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"Portugal tem uma história de sucesso na integração dos muçulmanos. Mas, nos últimos anos, há uma mudança propícia ao extremismo islâmico"

Entrevistas VISÃO

Henrique Cymerman e Aviv Oreg

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Leia ou releia a entrevista a Henrique Cymerman e Aviv Oreg, jornalista e consultor de segurança, autores do livro 'O Terror entre Nós'

Durante quatro anos, o mais premiado jornalista português trabalhou num projeto sobre as origens da Al Qaeda e do Estado Islâmico. O documentário Jihad Now fez com que Henrique Cymerman e Aviv Oreg, um antigo oficial de informações do Exército israelita, se tornassem amigos à custa do extremismo islâmico. Agora, acabam de publicar O Terror entre Nós, um livro com edição portuguesa (Porto Editora) que vai também ser lançado nos EUA, Brasil, Espanha e Israel. A obra promete polémica, porque o repórter e o agora consultor de segurança não se limitam a analisar a ameaça do terrorismo ao modo de vida do Ocidente. Entre as propostas que apresentam, defendem a criação de novos países no Médio Oriente e o desenvolvimento de um megaprojeto ferroviário a ligar os mares da Arábia e do Mediterrâneo. Algo a que algumas plateias árabes já reagiram com agrado. Esta é a entrevista a que os autores responderam por escrito e a quatro mãos.

O vosso livro não é um simples ensaio académico sobre o jihadismo. Até se deram ao trabalho de fazerem recomendações práticas e de apresentarem um plano político para lidar com a turbulência no Médio Oriente. Porquê?

O movimento global da jihad nasceu e desenvolveu-se no Médio Oriente. As suas raízes ideológicas vêm diretamente de lá, em específico da Arábia Saudita (wahabismo) e do Egito (salafismo - Irmandade Muçulmana e Salafia Jihadia dos apoiantes de Sayyid'd Qutb). Além disso, várias questões políticas são o combustível para o entusiasmo dos jihadistas, na região e para lá dela. A ausência de democracia nos vários países desta parte do globo, os líderes teocráticos que ascenderam ao poder, mas que não conseguiram atender às necessidades básicas dos seus povos, cuja maioria vive na pobreza, e ainda o uso frequente da violência contribuíram muito para o avanço do movimento jihadista. As questões regionais, em especial o conflito israelo-palestiniano, também alimentam a chama da Guerra Santa pelo mundo fora.

Quantas vezes já ouvimos um jihadista do Ocidente assumir os seus ataques como vingança pelos sofrimentos e queixas palestinianos?

A Al Qaeda e o Daesh, como sublinham muitas vezes no vosso livro, querem apagar o acordo Sykes-Picot (celebrado por franceses e britânicos, em 1916) e refazer o mapa do Médio Oriente.

Ora uma das vossas propostas é a criação de quatro novos países na zona (uma pátria curda, um novo estado sunita e mais dois países xiitas). Isso não é contraditório?

Não, de todo. Como o acordo de Sykes-Picot é considerado “o velho pecado”, nós também queremos apagá-lo. Esse acordo desenhou, a régua e esquadro, o mapa da região e isto segundo os interesses das então superpotências França e Grã-
-Bretanha, sem nenhuma consideração pelos habitantes locais. Essas linhas criaram novos estados artificiais - Síria, Líbano e Iraque -, dividindo seitas, clãs, comunidades e, às vezes, famílias. Ao longo das últimas três décadas, esses países artificiais ruíram, emergindo neles novas entidades nacionais baseadas nas comunidades tradicionais. Por exemplo: a Checoslováquia passou pacificamente a República Checa e a Eslováquia; um processo relativamente pacífico transformou a URSS em novos 
14 estados nacionais. Acreditamos que isso também é possível no Médio Oriente. Levará tempo e exigirá envolvimento internacional, porém, desde que a demografia seja a principal dimensão da nova ordem e desde que se ofereçam oportunidades económicas a todas as comunidades, acreditamos que esta abordagem sairá vencedora. Além disso, e ao contrário do que aconteceu nos Balcãs e na antiga URSS, as populações não foram transferidas nem misturadas, podendo identificar-se facilmente uma comunidade com a região onde esta vive. Essa abordagem também vai ao encontro do interesse da única potência externa que atualmente manda na Mesopotâmia – a Rússia. O principal interesse russo naquela parte do mundo é o acesso ao mar quente. Como escrevemos, trata-se de um processo a longo prazo, mas se não formos nessa direção as guerras civis que a Síria e o Iraque têm vindo a testemunhar nos últimos sete anos serão apenas mais uma ronda de violência que continuará a repetir-se no futuro.

Outra das vossas propostas é a renovação da Rota do Incenso como um projeto económico para reconciliar Israel com os países árabes – algo que poderia ser feito à imagem do que aconteceu há seis décadas com a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço. Como é que se pode criar um corredor ferroviário que ligue os mares arábico e mediterrânico, quando está em curso, por exemplo, uma guerra sem fim no Iémen?

Primeiro, o Iémen não faz parte deste acordo devido à sua instabilidade e à sua demografia heterogénea. Vemos as oportunidades económicas como um pilar fundamental para o sucesso deste plano. É importante que a porta fique aberta para o Iémen, caso este pretenda integrar o projeto. Pode ser que a viabilidade e os futuros lucros deste plano contribuam para uma solução política no Iémen.

A Síria tornou-se um símbolo de caos e um jogo de xadrez das rivalidades globais e regionais. Como é possível sonhar com a paz, quando ninguém se importa com 
as regras básicas da guerra? 
A Rússia e o Irão apoiam o governo de Damasco; os EUA dizem que não precisam da autoridade legal da ONU para manterem as suas forças militares em território sírio; a Turquia invadiu Afrin; Israel, Arábia Saudita, Qatar e Emirados Árabes financiam inúmeros grupos militares...

Tem toda a razão. No entanto, isto também pode ser visto como uma oportunidade. O caos foi provocado pela violência sectária desses países artificiais. O Estado Islâmico foi criado para recuperar a autoridade das forças sunitas baathistas pró-Saddam Hussein, a quem as tropas dos EUA confiscaram a soberania em 2003, permitindo a ascensão ao poder dos xiitas. A guerra civil na Síria, embora tenha começado no âmbito da Primavera Árabe, tornou-se uma guerra sectária, pois a minoria alauita liderada por Bashar al Assad quer manter o seu domínio sobre a maioria sunita. Tudo isto vai levar tempo. E, o mais importante ainda, é necessário o envolvimento internacional dos EUA e da Europa Ocidental: obviamente, não com tropas no terreno mas com uma abordagem mais diplomática, com recompensas e castigos, à medida que forem surgindo oportunidades económicas.

Os combatentes do Daesh e da 
Al Qaeda podem ser derrotados, mas a sua ideologia não. Na página 219 do livro, apresenta-se uma lista de medidas excecionais: censura, detenções administrativas, tortura. É esse o preço que temos de pagar para neutralizar o “xeique do Google”? Como anular o marketing da “e-jihad”?

Da mesma forma que lidamos com os pedófilos na internet e que devemos encerrar qualquer site que promove a pedofilia e prender o seu promotor, o mesmo temos de fazer a quem defende a jihad e a violência em nome do Islão. Há que estabelecer a diferença entre liberdade de expressão e os apelos ao ódio. Quanto às outras medidas que referimos, estas destinam-se apenas aos casos mais graves de “bomba-relógio”. Havendo informação de que um indivíduo está a planear uma operação suicida, e não sendo possível levar o caso a tribunal, deve ser aplicada a detenção administrativa desse indivíduo.

Existem muitos modelos e experiências de desradicalização. No Iraque, mais de cem jihadistas condenados tornaram-se estrelas de um reality show (Nas Garras da Lei). O que acham disso?

Aprovamos, claro, mas a reabilitação tem ido longe demais na Arábia Saudita. Jihadistas responsáveis por ataques que mataram centenas de inocentes gozam vidas de reis nos centros criados para o efeito. Têm casas e carros de luxo, e grandes salários. Não estamos certos de que esse tipo de “reabilitação” contribua para impedir que novos membros se juntem à Jihad.

Estamos condenados a outro 11 de Setembro, como dão a entender? Aliás, falam do Iémen e da Líbia como novos santuários jihadistas...

Há indícios de que a Unidade de Operações Externas do Daesh mudou a sua sede da Síria para a Líbia e que facilitou a partir daí o ataque em Manchester, no ano passado. Um atentado ao estilo do 11 de Setembro, em termos de modus operandi e de número de baixas, mudará o jogo. O problema é que este pode assumir formas diferentes - por exemplo, um ataque cibernético, desligando o sistema de controlo de tráfego aéreo ou mesmo envolvendo o uso de armas não convencionais. Nós desenvolvemos esses assuntos no livro. Falamos das ameaças criadas e resumimos as informações de que o Ocidente dispõe. A filial da Al Qaeda no Iémen, a Al Qaeda na Península Arábica, tem capacidade para executar um ataque desse tipo.

Abu Bakr al-Baghdadi e o seu califado parecem ter chegado ao fim. Mas o que acontecerá se os líderes do Daesh e da Al Qaeda decidirem unir forças? É esse o motivo pelo qual recomendam uma estratégia global para desacreditarem uma eventual parceria entre Baghdadi e Ayman al-Zawahiri?

As clivagens entre a Al Qaeda e o Estado Islâmico são enormes. No entanto, eles são os pais vivos da ideologia jihadista e, portanto, devem ser pessoalmente ilegitimados, sobretudo por líderes muçulmanos e pelos opinion-makers. Podem invocar-se histórias reais de um e de outro. Zawahiri é suspeito de envolvimento no homicídio de Abdulla Azzam, o mais importante ideólogo do movimento 
jihadista, no Paquistão, em 1989.

Como interpretam os acordos que alguns governos europeus têm feito com senhores da guerra na Líbia e na região do Sahel para reduzir o fluxo dos migrantes? É uma forma de milhões de euros acabarem a financiar as redes terroristas?

Este êxodo tem sido uma catástrofe e resulta da destruição de vários Estados na sequência da chamada Primavera Árabe – sobretudo na Síria, no Iémen e na Líbia. Muitos jovens estudam, mas não têm perspetivas nem trabalho. Por isso estão dispostos a tudo para chegarem à Europa. 
No entanto, não basta aos governos europeus mandar dinheiro para África; é preciso, por exemplo, observar o que está a fazer a Alemanha na Etiópia, financiando programas universitários, a formação profissional e outras ações que permitam fixar as pessoas.

Por que motivo se fala tão pouco dos 100 milhões de desempregados que haverá na região até 2030, como é referido no vosso livro?

Isso não é discutido e deveria sê-lo. A Europa tem todo o interesse em promover o crescimento económico da região, para evitar as vagas de pessoas que pretendem encontrar trabalho no Velho Continente.

Portugal foi parte do antigo 
Al Andalus, e o livro identifica alguns grupos extremistas. No entanto, descrevem a comunidade islâmica portuguesa como pacífica e bem integrada. Devemos 
sentir-nos seguros?

Não podemos adivinhar onde e quando acontecerá o próximo ataque jihadista. Argumentamos que o movimento inicial para a radicalização islâmica nada tem que ver com a religião. As raízes do processo de radicalização estão relacionadas com fatores socioeconómicos e até pessoais de cada indivíduo. Portugal não é como outros países europeus: tem apenas 1% de população islâmica e uma história de sucesso na integração dos muçulmanos na sociedade. Porém, nos últimos anos há uma mudança dos fatores de imigração que pode criar um terreno fértil ao extremismo islâmico. Vários cidadãos portugueses já se juntaram à Jihad na Síria e no Iraque, e a círculos jihadistas em lugares como Londres. Ninguém pode garantir que não haja um ataque em território português.