiores a cinco milímetros e que praticamente não se veem. Muitas são fibras sintéticas que se desprendem das nossas roupas, sempre que as lavamos. Por exemplo, este polar que eu tenho vestido: achei que fazer um casaco quentinho, que não se amarrota, a partir de garrafas de água, era a melhor invenção do planeta e, depois, descobri que ele largava microplásticos. Já me tramaram... não sei o que vou fazer com isto...

Ter um consumo consciente pode tornar-se cansativo?

Sim, mas a verdade é que há muitas coisas que vieram facilitar a vida às pessoas e que, dantes, não se sabia quais os seus malefícios, mas hoje já existe essa informação. Os governos e as empresas têm a obrigação e a responsabilidade de tirarem do mercado o que nos prejudica. Há países que já o fazem.

Como por exemplo?

Os esfoliantes, alguns géis de banho, pastas de dentes branqueadoras que usam propositadamente partículas de plástico de pequenas dimensões, de dois milímetros ou até inferiores, que vão pelo ralo e não são filtradas em parte alguma ao longo do seu percurso até ao mar. Lá, misturam-se com o plâncton e entram na cadeia alimentar.

E, no final da cadeia, estamos nós...

Ah, sim, essa é a parte de que nos esquecemos. Já há estudos de investigação portugueses que provam a existência de fibras sintéticas nos peixes que andamos a comer. Só ainda não se sabe que implicações isso terá na saúde humana. Devemos manter os oceanos saudáveis para garantirmos a nossa existência. Há quem diga que apanha lixo na praia para salvar o planeta, mas, na realidade, é para nos salvar. Já vamos tarde para solucionar este problema, mas, se agirmos agora, ainda conseguiremos travá-lo. E um dia, quando olharmos para trás, vamos pensar: “Como foi possível termos andado a usar plástico, um material incrível e super-resistente, como se fosse algo descartável?”