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"A emoção é a nossa matéria-prima. Não consigo pensar em contratar um ator por quem não tenha afeto e empatia, por melhor que ele seja"

Entrevistas VISÃO

Luís Barra

Em entrevista à VISÃO, Diogo Infante, ator, encenador, diretor do Teatro da Trindade, recorda que no primeiro dia em que entrou como diretor no Nacional, bateu com a cabeça numa parede e caiíu. "Foi uma espécie de aviso: ‘Vai com calma, isto é pesado'. Aqui, até agora, ainda não bati em lado nenhum"

Ator multifacetado e multipremiado, já muito riscou, seguramente, da sua lista de desejos profissionais a cumprir. Diogo Nuno Infante de La Cerda interpretou grandes papéis nos palcos e nos ecrãs de cinema e de televisão, ensinou as regras do bom português na televisão pública, encenou peças, dirigiu teatros. Ex-diretor do Teatro Maria Matos (2006-2008), de onde saiu para dirigir o Teatro Nacional D. Maria II (2009-2011) – seria demitido após decidir a suspensão da programação devido a cortes orçamentais –, substitui agora Inês de Medeiros na direção do Teatro da Trindade. À VISÃO, fala das suas ambições para este lugar, mas esconde os trunfos para uma conferência de imprensa anunciada para junho. Sem rodeios, defende os afetos, a meritocracia na profissão, um lugar para o teatro de histórias. E conta como, aos 50 anos, arriscou outro sonho: a realização da curta-metragem Olga Drummond, rodeado de atrizes consagradas.

Esteve em digressão com a peça Quem Tem Medo de Virginia Woolf. Quem tem medo da voz de um ator?

É uma pergunta interessante. Um ator é, em primeiro lugar, um comunicador. E é um intérprete de palavras de outros. Mas os atores têm uma voz própria, que passa pela escolha dos textos: lançam aí uma mensagem, um repto. Bem usadas, as palavras podem ser inspiradoras, reveladoras, transformadoras. Mal usadas, são armas. Qualquer um que tenha voz, hoje, tem um pequeno poder. Desde que seja ouvido. Se associarmos palavra e voz, podemos, no limite, ser incómodos. Com a idade, cada vez mais, entendo-me como um ser político, alguém que reflete sobre o seu papel na sociedade. Sou, de alguma maneira, um agitador de consciências.

Completou 50 anos em 2017. Isso significa liberdade para fazer escolhas mais arriscadas?

Sobretudo, dá-me confiança para navegar por águas mais escuras e profundas. Para mim, não arriscar não faz sentido. Mas a idade dá serenidade. Hoje, consigo respirar mais profundamente. Perante as situações, penso: “Diogo, respira. Já passaste por isto, sabes o que vai acontecer. Respira. Vai correr bem.” Há 20 anos, a vida ainda não me tinha ensinado isso.

Teve esse diálogo ao espelho quando foi convidado para dirigir o Teatro da Trindade?

Sim. Eu já tinha manifestado, junto de amigos, a vontade de voltar a ter um desafio assim. Há, em mim, uma inquietude para intervir, produzir, estruturar projetos… Comecei a encenar aos 24 anos, neste mesmo teatro, porque sentia vontade de controlar os processos criativos. E, quando as direções artísticas me surgiram na vida, pensei: “Se aplicar a mesma lógica a uma outra escala, isto talvez corra bem.” Gosto desta responsabilidade, de cuidar dos atores, de os mimar e desafiar.

O Trindade é mais fácil de controlar do que o Teatro Nacional D. Maria II?

Sim, a capacidade de intervir numa estrutura como o Nacional é necessariamente mais limitada, não só porque há uma missão clara nos estatutos mas também porque o teatro tem uma estrutura tão pesada que condiciona em absoluto a atividade. Num orçamento de quatro milhões e meio de euros, três milhões eram para a estrutura! Isto é perverso. É um problema de muitas empresas públicas, cuja gestão foi acumulando pessoas. Senti o mesmo na RTP: havia tanta gente, tantos primos e filhos e famílias inteiras que lá trabalhavam… E têm competências específicas para as funções que desempenham? Nem sempre. Felizmente, esta realidade tem vindo a diluir-se, hoje há mais critério e exigência. 
No Trindade, tenho uma equipa de 26 pessoas, no D. Maria eram 90… A sala tem o mesmo tipo de lotação, não tem é o mesmo peso institucional. E eu gosto mais de trabalhar sem esse peso. Gosto de criar e desafiar pessoas… 
Pôr um fato e sentar-me a uma secretária agrada-me menos, mas aprendi 
a fazê-lo, e com um sorriso.

O ter suspendido a programação 
do D. Maria, sendo por isso demitido pela tutela, foi a manifestação 
antiausteridade de um homem só?

A vida continua e eu fiz o que entendi que devia fazer. Era-me mais importante chamar a atenção para uma realidade que me incomodava profundamente do que salvaguardar o meu lugar. Em retrospetiva, posso pensar: “Se calhar, fui um bocadinho impulsivo.” Mas eu tinha esgotado etapas, já tínhamos conseguido efetivar cortes no orçamento para otimizar os recursos. E eu não tinha um interlocutor: o então secretário de Estado da Cultura [Francisco José Viegas] não percebia o que eu dizia, porque na verdade nós dependíamos do Ministério das Finanças, essa era a verdadeira tutela. Como o poder político não tinha a coragem de despedir pessoas, a única forma era cortar na atividade. E fazer uma gestão negativa, para mim, não fazia sentido.

Sentiu-se apoiado pela classe?

Não sei. Não perco tempo a refletir sobre isso. O meio artístico, e o teatral em particular, não é muito coeso. Há duas grandes linhas: uma, que curiosamente está hoje mais instituída, é a do teatro dito alternativo/contemporâneo, que, durante anos, viveu com dificuldades. Obviamente, estas pessoas não se reviam na programação que eu fazia e não ficaram particularmente solidárias, achando até que era uma oportunidade. E não demorou muito para que esta corrente teatral, à qual reconheço imenso mérito, valor e importância, chegasse finalmente às estruturas de produção. Os teatros municipais Maria Matos e São Luiz, o próprio Teatro Nacional, o CCB, a Culturgest… De repente, todas as estruturas que têm efetivamente recursos financeiros ficaram com o mesmo tipo de vocação. Agora, está a surgir uma contracorrente: a de todos os outros atores, se calhar mais velhos, e até alguns novos, que gostam do mesmo que eu, do teatro de histórias, de narrativas. Podem até fazê-lo com uma estética que rompe, mas têm respeito pelo texto. E do ponto de vista dos apoios, as pessoas posicionam-se, como é o caso, agora, do Teatro Maria Matos.

Defende que era preciso intervir para “salvar” o teatro?

Não se trata de salvar. Nos últimos dez anos, havia no Maria Matos um projeto específico, de reconhecida qualidade, mas que era completamente desadequado ao espaço. A afluência de público, ou a sua falta, revelava esse desajuste. Essa ligação é fundamental. Era sabido que o Mark [Deputter, ex-diretor do Teatro Maria Matos e atual diretor artístico da Culturgest] tinha decidido pôr uma bancada em cima do palco, muitas vezes para aconchegar o desconforto sentido. Quando representei aí o Hamlet, o encenador João Mota também colocou lá uma bancada, mas abrimos o segundo balcão devido à afluência de público. Um Hamlet é um Hamlet. Finalmente, com a saída do Mark, a vereadora [da Cultura, Catarina Vaz Pinto] percebeu que era o momento de fazer um acerto. O projeto não vai perder-se, vai transformar-se em dois: um, resultante do projeto educativo da Susana Menezes no Maria Matos; o outro, vai ser canalizado para o antigo Teatro da Cornucópia. A Câmara está a apresentar alternativas que são justas, equilibradas.

Sente-se confortável com esta intervenção tão “musculada”?

Eu estou habituado a ela: fui demitido [do Teatro Nacional] porque tomei uma posição de força. Não podemos é ser esquizofrénicos: exigir uma classe política atenta e dinâmica, e depois reagir mal quando esta toma posições.

Crê que isso revela a sombra da dita “subsidiocracia”: quer-se o dinheiro, não se quer intervenção?

Não. Acho é que seria mais interessante canalizar esta energia para exigir um maior reconhecimento das artes ao poder político. Queria ver um Orçamento do Estado que refletisse as promessas políticas. Isso é que me inquieta. 
Eu gostava que as artes, não só as alternativas mas também as performativas, o cinema e outras, tivessem outros apoios. Porque acredito que a arte pode efetivamente fazer as pessoas mais felizes, 
e dar-lhes uma existência mais plena.

Já teve de dizer: “Sei que adoras representar, mas este caminho 
não é para ti, és mau ator”?

Nunca disse isso, mas já tive de despedir um ator de um projeto porque ele não estava a cumprir as expectativas.

No teatro, impera mais a solidariedade do que a meritocracia?

Se calhar, é uma utopia, mas acredito que o critério deveria ser sempre o da meritocracia. Como em todas as áreas, há pessoas mais cumpridoras, talentosas, rápidas… Nós, atores, trabalhamos com os afetos. Os processos criativos são emocionais: frustração, procura, angústia, descoberta. A uma semana da estreia, as atrizes estão uma pilha, eu estou ansioso, choramos e rimos, agarramos as mãos e dizemos: “Adoro-te, adoro-te, vai correr bem, é tão bom estar aqui.” É complicado pensar que isso não contamina as relações profissionais: os atores gritam e são excessivos, e há uns que partem as portas e que rasgam a roupa. Há histórias maravilhosas, sempre houve.

Isso não é só um cliché?

Não, é tudo verdade. A emoção é a nossa matéria-prima. Eu não consigo pensar em contratar um ator por quem não tenha afeto e empatia, por melhor que ele seja. Isso não significa que vá procurar atores só porque gosto deles. Se não tiverem a qualidade necessária, por mais amigos que sejam, também não vou buscá-los. Mas os afetos estão sempre presentes e são pesados: os amores, os desamores, as zangas… Somos seres um bocadinho diferentes porque lidamos diariamente com isto. Se não tivermos equilíbrio, podemos entrar em depressões. É importante um ator ter formação para aprender a ter controlo, a gerir os limites.

Tem-se a sensação de que, no seu caso, encontrou as balizas certas precocemente…

Fui talvez um bocadinho precoce, porque comecei muito cedo a ter responsabilidade. Comecei a trabalhar aos 13 anos, aos 17 já contribuía financeiramente para casa, tinha de ajudar a minha mãe e a minha avó, assumi cedo as rédeas. A direção acaba por ser uma consequência natural, como se eu precisasse de controlar as coisas à volta. Não é doentio ou patológico: só quero garantir que chegamos ao outro lado.

Encena e entra, agora, em O Deus 
da Carnificina, que fala sobre 
(des)controlo. Yasmina Reza é uma autora à sua medida?

É uma autora muitíssimo inteligente, com uma noção deliciosa da escrita teatral. Encaro este texto como uma partitura musical: não temos de inventar nada, só temos de marcar os ritmos, brincar com as dinâmicas. E há o subtexto, a crítica, a inteligência com que nos desmonta. Estes quatro personagens, reunidos por causa da briga entre os filhos, são todos reconhecíveis: representam padrões da sociedade. E é terrível pensarmos: “Uau, se calhar… num determinado contexto… eu era capaz de igual violência.” Eu estive numa situação parecida com o meu filho de 15 anos. E pensei: “Isto é a peça que vou fazer!” O meu filho foi vítima de violência psicológica e reagiu com violência física, e a escola desvalorizou a primeira. Diziam: “Nós temos tolerância zero à violência.” E eu disse: “Mas qual delas? O facto de o meu filho ter dado um murro no outro? Já lhe ocorreu perguntar porquê?” A ferida do lábio do [outro] menino é inaceitável, mas se calhar cura mais depressa do que a ferida impressa na mente do meu filho. Tentei debater estas questões, que são as mesmas da peça, com outro grau de intensidade... Embora me tivesse apetecido muito dar dois murros na mesa.

O seu papel no Trindade é o de criar um público fiel?

Também, mas a preocupação é a de perceber como é que posso maximizar este teatro. Tenho um orçamento pequeno: 350 mil euros, comunicação incluída. Numa primeira fase, quero investir na programação na sala grande, e isso implica tornarmo-nos coprodutores da maior parte dos espetáculos. O eixo principal vai ser o teatro, a partir de textos de reconhecido mérito, e com temporadas longas, de dois, três meses.

Com o tabuleiro ocupado, como diz, pela corrente mais alternativa, os grandes textos vão cativar um público esquecido?

Há públicos, nos quais me incluo, que gostam de ver determinados espetáculos e que não têm muita oferta. Porque as estruturas estão muito vocacionadas para outra linha estética que apela a um nicho mais intelectual. E, depois, há uma grande massa de público que vai aos espetáculos do [Filipe] La Féria, da UAU e da Força de Produção... Mas não estamos em guerra aberta. O facto de eu querer afirmar um teatro com características de proximidade não significa que rejeite o resto. Há espaço para coabitação saudável e criativa.

Escolhendo essa via, está sujeito a que o sucesso no Trindade seja medido pelo retorno de bilheteira?

Não, a questão nunca me foi posta nesses termos. Eu é que a coloquei a mim próprio. Quando me estreei aqui, há 25 anos, com O Amante, perguntava sempre: “Quantas pessoas estão?” “Estão 40.” “Uau, estamos salvos!” Eu queria que o máximo de pessoas me visse. Mas isso não significava que eu tivesse de mostrar o rabo ou escorregar na banana. E há espetáculos que não correm bem. Eu não tenho o segredo nem uma varinha mágica.

O fator “Diogo Infante” é essencial?

Dizem que sim. O Diogo Infante-diretor artístico diz: “Vai lá para o palco.” 
O Diogo-ator diz: “Eh pá, estou tão cansado.” Percebo que sou uma mais-valia, é por isso que estou a dar o litro neste palco. Vai correr bem? Estou otimista. Isso define-me? Se calhar, sim. Mas estou com 50 anos e já não tenho de pedir desculpa por existir. E não peço que concordem comigo, apenas que venham ver o espetáculo.

O boom turístico de Lisboa pode ter um efeito positivo no Trindade?

Sim. A minha ambição é que o Trindade volte a ser uma referência cultural na cidade, que as pessoas pensem nele como “o nosso teatro”. Quero encontrar investimento, abrir o teatro a estrangeiros, ter um projeto educativo... Apesar da dimensão pequena, há esta ideia, gourmet, de que podemos ser um produto de qualidade.

Regressar aos teatros em que começou desencadeou emoções?

Sim. É uma emoção diferente da que tive no Teatro Nacional, pois foi lá que me estreei como ator. Mas este regresso ao Trindade, onde me estreei como encenador, traz-me memórias ternurentas, sinto-me bem. No primeiro dia em que entrei como diretor no Nacional, bati com a cabeça numa parede e caí. Foi uma espécie de aviso: “Vai com calma, isto é pesado.” Aqui, até agora, ainda não bati em lado nenhum [risos]. Adoro o palco do Trindade, é a melhor sala de espetáculos de Lisboa: há uma energia com a plateia, há uma equipa pequena mas generosa. O teatro é isto: um trabalho de partilha.

Estreia-se agora como realizador, com a curta Olga Drummond, protagonizada por Eunice Muñoz. 
É o desejo de outra partilha?

Como ator, fui percebendo que tinha opiniões que nem sempre coincidiam com quem dirigia os projetos. “Eu punha a câmara daquele lado…” Demorei 25 anos a concretizar este desafio. Este filme foi provavelmente das coisas mais bonitas que fiz na vida, e eu não represento nele! Olga Drummond nasceu do meu amor incondicional pelos atores, pela Eunice Munõz e pela Carmen Dolores em particular. Fui ao lançamento do último livro de memórias da Carmen, Vozes Dentro de Mim, e estavam lá tantos atores seniores fantásticos! “Como é que esta gente, com tanto para dar, não está mais aproveitada?” Olga Drummond é a história da chegada da maior atriz de todos os tempos a um retiro de atores, num palácio lindíssimo, chiquíssimo, no meio do campo, parece Downton Abbey.

Os movimentos censórios sobre 
a cultura a que se assiste agora são uma realidade distante?

A ilação que tiro deste momento que o mundo está a viver, por via do Trump, do Putin, de posturas assustadoras, é que é importante fazer uma reflexão sobre como é possível isto acontecer. Há um profundo descrédito na política: as pessoas estão fartas das promessas por cumprir, da falta de transparência. Tanto, que é possível eleger Trumps, e os populismos estão a ficar perigosíssimos. Os políticos têm de se repensar. É por isso que a ideia da “geringonça” me agradou: era uma aliança improvável, nunca fora possível criar uma alternativa de esquerda. Eu votei nessa aliança, mas teria preferido ver o PCP e o Bloco de Esquerda com pastas no Governo, para estarem mais implicados e saberem o que custa tomar decisões. Esta postura de estar de fora, sempre a mandar bitaites, é cansativa.

Quando se casou com o agente Rui Calapez, em 2013, escreveu no Facebook: “Casei-me porque, felizmente, vivo num país que o permite fazer, mas tenho direito à privacidade e a perseguir a felicidade nesta viagem a que chamamos vida.” Continua a sentir isso?

Felizmente, vivo num país onde posso casar-me legalmente, onde posso adotar um filho legalmente, onde agora podemos legalmente coadotar. Fico orgulhoso por aqui se darem passos tão importantes. Estou numa posição que pode ser considerada privilegiada, mas também sou um alvo fácil. Há sempre umas bocas e uns comentários, mas isso há em todo o lado... É difícil navegarmos na esfera pública e não sermos alvo de críticas, por uma razão ou outra. A minha defesa é não ir à procura de informação que possa magoar-me.

Um site ligado ao movimento LGBT distinguiu-o, então, como uma referência. Sente-se confortável na posição de herói da causa?

Nunca quis ser porta-estandarte de nenhum movimento. Percebo a necessidade, legítima, de as pessoas tomarem atitudes reivindicativas. Mas não sinto essa necessidade nem quero desempenhar esse papel. A minha sexualidade não me define. É uma característica como outras. Eu não me identifico com todos os gays, tal como não me identifico com todos os brancos, portugueses, pessoas de esquerda... A minha comunidade é o meu país, a minha família, os meus amigos.