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"Ao longo da História houve muitos casos de intersexualidade que nunca foram conhecidos ou que o foram através do desporto"

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Luís Barra

Leia ou releia a entrevista a María José Martínez Patiño, assessora científica da Comissão Médica do Comité Olímpico Internacional e ex-atleta

Rui Antunes

Rui Antunes

Jornalista

Entre 1968 e 1996, todas as mulheres que participaram em Jogos Olímpicos foram submetidas a testes genéticos de verificação de sexo, a fim de obterem o seu certificado de feminilidade. Os testes vieram substituir a humilhante nudez perante um painel de médicos, atentatória da intimidade das atletas e que algumas competições chegaram a impor, mas estes também eram vexantes. María José Martínez Patiño, ex-recordista de Espanha dos 60 metros barreiras, foi quem lhes pôs cobro, à custa de uma exposição mediática que a fez perder até a vontade de viver. Aos 24 anos, identificaram-lhe o cariótipo 46, XY, próprio de um homem, e foi a Federação Espanhola de Atletismo a expô-la publicamente, banindo-a das competições, quando ela recusou a sugestão de simular uma lesão para sair pelo seu pé. Demorou três anos a provar que era mulher e já não foi a tempo de uma participação olímpica, que falhou por décimas de segundo, em 1992. A explicação para o seu caso encontrou-a numa das mais de 40 mutações genéticas que afetam o desenvolvimento sexual e que conferem certas características masculinas a mulheres (e vice-versa). Hoje, é uma voz ativa na defesa dos atletas que nasceram com estas alterações genéticas, designados intersexuais, e, esta semana, passou por Lisboa para dar uma conferência sobre o tema, no Comité Olímpico de Portugal. Uma viagem que começa em 1985, quando se esqueceu em casa do certificado de feminilidade que lhe tinham atribuído nos Mundiais de 1983 e teve de realizar novos testes.

Lamenta não ter levado o certificado de feminilidade quando participou nas Universíadas do Japão?

Agora, tantos anos depois, não. Naquela época, eu pensava que estava a lutar por mim, mas depois dei-me conta de que estava a fazê--lo por muitas mulheres. Todos os anos nascem mulheres com intersexualidade, com uma mutação de algum gene. E ninguém está livre de isto lhe acontecer, não tem nada que ver com nacionalidade ou condição social. Portanto, pelo que lutei foi o que ganhei. Hoje entendo que fui pioneira. Ter mudado uma normativa a nível mundial tornou-me mais forte e permitiu-me ajudar outras mulheres.

A sua luta tem o valor de uma medalha olímpica?

Tem o valor de alguém que deixa marca neste mundo. O mais importante é que vou fazer muita gente feliz, durante bastantes gerações. Várias mulheres estarão agradecidas por eu ter lutado, ainda que tenha sido tremendamente duro. Isto mostra que as normas e os regulamentos, em qualquer sociedade, não mudam porque alguém pensa em mudá-las. Tem de haver um motor que inicia a mudança. E neste caso o motor fui eu.

É possível medir o sofrimento que sentiu ao ser afastada da competição desportiva por dúvidas sobre a sua condição de mulher?

Posso dizer-lhe uma coisa: quando ia dormir, houve momentos em que pensei que o melhor seria já não despertar. Se isso tivesse acontecido agora, teria o apoio de muitos organismos, organizações de direitos humanos, nas redes sociais, etc. Na década de 80, fiquei sozinha, sem apoio da minha federação e do meu comité olímpico, abandonada por todo o mundo. Da noite para o dia, tinha perdido tudo. O meu noivo, que me conhecia de uma vida inteira, era como se não me conhecesse de lado algum e sentia uma vergonha terrível de mim. Foram momentos de muita dor.

O que lhe deu força para lutar?

O mais importante foi saber que eu tinha razão, saber que era mulher e que, acima de tudo, tinha de defender a minha honra e os meus direitos. Até que um dia chegou uma carta 
do presidente da Comissão Médica da IAAF (Federação Internacional de Atletismo) a dizer que eles estavam equivocados, que eu tinha de continuar a lutar e que seria possível mudar a normativa. Esse momento foi como um bálsamo que compensou todo o sofrimento. É como um parto difícil, em que o corpo se rompe. Compensa ter esse filho? Seguramente que sim.

Essa carta chegou quanto tempo depois das Universíadas no Japão?

Cerca de ano e meio depois. Esta luta começou em 1985 e terminou em 1988, no dia 4 de outubro, o mesmo dia e o mesmo mês em que tinha falecido o meu único irmão. No ano anterior às Universíadas no Japão, fui dadora de medula óssea para tentar salvar-lhe a vida em dois transplantes que ele fez, mas não foi possível. Nesse dia 4 de outubro de 1988, recebi uma chamada de um jornalista. “Tenho uma boa notícia. Acaba de se reunir a Comissão Médica da IAAF e, à luz das evidências científicas que lhes apresentou, declaram que pode voltar a competir a partir deste momento”, disse-me.

Diz que essa foi uma vitória agridoce. Porquê?

Quando uma pessoa enfrenta um processo destes, perde-se a alegria para continuar a treinar. Eu era muito nova, fui da Galiza para Madrid para me treinar; éramos poucas mulheres, e tornou-se complicado para mim. Apareci em todos os programas de televisão, em todos os jornais e revistas, fiquei muito conhecida. Apesar de me felicitarem na rua, de me dizerem que era valente, eu sentia-me assinalada. Tive de ir para os Estados Unidos da América porque não me sentia confortável em Espanha. E depois estive, durante um ano, na União Soviética.

Foi mais duro ter sido impedida de competir ou o facto de a sua condição se tornar mediática?

Houve três coisas muito duras. A primeira foi a revelação de dados médicos confidenciais, a segunda foi ter perdido tudo e a terceira, que muito pouca gente sabe, foi o meu nome ter desaparecido de todos os recordes, como se eu nunca tivesse existido. A proteção da intimidade de um atleta é o dever mais importante de um dirigente desportivo, porque há sociedades, como a indiana, por exemplo, em que casos como este podem destroçar uma pessoa para a vida. Eu recuperei, mas foi um processo extremamente complicado.

Há o caso recente da velocista indiana Dutee Chand, impedida de competir, devido aos elevados níveis de testosterona decorrentes da alteração genética com que nasceu (hiperandrogenismo), e que depois venceu o recurso no Tribunal Arbitral do Desporto (TAD).

É uma desportista que não está sequer entre as melhores do mundo. Não se compreende. Considero que não é necessário realizar qualquer tipo de controlo a todas as mulheres. O ser humano tenta sempre ganhar e eu sou partidária de algum tipo de análises para que não exista fraude, mas essas análises devem ser realizadas apenas em atletas finalistas, medalhadas ou quando batem recordes. Que sentido faz analisar uma rapariga que não passa das eliminatórias na prova dos 100 metros, ou que é eliminada no primeiro combate no judo? Que sentido faz testar todas as mulheres desportistas que vão aos Jogos Olímpicos? Isto pode causar danos muito grandes numa pessoa. Temos de gastar a nossa energia em assegurar que todas as que ocupam lugares de honra, e de dinheiro, estão a ser leais. A ninguém interessa saber os níveis hormonais de uma rapariga que termina em 24º na maratona ou em 18º na marcha. Creio que isto vai ser o futuro – uma verificação de resultado para se confirmar se é legal.

Como um controlo antidoping.

Dentro do controlo antidoping. Ainda agora estão a fazer mais análises aos resultados dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro e ninguém sabe quem está a ser analisado. É secreto e confidencial. Enquanto não formos capazes de fazer isto, teremos um problema a cada dois meses.

Parece-lhe uma medida concretizável a curto prazo?

Não sei se a curto prazo, mas seguramente esta será a tendência. Isto seria algo inédito: realizar todas as análises com a confidencialidade associada a um controlo antidoping. Podem ser exames hormonais, genéticos, endócrinos, ginecológicos, o que for. E depois falava-se com a pessoa: “Olha, tens os níveis de testosterona muito elevados, vamos conversar com o teu médico para encontrarmos a melhor solução.”

E a atleta perderia a medalha se apresentasse níveis de testosterona elevados?

Temos de ver se é endógeno ou se é exógeno. Temos de ver se é uma doença que está a produzi-los. Se é natural ou se não é natural. Há muitos fatores. Estou extremamente contente com esta iniciativa do Comité Olímpico de Portugal, que é extraordinária, porque toca num tema muito importante, de grande controvérsia. Orgulho-me por um comité olímpico irmão, como o português, dar a conhecer à sociedade as múltiplas possibilidades genéticas no ser humano.

Há um desconhecimento generalizado?

Total, total. A sociedade precisa de uma mudança. Temos o estereótipo de que o homem é de uma maneira e a mulher de outra. Mas ao longo da História houve muitos casos de intersexualidade que nunca foram conhecidos ou que, lamentavelmente, o foram através do desporto. Só que o desporto é a ponta do icebergue de tudo o que existe na sociedade. Uma em cada 20 mil pessoas nasce com um problema genético. Se somos sete mil milhões no Planeta, calculem quantas têm problemas genéticos.

É legítimo impor tratamentos médicos a mulheres que produzem mais testosterona do que o normal, para que possam competir, como já aconteceu no passado e como está previsto a partir de 1 de novembro de 2018, para atletas que disputam os 400, 800 e 1 500 metros (o caso da bicampeã olímpica Caster Semenya)?

As coisas estão a ser malfeitas. Não entendo que a IAAF tenha uma normativa que só afeta um número muito reduzido de provas. Não é possível. Se a testosterona influencia, influencia em todas as competições. O que se está a ver, a nível mundial, é que parece haver uma normativa para uma desportista muito concreta. Por isso, considero que Caster Semenya vai ganhar no TAD o direito a competir sem qualquer problema. De qualquer maneira, também temos de ser capazes de ouvir outras mulheres, a quem muito custa melhorar um segundo, uma décima. Como especialistas, estamos numa posição complicada. É preciso investigar mais.

Partilha da convicção de Stéphane Bermon, diretor do Departamento de Saúde e Ciência da IAAF, quando ele estima que haverá uma categoria de intersexuais no atletismo dentro de 5 a 10 anos?

Não. As sociedades não são assim tão transparentes para que uma pessoa se mostre abertamente intersexual. E quem vai ver quanto é que cada um tem de intersexual? Fundamentalmente, nenhum organismo desportivo pode dizer a uma pessoa o que realmente é.

Mas esses organismos decidem quem pode participar nas provas femininas. Qual a forma mais justa?

É muito complicado, tanto que, em mais de 60 anos, ainda não se encontrou uma resposta. A Ciência ainda não descobriu como se pode determinar quem pode participar ou não. Do ponto de vista genético, já nos equivocámos, e, do ponto de vista hormonal, estamos num momento muito difícil para avançar.

Os genes de Michael Phelps proporcionaram-lhe braços compridos que fizeram a diferença na piscina, os de Usain Bolt deram--lhe pernas grandes e mais rápidas do que o normal, e ninguém se aproxima da resistência dos africanos na maratona. Estas são vantagens incomparáveis à da testosterona inata em mulheres com mutações genéticas?

O mais importante vai acontecer quando uma máquina for capaz de determinar quais as variáveis que influenciam o rendimento desportivo: treino, alimentação, descanso, genética, lugar de nascimento, etc. A testosterona é muito, mesmo muito, relevante, mas não mais do que qualquer um destes aspetos. Há que demonstrá-lo cientificamente: por agora, é uma teoria. Todos os que são top a nível mundial beneficiam de uma genética especial. São um tipo de desportista que nasce a cada 500 mil. Génios com uma genética incomensurável que os torna quase perfeitos nas tarefas que executam.