Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

"Não podemos afirmar que os europeus descobriram o resto do mundo. Dizê-lo significa aceitar que aqueles povos não são nossos iguais"

Entrevistas VISÃO

DR

Leia ou releia a entrevista a Nicholas Mirzoeff, Professor universitário e ativista visual, defensor do polémico tema da "descolonização dos museus"

Nicholas Mirzoeff, 56 anos, professor de Média, Cultura e Comunicação na Universidade de Nova Iorque, esteve recentemente em Lisboa para dar uma aula aberta sobre o tema “Descolonizar o Museu: Ativismo Visual em Nova Iorque”. Autor de uma vasta obra sobre a cultura visual (na qual destacamos os livros How to See the World, de 2015, e The Appearance of Black Lives Matter, de 2017), explicou-nos o que é isso do ativismo na era das imagens. Porém, antes quisemos saber até onde o colonialismo está entranhado nos museus.

Porque precisam os museus 
de ser descolonizados?

Os museus são empresas coloniais. Veja-se o primeiro grande museu ocidental, o Louvre, em Paris. 
É grande porque Napoleão andou pela Europa e por África a tirar coisas de que gostava e a levar para lá. Por isso é que o Louvre tem uma coleção de arte egípcia, por exemplo. Napoleão foi ao Egito e roubou-a. Porque o British Museum tem uma coleção fantástica de obras de todo o mundo? Porque os ingleses andaram pelo mundo inteiro e roubaram-nas. Dizem que são museus universais e que estão mais habilitados a preservar essas obras, mas no fundo acreditam que são melhores do que os povos que as fizeram. Temos mesmo de pensar num novo tipo de instituição. E, quando eu estive em Lisboa, falava-se muito num novo museu, chamado “das Descobertas”.

Tem sido uma polémica, de facto.

É um exemplo perfeito da necessidade de descolonizar os museus. Simplesmente, não podemos afirmar, em 2018, que os europeus descobriram o resto do mundo. Não 
é possível. Dizê-lo significa aceitar 
a ideia de que aqueles povos não são nossos iguais, que são inferiores. A mera ideia de que África ou as Américas estavam ali à espera de ser descobertas é não só ofensiva como ignora o enorme papel dos europeus no genocídio dos indígenas e na deportação em massa de africanos, do continente para as Américas, no comércio de escravos através do Atlântico. Isto é que deve estar nos museus. Dou o exemplo da África do Sul, onde foi construído um poderoso museu sobre o Apartheid.

Há quem diga que é apenas 
uma palavra, usada desde o tempo da Expansão Portuguesa.

A linguagem muda ao longo do tempo. O que era aceite antes já não o é agora. Palavras antes usadas para referir os afrodescendentes ou as pessoas de origem judaica são hoje consideradas inaceitáveis, ofensivas. Uma palavra como “descobertas” parece mais inocente, mas não o é para os africanos, e é preciso dizer que seis milhões de africanos foram levados para as Américas no tempo das Descobertas. Este é, aliás, um número icónico na Europa, pois também diz respeito às pessoas que morreram no Holocausto. Ora, as consequências do encontro entre europeus e africanos ainda não terminaram. Parece-me muito bem que se reflita sobre isto num museu, mas temos de fazer melhor do que persistir em chamá-lo “das Descobertas”.

Porque as pessoas se agarram tanto às palavras?

As tradições são inventadas, mas têm um grande significado. São uma forma de as pessoas entenderem o seu lugar num mundo com uma mudança extraordinariamente rápida. Sentimos incerteza sobre o futuro, e sobre 
o presente em muitos casos, portanto agarramo-nos a ideias do passado porque estas nos dão uma sensação 
de segurança.

Devem os museus devolver 
a arte roubada aos territórios colonizados?

Os museus deviam iniciar um diálogo com os países de origem dessa arte. Nos Estados Unidos da América já 
se iniciou um processo do género em relação aos objetos das populações nativas americanas. Existe um mecanismo legal, através do qual as populações indígenas podem reclamar objetos que tenham significado para si. E quem pode negar-lhes isso? Na Etiópia, já se pede o retorno de objetos levados no século XIX, que estão no British Museum. Os britânicos recusam devolvê-los, apesar de saberem que alguns daqueles objetos são tão sagrados para os etíopes que não podem sequer ser exibidos na Grã-Bretanha, porque isso causaria grande indignação. Para quê manter algo que nunca poderá ser ali exibido? Se realmente acreditamos que a Grécia é o berço da cultura e da civilização ocidentais, não deveria ser na Grécia que melhor poderíamos apreciar 
e entender essa arte? Não deveriam 
ser os povos que a fizeram a tê-la? 
Se achamos que esses povos não têm 
o direito de possuir os objetos dos seus antepassados é porque consideramos que apenas certas pessoas podem apreciar, entender e cuidar de objetos de importância histórica. Temos de perguntar: consideramos esses povos, de facto, iguais a nós?

Por outro lado, contrapõe-se que devolver essa arte tornará a cultura desses povos ainda mais invisível...

Invisível para quem? Para os europeus? Não deveria ser antes visível para os povos que a fizeram? E se quisermos vê-la, então entramos num avião e vamos ao Congo, em vez de irmos ao Louvre. Por essa ordem 
de pensamento, podíamos mandar para Brazzaville ou para Kinshasa 
a melhor arte europeia para que esses povos possam vê-la. Enviar para lá a Mona Lisa e alguns Van Gogh, uns Rembrandt... isso talvez fosse uma troca justa.

Esteve recentemente em Lisboa. Que mais devia a cidade descolonizar?

Pela primeira vez na História da Humanidade, há mais gente a viver 
nas cidades do que no campo. 
Esse marco aconteceu em 2011. 
O ambiente citadino é dominante na era da globalização. Em Lisboa, como em qualquer cidade moderna, assistimos a esta fase extraordinária de reabilitação dos edifícios. E muitos de nós somos excluídos do processo, somos empurrados para fora das cidades, devido aos custos exorbitantes da habitação. Ou seja: estamos a viver uma forma de colonização. Não temos direitos, 
nem poder nem experiência. Lisboa, como a maior parte da Europa ocidental, tornou-se um museu. 
É uma exposição visual. E aqui temos a cidade que brilha, que é boa para os turistas, muito boa para as elites, mas quem lá vive sente-se colonizado. Como vamos responder a isto? Não podemos deitar abaixo os novos blocos de apartamentos...

É uma maneira de apresentar 
a questão. Mas eu referia-me 
às ruas, às estátuas…

Quando circulamos, vemos um tipo de pessoa nos monumentos. Há muito poucas mulheres, por exemplo, 
à exceção da Virgem Maria e de outras santas. E a esmagadora maioria são homens brancos que estiveram envolvidos em campanhas militares, muitas vezes coloniais. Ora, em zonas onde a população é multicultural e vem de vários locais do mundo, encontramos pessoas oriundas de países onde esses militares atuaram. O que significa para elas ver esses monumentos? Portanto, ao reconstruir a cidade, temos de pensar em todas as pessoas que lá vivem 
e não apenas num ponto de vista.

Mas devemos esconder essa parte da História?

Não, não a escondemos, mas também não a celebramos. O que precisamos é de museus sobre a História do Colonialismo. E temos de ter cuidado com os objetos, pois eles são poderosos e perigosos. Podem transmitir mensagens de violência.

Então, temos de ir mais longe 
e tirar dos museus também obras que possam ser ofensivas para 
a condição da mulher? Ou banir 
as caricaturas de Maomé?

O ponto é este: os média visuais sustêm e criam o poder. E sustentam outras formas de poder cultural. 
Há muito trabalho a fazer no que 
diz respeito a pensar estas questões 
e a chegar a decisões.

Mas devemos banir as obras 
de Picasso, porque sabemos que ele era um misógino, por exemplo?

O caso de Picasso é muito interessante. Não tenho dúvidas de que alguns dos seus trabalhos são profundamente misóginos e tenho dificuldade em apreciá-los por causa disso. Como exibir um quadro de Picasso sem que uma mulher que o veja sinta que levou um estalo na cara? Ao mesmo tempo, temos de entender que uma pessoa possa ser suficientemente complexa ao ponto de ser um misógino e também produzir a maior peça de obra de protesto ou antifascista, como Guernica. Não argumento a favor da simplicidade, mas da complexidade. A violência na Ilíada é chocante. Há muita literatura antiga que trata os assuntos de uma forma que não consideramos apropriada nos tempos de hoje, mas continuamos a lê-la porque entendemos a sua complexidade. 
Não vamos deixar de lê-la; vamos 
é entendê-la de outra maneira.

Esta discussão a que assistimos (até exigindo a retirada de obras de arte com nudez) não estará a cair numa sufocante forma do politicamente correto?

Não é usual pedir a retirada de uma obra de arte simplesmente porque mostra uma mulher nua. Talvez tenha lá uma forma de violência sexual. Quando se fala do politicamente correto, isso é uma forma de caricaturar estas discussões, classificando-as como supersensíveis e simplificando-as, mas nós levamo-
-las muito a sério.

Diz-se um ativista visual. 
O que é isso?

O que fazemos hoje é usar os média visuais para perceber de que forma o mundo está a mudar, mas também podemos usá-los para ajudar a mudar a sociedade. Dou um exemplo: o movimento, nos EUA, Black Lives Matter. Quando começaram a ter provas visuais de que a polícia está a matar os jovens afro-americanos, as pessoas tomaram medidas de uma forma como nunca aconteceu. Com os smartphones, é possível documentá-lo e partilhá-lo com outras pessoas, e isso levou ao ativismo. Outro exemplo seria o da África do Sul à volta da estátua de [Cecil] Rhodes. Este imperialista britânico [fundador da antiga colónia da Rodésia, atual Zimbabwe] teve até muito recentemente a sua estátua na Universidade da Cidade do Cabo. 
Os estudantes conseguiram que a estátua fosse removida e lançaram outras ações de protesto para que 
o seu currículo fosse descolonizado...

Porque o mundo está mais visual 
do que nunca.

Num só dia, são publicados 1,5 mil milhões de imagens no Snapchat. Num só minuto são publicadas 400 horas de vídeos no YouTube. É um mundo visualizado, e uma das razões prende-se com o facto de os média visuais serem uma componente-chave do capitalismo contemporâneo.

Fala do ativismo desencadeado pelas imagens. Mas elas não banalizam a tragédia? Não nos habituam a ela?

É um verdadeiro problema. Temos filtros, mentais e emocionais, que tentam proteger-nos de toda a violência à nossa volta. De vez em quando, uma imagem em particular – pode ser a de um migrante que morreu afogado – rompe esse escudo. Mas também é verdade que o escudo se reconstrói muito depressa. Um ativista visual tem de dizer: “Continuem a olhar.” Não só no primeiro dia, em que toda a gente está chocada, mas para além disso, tentando entender.

E como se passa da emoção 
de se ver a imagem para o ativismo?

No caso do Black Lives Matter, as pessoas começaram a partilhar as imagens online. Usando as hashtags, entraram em contacto mesmo sem se conhecerem. Depois decidiram organizar-se, logo após o assassínio de Michael Brown, em Ferguson, em agosto de 2014. Ou seja: usaram os média sociais para criar uma forma de ativismo. Estamos a viver uma era nova, o equivalente a ter vivido quando Guttenberg inventou a imprensa e nem lhe passava pela cabeça os livros, os jornais e as revistas que viriam aí.

Na era das imagens, ainda podemos falar de uma só cultura dominante ou cada um tem a sua?

Existe a cultura dominante, que é a capitalista, isso é claro. O que está mais disponível e o que é mais mostrado é aquilo que a cultura capitalista quer vender.