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"As mulheres têm maior capacidade para expressar o seu sofrimento psicológico com o médico do que os homens"

Entrevistas VISÃO

Luís Barra

Em entrevista à VISÃO, Miguel Xavier, Psiquiatra e diretor do Plano Nacional de Saúde diz que "os homens são mais escassos na expressão das emoções e afetos ligados à doença"

Clara Soares

Clara Soares

Jornalista

Aos 55 anos, casado com uma médica e pai de dois gémeos adolescentes, o professor catedrático da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa não vai ter mãos a medir enquanto novo diretor do Plano Nacional de Saúde Mental (PNSM) – lugar deixado vago no início do ano pela morte de Álvaro de Carvalho. Duas décadas depois da publicação da Lei da Saúde Mental, o académico tem pela frente três grandes desafios: relançar o programa e interligar serviços a partir da base, ou seja, minimizar o sofrimento psicológico logo a partir dos centros de saúde, desenvolver a rede de cuidados continuados e promover a participação dos cidadãos na reabilitação e inclusão dos doentes mentais graves. Se terá recursos para tudo isso e quantos anos pode levar a alcançar esta meta é o que pretendemos saber junto do homem que, em conjunto com o psiquiatra Caldas de Almeida, esteve à frente do único estudo epidemiológico nacional de saúde mental, com a chancela da Organização Mundial de Saúde (OMS) e da universidade de Harvard, nos EUA.

A crise teve um impacto negativo na saúde mental dos portugueses. Ainda se mantém?

Não temos nova avaliação epidemiológica para sabê-lo. O estudo do professor Caldas Almeida encontrou um impacto real das medidas de ajustamento na vida das pessoas. No documento sobre os desafios para 2018 e 2019, da Direção-Geral da Saúde, introduzi a saúde mental infantil e juvenil. É preciso fazer um estudo epidemiológico de crianças e adolescentes, que nunca se fez.

A que se deve o atraso nesta área?

O pior dos inimigos da saúde mental é o corporativismo, sobretudo numa área na qual o nível de diferenciação e de complexidade é tal que só com trabalho multidisciplinar se fará alguma coisa. A minha meta é conseguir criar um mecanismo orgânico de implementação que junte o PNSM, as ARS (administrações regionais de Saúde) e os serviços de saúde mental.

O PNSM não teve a continuidade esperada. Porquê?

Com o professor Caldas de Almeida comecei a trabalhar no documento que previa alcançar metas num espaço de uma década (2007/2016). Com a chegada da Troika, em 2011, o trabalho foi interrompido por seis anos. No ano passado, o Governo retomou o plano e quis relançar as medidas que lá estavam até 2020, mesmo que alguns projetos não estejam prontos nessa altura. É o caso da reorganização dos serviços nas áreas metropolitanas de Lisboa, Porto e Coimbra. Em Itália, a passagem dos serviços dos hospitais psiquiátricos para a comunidade levou 22 anos.

Uma análise feita no ano passado mostra que vivemos mais tempo, mas com mais perturbações mentais e que a idade pesa nas mortes por suicídio. Quer comentar?

Houve um estudo da professora Paula Santana que mostra que a prevalência destas mortes está a subir e não se restringe ao Alentejo. A pobreza e as dívidas são fatores sociais determinantes para o aparecimento da depressão, presente na maior parte das pessoas que se mata.

As raparigas manifestam mais perturbações ansiosas, que, em 2016, representaram 78% do motivo da consulta de psiquiatria da infância e adolescência. Porquê?

Há uma maior visibilidade destes problemas, e não apenas cá. Quanto às causas, ou o fenómeno está a aumentar ou estamos mais atentos a ele. As mulheres têm maior capacidade para expressar o seu sofrimento psicológico com o médico. Os homens são mais escassos na expressão das emoções e afetos ligados à doença.

Mais de 10% dos portugueses estão deprimidos e ansiosos, o valor mais elevado da UE. Genes ou cultura?

A pergunta vale um milhão de dólares! Os primeiros estudos, feitos nos anos 1970 e 1980, já apresentavam valores superiores. Hoje, sabemos como é que o ambiente interfere na expressão genética. Curiosamente, Portugal manteve os níveis de suicídio em valores estáveis, mesmo durante o período de ajustamento, o que não aconteceu na Grécia, em que esses valores dispararam.

Existe explicação para isso?

Há quem sustente que temos um fator amortecedor enorme devido à estrutura familiar que apresentamos, mas a sobrecarga também é grande. E note que, entre os 22,6% de pessoas com patologia mental, algumas devem-se a fobias específicas, que interferem pouco na vida das pessoas.

Apesar disso, ocupamos o primeiro lugar no consumo de psicotrópicos, bem acima da média da OCDE.

Temos um consumo de benzodiazepinas e de antidepressivos maior do que o de outros países. Perturbações, como a depressão e a ansiedade, são acompanhadas pelo médico de família, que não tem tempo e, em muitos casos, não tem formação em psicoterapia breve. Em alguns casos, encaminha os pacientes para serviços de psiquiatria ou prescreve um psicofármaco. Este modelo precisa de ser mudado com a implementação do stepped care, um modelo centrado no doente: ao entrar no centro de saúde, é avaliado e, em vez de levar uma receita ou seguir para o psiquiatra, vai para um psicólogo para uma intervenção breve. Se for preciso, fará uma intervenção mais específica e só então é que pode vir a ser medicado.

O que é necessário para criar esse modelo centrado no doente?

Precisamos de um sistema integrado, sem que os enfermeiros, os psicólogos e os médicos trabalhem cada um para seu lado. A ênfase é no modelo e no cidadão, não nas profissões.

Mas há uma grande distância entre a teoria e a prática: automedicamo-nos menos mas, sem psicólogos nem psiquiatras nos cuidados primários, o que fazer?

A psiquiatria comunitária pressupõe a interligação com juntas de freguesia, autarquias, escolas e centros de saúde e está no papel há duas décadas. No terreno há experiências isoladas, na Ajuda, em Sintra, em Viseu. Isto tem de ser a regra e é a tarefa mais demorada de todas.

A situação é pior na área da pedopsiquiatria. Porquê?

Tem menos recursos mas os problemas são os mesmos. Abaixo do Tejo, a escassez de recursos humanos neste campo é gritante. Os planos estão feitos, mas é preciso um mecanismo de implementação que junte três coisas: a direção do programa, as administrações regionais de Saúde e os serviços de psiquiatria. Só que o PNSM não tem capacidade para interferir na distribuição dos recursos e isso vai levar uns bons anos.

O bastonário da Ordem dos Psicólogos afirmou que era preciso duplicar o número de profissionais no Serviço Nacional de Saúde.

Não questiono isso, mas destaco a interligação entre profissionais. Nos quatro anos em que o plano esteve em vigor fez-se muita coisa: criou-se a base legislativa para os cuidados continuados e avançou-se para o fecho de hospitais psiquiátricos.

Por que razão ainda estão abertos o Júlio de Matos e o Magalhães Lemos?

Vão continuar a ter funções regionais, como a psiquiatria forense. A transferência do internamento para os hospitais gerais levará tempo. Se as pessoas em Sintra continuam a ir ao Júlio de Matos é por as estruturas ainda não estarem feitas. Já não precisam de lá ir quando o Amadora-Sintra tiver estrutura para abarcar essa área. Serão precisos seis anos, desde que haja investimento.

Até 2024, não serão concluídas a desinstitucionalização e a rede de cuidados continuados em saúde mental, certo?

Uma coisa é falar de Itália e de Inglaterra, que não são a norma. No Reino Unido, o orçamento para a saúde mental ronda os 14%, e não os 4%, em média, como sucede no nosso caso e noutros países da União Europeia.

Mas não basta pensar no envelhecimento ou nos custos do burnout para perceber que na prevenção está o ganho?

Na Direção-Geral da Saúde lançámos seis planos parcelares, e um deles é de saúde mental em meio laboral. O caderno de encargos serve para criar um modelo que possa ser replicado. Há quatro para psiquiatria de infância e da adolescência, e o de apoio psicológico às vítimas dos incêndios na zona Centro.

Está satisfeito com a intervenção que se fez nos incêndios?

Verificámos que, nas áreas que tinham já no terreno o modelo comunitário, o apoio foi mais próximo das populações. Houve um grupo de trabalho para criar um modelo de intervenção que servisse para situações de catástrofe de um modo geral, que cabe numa folha A4 e assenta num gabinete de crise nas ARS, com ligação à Proteção Civil e aos serviços locais de saúde mental aos cuidados primários, que precisam de responder psicoterapeuticamente de forma integrada e não apenas com fármacos.

Vão existir recursos para reabilitação e cuidados continuados?

A prática da saúde mental é muito heterogénea e isso é um problema. Em 2019, vamos tentar uniformizar procedimentos para garantir uma carteira mínima de serviços. Um serviço de psiquiatria comunitária tem de estar ligado a escolas, autarquias e centros de saúde. E tem de oferecer intervenções com fundamentação científica, para garantir um tratamento integrado em qualquer ponto do País. No caso da esquizofrenia, por exemplo, sabe-se que isso significa, além de fármacos, tratamento em casa e emprego protegido, entre outros serviços mínimos. Quero ver a questão da assimetria regional resolvida em três anos. Não se pode desistir, é preciso ir fazendo.
Até porque a alternativa é o recurso a privados, com custos mensais superiores a €2 500.

O que posso dizer-lhe é que o Governo criou um grupo de trabalho para fazer planos regionais para a demência, porque a estratégia nacional já existe. Vai ter de ser uma prioridade de saúde pública, porque o problema demográfico em Portugal é terrível (população envelhecida e poucos nascimentos).

O que fazer para acabar com o estigma? Falar de saúde mental ainda assusta. E muito.

Conto-lhe uma coisa que ilustra bem esse estigma. Quando alguém fala comigo pela primeira vez, e se apercebe da minha profissão, comenta: “Ah, você é psiquiatra? Não parece.” Não parece?! Acham que estão a ser simpáticos, bem-intencionados, a fazer um elogio. Sempre que se vai a um serviço de saúde mental e ele é como qualquer outro, quando há bons serviços nos hospitais gerais ou quando as figuras públicas falam abertamente sobre o assunto, como sucedeu com o cancro da mama ou o VIH, isso diminui o estigma. Precisamos de modelos com os quais nos identificamos. Seria importante haver experiências como a que António Horta Osório fez em Inglaterra, que deu a cara na campanha do Lloyds para a saúde mental. Isso é crucial para as pessoas perceberem que não estão sozinhas.

O que costuma fazer para cultivar o seu bem-estar?

Fiz o curso de guitarra clássica completo e comecei a tocar flamenco. A música é uma grande paixão na minha vida. Tudo o que envolva estar com outros, ter atividades fora do trabalho e com ligação às artes é meio caminho andado para uma boa saúde mental. Na minha família há muitos médicos e havia a tradição de os descendentes seguirem Medicina ou Direito, sempre alternado e em Coimbra, durante mais de dois séculos. Segui Medicina em vez de Direito e não em Coimbra. Fui o primeiro a quebrar a tradição!

Os desafios que tem pela frente são um fator de risco para a sua saúde mental?

Sou professor catedrático na Faculdade de Medicina e subdiretor da faculdade, além de presidente do conselho científico, e pretendo continuar a exercer estas funções. Nem sempre é fácil, mas a minha saúde mental é boa.