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Turismo: "Ninguém quer ter uma Disney em Lisboa ou no Porto"

Entrevistas VISÃO

Luís Araújo, Presidente do Turismo de Portugal

Diana Tinoco

Em entrevista à VISÃO, o presidente do Turismo de Portugal diz que ainda há espaço para crescer, para apostar no Interior e combater a sazonalidade. E recusa que a pressão nas grandes cidades seja culpa exclusiva do turismo

Diana Tinoco

Diana Tinoco

Repórter Fotográfica

A pausa letiva enviou os 400 alunos para casa e mergulhou no silêncio o edifício centenário, adaptado, em 2009, para Escola de Hotelaria e Turismo de Lisboa. Num dia normal, estes corredores estariam cheios, as cozinhas num frenesim de vapores e de cheiros, as salas e o restaurante de aplicação agitados em aulas práticas. Símbolo da aposta na formação no setor – é um dos 12 estabelecimentos que o Turismo de Portugal gere no País –, a escola de Campo de Ourique foi o cenário escolhido para falar sobre outros temas não menos fervilhantes: os recordes da atividade turística, os desafios que se colocam nos próximos anos, as críticas feitas a uma das atividades mais dinâmicas da economia, apontada como responsável pela gentrificação nas grandes cidades.

Com duas décadas de ligação à atividade e desde 2016 à frente do instituto público que apoia o setor, Luís Araújo reconhece que é preciso encontrar o equilíbrio entre a autenticidade e a criação de novos conceitos, e que a próxima batalha do turismo passa por aliar o seu contributo económico crescente à sustentabilidade. E na semana em que o setor se junta para a feira anual – a Bolsa de Turismo de Lisboa –, espera que o entusiasmo criado em volta da eleição de Portugal como o melhor destino do mundo convença cada vez mais portugueses a fazerem férias cá dentro.

Está a cumprir dois anos de mandato. O que lhe deu mais gozo neste período?

É difícil escolher, mas as coisas têm uma sequência, nada aparece feito do zero nem é obra de uma só pessoa. Houve coisas muito positivas: a aprovação da estratégia para o setor [Turismo 2027]; o termos ultrapassado o recorde de 15 mil milhões de receitas e estarmos a contribuir de uma forma tão positiva para a economia. E houve pequenas coisas, como as mensagens de ânimo das regiões do Interior que se sentem apoiadas ou das regiões mais turísticas que sabem que a nossa preocupação é combater a sazonalidade e reduzir a época baixa. Acho que foram dois anos de boas notícias, intensíssimos.

Depois de Portugal ter sido eleito o melhor destino do mundo nos World Travel Awards, uma espécie de Oscar do Turismo, que prémio é que quer e que ainda não tem?

Esse foi um reconhecimento absolutamente extraordinário! Há prémios que são importantes e que nos permitem capitalizar mais em termos de comunicação. Se fôssemos campeões do mundo de futebol, isso dava-nos muitos dividendos... E há prémios, como o que ganhámos recentemente, da Organização Mundial do Turismo, com o programa Tourism Training Talent que damos nas escolas do 
Turismo de Portugal. Confesso que este me encheu de satisfação pessoal.

Mas os prémios de turismo trazem realmente gente?

Trazem, porque são um acrescento à comunicação que nós já fazemos, e isso é fundamental. Posiciona-nos em determinados segmentos que nos interessa captar – os turistas que gastam mais – e permite-nos chegar a um público maior. Viu-se isso agora na [feira de turismo] Fitur em Espanha em que fomos com a imagem de “O Melhor Destino do Mundo” e em que era curioso ver espanhóis a serem entrevistados e a dizerem: “Temos de ir a Portugal, se é o melhor destino do mundo...”

E ter figuras como Madonna, Philippe Starck ou Louboutin 
a mudarem-se para cá...

Ajuda. Vale o que vale, não é? Se até eles – que ainda por cima são pessoas que conhecem todo o mundo – escolhem Portugal, porque é que um turista que está na sua casa a decidir o destino de uma semana de férias e quer ter a melhor experiência da sua vida não há de escolher também Portugal?

Os crescimentos de receitas a dois dígitos, como os que o turismo tem tido, são sustentáveis durante quanto tempo mais?

O objetivo definido na estratégia é chegar aos 86 milhões de dormidas e aos €26 mil milhões de receitas. Acreditamos que o crescimento vai começar a estabilizar, mas é exequível. O mais importante é tratar o produto como um todo e dinamizar as regiões com menos turismo e as épocas baixas das que têm mais. 
E ainda conjugar isso com a visão social e ambiental da sustentabilidade. Somos os principais interessados em que haja pessoas felizes na rua: turistas e locais. Queremos ter 90% das pessoas satisfeitas com o turismo.

E além de mais, queremos também melhores turistas 
– daqueles que gastam mais?

Sem dúvida, mas para isso também é preciso colocarmo-nos na cabeça deles e perceber exatamente o que é que querem. Muito do que querem, nós temos – esta autenticidade, este valor de património. Mas há mais além disso, e é o que nós temos de procurar, não nos focando só no sol e na praia, ou em produtos que beneficiam uma ou outra região, mas tentando dar o máximo de produtos e principalmente passando 
a mensagem certa para os mercados e segmentos certos.

Somos mais baratos 
do que a concorrência?

Não sei se somos mais baratos; há destinos mais baratos. Em termos de qualidade/preço, eu sou suspeito. Há um crescimento de turistas, mas também um maior valor de receitas.

Mas há espaço para termos um preço mais alto para o que vendemos lá fora?

Há espaço para tudo desde que tenhamos consciência de que esse preço é o correto para a expectativa daquele cliente. Não podemos simplesmente aumentar preços e não dar qualquer coisa em troca.

A oferta de hotéis tem vindo a crescer em dezenas de unidades por ano. É sustentável continuar com este ritmo?

Quando pensamos na sustentabilidade do turismo como um todo, esquecemo-nos de que 90% das reservas dos empreendimentos turísticos são no Litoral. Isto não é sustentável. É preciso termos distribuição no território, riqueza em todo o País e ao longo de todo o ano.

E esta nova oferta está a ser adequadamente distribuída?

Podia estar mais, mas é a questão do ovo e da galinha: para haver oferta, tem de haver procura, e vice-versa. Assim, também nos compete estimular a procura para que as pessoas vejam como uma boa oportunidade fazer esses investimentos noutras condições - porque é diferente do ponto de vista da receita, dos custos operacionais e de contexto fazer um hotel numa cidade ou numa região do Interior.

Ainda assim, é um crescimento mais estrutural do que a Autoeuropa, que pode ser deslocalizada…

Por isso é que dizemos que vivemos do território – esta é uma atividade não deslocalizável. Além do efeito de arrasto que esta tem em toda a economia, desde a aquisição de bens ao investimento. Quantas pessoas vêm de férias e depois decidem comprar uma casa, e quantas repetem a visita e decidem mudar-se para cá de armas e bagagens e montar empresas, criando postos de trabalho...

O que está a ser feito para levar as pessoas a descobrirem as regiões do Interior e a combaterem a sazonalidade?

Estruturar o produto para que este não seja fixo ou estável numa determinada região mais conhecida, mas que toque mais regiões e que permita levar pessoas para lá. E melhorar a experiência das pessoas para que elas sintam que o valor corresponde à sua expectativa.

E há um caminho a percorrer para melhorar a oferta?

Temo-lo feito nos dois últimos anos, fruto das linhas que foram criadas no programa Valorizar (valorização turística do Interior, wi-fi em centros históricos, turismo acessível). Criámos uma equipa específica para o Interior para que a oferta seja estruturada e corresponda à expectativa. Há o que fazer, há. Mas vemos um grande entusiasmo por parte das pessoas que lá estão, das entidades responsáveis, e uma vontade muito grande de trabalharem em conjunto que não sentíamos antes.

Quando anda na rua em Lisboa e no Porto, em sítios com tantos turistas, o que sente?

Aquilo que sentimos todos: coisas a acontecer, vida. Uma satisfação muito grande ao perceber, nas caras dos estrangeiros, que eles estão a adorar estar aqui, seja em Lisboa, no Porto ou no Interior. Acho que nós também nos alimentamos desta vontade, deste bem-estar geral.

E tenta olhar para a cidade ou para o País como se fosse um turista?

Bastante. E acho que isso também é parte do espírito que se vive hoje no Turismo de Portugal: pensar como se fôssemos turistas. Que tipo de produto é que temos, o que as pessoas procuram?

Como é que conseguimos continuar a crescer e a não matar a galinha dos ovos de ouro?

A autenticidade é um fator atrativo do País – ponto. E isto é algo que queremos preservar; somos os primeiros a ter interesse e vontade em que isso aconteça. Ninguém quer ter uma Disney em Lisboa ou no Porto. Por outro lado, também há um fator de empreendedorismo e de inovação nos produtos. Isso não significa que deixe de haver o tradicional e o mais autêntico. Não se pode de maneira alguma coibir ou espartilhar 
a inovação.

E as pessoas que se queixam de ir ao Chiado num fim de semana e de, a cada dois passos, tropeçarem num turista? 
É uma crítica atendível?

Prefiro assim do que como era antes, em que ninguém passeava no Chiado ou na Baixa com medo de ser assaltado; ou em que os prédios estavam ao abandono ou onde não havia um lugar para jantar ao domingo ou à segunda. É uma questão de opções.

Não teme que nasça um sentimento antiturista num país que deve ao turismo parte do seu crescimento económico?

Portugal sempre foi conhecido como um país inclusivo, que sabe acolher, receber e tratar bem quem nos visita. Tudo o que vivemos nos últimos dois anos - prémios, melhoria de autoestima - também nos permite perceber isso: o turismo é importante, mas eu serei sempre português e este vai ser sempre o meu País. Foi esta autenticidade que trouxe as outras pessoas para cá. E isto não nos faz olhar para o turista como algo negativo, mas sim positivo.

Qual é a crítica a este movimento de “invasão de turistas” que mais lhe irrita?

Criticar só pelo facto de criticar e sem se analisar o que é a realidade, bem como os prós e os contras. Isso é negativo e custa-me aceitá-lo. Há muita gente que se foca num determinado problema, que teoriza à volta dessa questão e se recusa fazer uma análise mais macro das oportunidades que muitas vezes podem decorrer daí.

Mas dá razão a quem diz que o turismo inflaciona os preços das casas e afasta habitantes dos centros das cidades?

Não, quando se diz que é culpa do turismo – ele não é o único responsável. Não podemos culpabilizar um setor que por acaso até é dos que estão a trazer mais riqueza para as cidades, mais reabilitação, mais pessoas que antes não havia. Em Lisboa, 60% das casas recuperadas para alojamento local estavam inabitáveis.

Faria sentido reconduzir mais receitas ou parte da taxa turística para atenuar esses efeitos?

Esta questão é mais ampla e nós não devemos reduzi-la à taxa turística. Ela tem que ver com o planeamento urbanístico e das cidades, com uma infinidade de coisas, com o facto de as cidades terem mais e diferentes pessoas...

E de não estarem preparadas...

Não sei se é por não estarem preparadas ou por não terem conhecimento sobre o que precisam para estarem preparadas, mas tem que ver também com o aumento dos fluxos, com a circulação.

O turista Luís Araújo anda de Uber?

Por acaso uso táxi. Há uma ótima aplicação que é a mytaxi. [Risos.] É a que eu uso.

Quanto é que o turismo perde com o atraso da legislação para as plataformas de transporte?

É difícil quantificar.

E o que perde sem um novo aeroporto na capital?

Temos necessidade de aumentar a capacidade para receber mais aviões em Lisboa. E é o único aeroporto que tem esta preocupação. Sem acessibilidades não teríamos os crescimentos que estamos a ter hoje. Foi tomada a decisão – e bem – para se fazer os estudos e definitivamente avançar com a opção que está em cima da mesa, um aeroporto no Montijo. Espero que a obra seja rápida.

Está prevista para 2021. 
Ainda vem a tempo?

O aeroporto foi dimensionado para determinada situação e agora, fruto deste crescimento, temos uma situação diferente. Há um plano a ser desenhado e uma grande atenção de todos os intervenientes para minorarem os constrangimentos até termos o novo aeroporto.

Que tipo de turista é? 
O que escolhe, do que gosta?

Cada vez mais procuro sopas e descanso. [Risos.] Literalmente! Eu sei que isto soa mal. Por acaso tenho feito um esforço para conhecer muitos projetos que me aparecem à frente e não há nada como ir ao terreno e verificar. Gostava de ir mais, é muito difícil...

Mas não está sempre em modo 
de trabalho cá dentro?

Não, mas quem trabalha em turismo nunca desliga. E eu, com o passado hoteleiro que tive, sou dos que se sentam de frente para a porta da cozinha para ver como é que a comida sai, se demora muito tempo... Acho que é muito útil conhecer o produto e as regiões, há coisas absolutamente extraordinárias em Portugal. Ainda há uma semana estive em São João da Madeira a propósito de turismo industrial e fui ao Oliva Creative Factory que pode causar inveja a muitos museus e galerias por esse mundo fora.

E, lá fora, onde é que gosta de ir?

Tenho um destino de coração que é o Brasil – vivi lá quatro anos. Nunca me canso de voltar de férias as vezes que forem precisas. Mas há destinos que marcam mais do que outros, tudo tem que ver com as épocas, com as situações. Não tenho um padrão. Gosto cada vez mais de ir e de demorar-me algum tempo nos lugares.

A BTL arrancou nesta 
quarta-feira. O que espera 
da edição deste ano?

Acho que vai ser muito positiva, porque o ano também o foi. Há um entusiasmo que contagia as pessoas para que, no caso de Portugal, recorram mais ao turismo interno. O foco na venda – para que as pessoas possam entrar e comprar – é importantíssimo. A promoção da empregabilidade – haverá 10 mil ofertas para quem queira trabalhar no setor, incluindo entrevistas 
de trabalho –, além da questão 
da digitalização e das startups. 
E vamos agradecer a quem permitiu que fôssemos o melhor destino do mundo, a quem trabalha no turismo, pelo que o stand vai estar decorado com imagens de pessoas que trabalham no setor.

Que parte do sucesso do turismo é que podemos atribuir ao anterior governo? E ao atual?

Este Governo tem uma preocupação grande com os recursos humanos, com as regiões do Interior e com a perspetiva de futuro, o que me estimula a continuar a trabalhar nesta área – e eu também tenho essa preocupação expressa pelo meu contributo através de um organismo público, para o qual fui nomeado. Acredito sinceramente que este é o caminho certo que nos vai preparar para o turismo do futuro.

E este setor pode ser exemplo para outros em que se pedem pactos de regime entre governos?

Isso não é a mim que tem de 
perguntar. A minha preocupação

BI

Nome
 - Luís Inácio Garcia 
Pestana Araújo

Idade
 - 47 anos

Formação - 
Licenciado em Direito, com especializações em Turismo pela Universidade de Cornell

Percurso profissional - Grupo Pestana 
(1996-2005 e 2007-2016); chefe de gabinete 
do secretário de Estado do Turismo (2005-2007). Lidera o Turismo 
de Portugal desde fevereiro de 2016