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"Tenho medo de que o volume de informação seja de tal maneira avassalador que conduza a uma apatia geral"

Entrevistas VISÃO

José Carlos Carvalho

Leia ou releia a entrevista de Manuel Lima, designer e especialista em Visualização de Informação, à VISÃO

Vive nos EUA desde 2003, mas o sotaque açoriano revela-lhe a origem: Manuel Lima nasceu há 39 anos em São Miguel. Trabalha na Google como designer, sendo uma das vozes mundiais na área da visualização de dados. A propósito dos seus livros, a revista Wired escreveu que transformava informação em arte. Tem muitas saudades de ver o céu estrelado: "Nem nos damos conta da poluição luminosa gerada por cidades como Nova Iorque."

Olha-se para o seu trabalho e pensa-se que o design não só atravessa todos os tempos como tem que ver com tudo. É assim?

Detesto estar dentro de uma caixa, de uma só disciplina do conhecimento humano. O que sempre me fascinou na visualização de dados é que, tal como o próprio design, está presente em tudo, em todas as disciplinas. The Book of Trees [2014] recolhe 800 anos de cultura visual e The Book of Circles [2017] abrange mil anos. Se vir a minha biblioteca, inclui livros de tudo e mais alguma coisa, de Biologia, de Arqueologia, de Ciência, de Filosofia... Gosto dessa pluralidade, costumo dizer que sou um designer que detesta livros de design.

O design não é, portanto, a disciplina das coisas bonitas e/ou funcionais?

Longe disso. Sempre fui um designer muito pragmático. Quando estava na universidade, em Lisboa, li uma citação do italiano Bruno Munari defendendo que, neste século, o designer terá de descer do seu pedestal de artista, dignando-se a projetar para as massas, para a generalidade da população. De um logótipo de uma empresa ao símbolo de um talho. Nunca achei interessante o design como moda, o design do ponto de vista artístico, como peça de museu.

O que é que, neste momento, está a fazer na Google?

Coordeno uma equipa de cerca de 30 pessoas. Gerimos todo o User Experience (UX) da Google Cloud, em Nova Iorque, o que corresponde a cerca de 18 produtos de big data, storage e monotorização. Trabalho com UX designers, UX investigadores e UX engenheiros.

A visualização de dados é acessível ao grande público, não é só para geeks?

Quando comecei, era um nicho de geeks e académicos. Hoje, ainda não está em todo o lado como o jornalismo ou outras áreas da comunicação, mas acho que está cada vez mais acessível para o grande público, as pessoas é que, muitas vezes, não se apercebem que têm diante de si certo tipo de trabalhos que já são considerados visualização de dados. Nos últimos 15 anos, abriram-se muitas portas e, agora, há uma enorme aposta na visualização de informação sobretudo por parte dos media. Quer o New York Times quer o Wall Street Journal, por exemplo, possuem equipas exclusivamente dedicadas ao design de informação.



E as empresas?

Também, as empresas começam a perceber que a visualização de dados pode ser uma ajuda para tornar visível o invisível. Trabalham, muitas vezes, com problemas relativamente complexos que só eles conhecem (ou desconhecem), e a visualização de dados é uma maneira de trazer à tona certos padrões.

Como começou a fazer a investigação para este seu último livro, The Book of Circles?

A ideia nasceu numa palestra que dei em Portugal, a propósito da observação de uma professora de Filosofia, Olga Pombo, que me questionou porque é que a maior parte das representações gráficas que eu mostrava era circular. Achei a pergunta muito interessante, mas não consegui dar-lhe uma resposta e, mais tarde, quando apresentei o meu primeiro livro [Visual Complexity, 2011] na Biblioteca Pública de Nova Iorque, uma pessoa da assistência disse-me que lera um estudo que associava os círculos à felicidade. Fiquei obcecado com o assunto.

À felicidade e à perfeição.

No fundo, todo o livro é uma tentativa de dar resposta a essa pergunta: qual a razão dessa nossa propensão para o círculo?

E de que todos somos fazedores e consumidores de imagens?

Isso é universal. Mas a imagem ainda é vista de um modo pejorativo.

"É bonita, mas é uma imagem, serve apenas para ilustrar o texto."

Esse tipo de pensamento não compreende que a imagem é utilizada como forma de comunicação muito antes de haver palavras. Durante milhares de anos, não havia texto, não havia um alfabeto que pudéssemos ensinar aos nossos filhos. A imagem e os símbolos eram o nosso modo de comunicar. E os círculos foram as primeiras maneiras que os seres humanos utilizaram para o fazer: os primeiros datam de cerca de 40 mil anos a.C., aparecem em várias gravuras rupestres, fazendo anéis concêntricos, espirais, um sem-número de outras formas. Temos uma propensão para a imagem porque ela está connosco há pelo menos 40 mil anos, enquanto o alfabeto tem apenas cerca de 6 mil anos. Uma das áreas que acho mais interessantes de estudar é a Alta Idade Média, todos os designers deviam estudar esse período.

Não é um buraco negro?

Não, é um buraco com muito mais luz do que se imagina. É curioso porque, nos séculos XII e XIII, a Europa foi, literalmente, inundada por um enorme volume de informação vinda da Roma e da Grécia Antiga. Fala--se em big data como se fosse uma coisa do nosso tempo, mas é preciso ter consciência que o movimento de então foi muito semelhante. Existem vários testemunhos dessa época que descrevem um volume avassalador de informação. Foi a primeira vez que os estudiosos, na altura ligados sobretudo à Igreja, idealizaram novas formas para dar sentido e fazer representar essa big data, criando muitos dos diagramas que usamos atualmente. A Alta Idade Média é a génese do design moderno porque foi aí que se definiram uma série de princípios de representação gráfica que, hoje em dia, ainda utilizamos.


Pode dar exemplos?

O princípio do chunking, que nos diz que é muito mais fácil processarmos conjuntos de informação. O cartão de crédito é um exemplo: temos segmentos de quatro algarismos separados porque é mais fácil memorizar quatro dígitos de uma vez do que uma sequência de 16 algarismos. Ou seja, existem princípios de memorização, inerentes à própria prática do grafismo, que provêm dessa época. E, tal como hoje, a Alta Idade Média foi também uma época de experimentação com novas metáforas visuais - as experiências são riquíssimas, podemos comprová-lo em vários manuscritos medievais.

Não é, portanto, verdade que estejamos a lidar, pela primeira vez na História da Humanidade, com uma quantidade avassaladora de dados?

Não, não é verdade. Temos é um desafio diferente: um volume de dados bastante elevado e uma tecnologia melhor para dar sentido a esses dados.


É possível apreender tamanha quantidade de dados?

Para um ser humano, é de facto impossível. Julgo que, se virmos bem, a nossa capacidade de gerar dados e de os armazenar excedeu, em larga medida, a nossa capacidade de lhes dar sentido. Esse é, de resto, o grande desafio: daqui a alguns anos, num simples computador portátil, teremos a mesma capacidade de possuir igual volume de dados da Biblioteca do Congresso ou da British Library. Imagine toda a riqueza do conhecimento humano no nosso telemóvel. É uma coisa incrível, um desejo irrealizável durante quase toda a nossa história, não tenho dúvidas de que chegaremos lá muito facilmente.

E é a visualização de dados que vai ajudar-nos?

Sim, é. Para mim, foi muito importante um gráfico que um professor me mostrou na Parsons School of Design, em Nova Iorque. Reflete o espetro do conhecimento humano: os dados transformam-se em informação, a informação transforma-se em conhecimento e o conhecimento transforma-se em sabedoria. O que sempre considerei mais interessante foi a transformação da informação em conhecimento. Esse é, julgo, o grande passo: a informação está acessível, mas, como é que nós, seres humanos, podemos transformá-la em conhecimento humano? Em algo prático que possa ajudar-nos no dia a dia?

Quer exemplificar?

Ainda há pouco falava com alguém sobre o projeto Tracing the Visitor's Eye, realizado em Barcelona. Usaram-se imagens do Flickr, retiraram-se a hora e a localização de cada imagem. Com estes dois dados, recriou-se o trajeto de inúmeras pessoas que se passeavam na cidade. Imagine a importância desta informação para a câmara municipal, rede de transportes e planeamento urbano. Posso dar-lhe mil e um exemplos, tem que me mandar parar [risos].

Continue, continue.

Existe outro exemplo, quase um estudo de caso, e que tem que ver com o ecossistema: há 15 anos, o bacalhau na Nova Escócia, no Canadá, estava quase a desaparecer. Houve uma ação imediata para matar a foca, que se julgava ser era o principal predador do bacalhau. Assistimos ao extermínio de imensos animais, até que um biólogo se decidiu a fazer uma visualização do ecossistema (um mapa lindíssimo, em rede, no qual se vê o número de espécies e de subespécies de que o bacalhau se alimenta) e descobriu-se que era uma subespécie que estava a conduzir ao desaparecimento do próprio bacalhau. Em suma, a visualização de informação permite eliminar certos tabus e certas maneiras de pensar simplistas.

Obriga-nos a ter mais literacia visual?

Há aquela frase que diz que "lemos melhor aquilo que lemos mais", mas as pessoas terão, de facto, de ter uma certa flexibilidade mental para se ajustar a novas metáforas.

Do ponto de vista da privacidade, que consequências pode ter essa quantidade de dados?

Sou um tecnocrata porque acredito que a tecnologia, desde que bem orientada, pode conduzir a coisas boas.

Isso não é um tecnocrata, é um otimista.

Sou um tecnocrata otimista. Por defeito, sou um otimista, vejo sempre o copo meio cheio em vez de o ver meio vazio. E sou também um humanista, na medida em que acredito no bem da Humanidade e na nossa capacidade de fazer coisas muito boas.


A visualização de dados pode conduzir a melhores democracias, na medida em que permite dispor de mais informação?

A visualização de dados traz mais transparência às democracias, desmistifica mitos e, à partida, é de esperar um maior conhecimento do público em geral sobre determinadas temáticas que anteriormente estariam escondidas até de modo intencional. Tudo isso produz efeitos no poder do cidadão comum. Na Idade Média, dizia-se muitas vezes que devíamos cingir essa informação à produção de livros sobre certos temas e a determinadas pessoas.

Tem medo que isso volte a acontecer?

Sim, tenho sempre receio em relação a esses modos de filtrar a informação, que deve estar acessível a todos. E também tenho medo de que o volume de informação seja de tal maneira avassalador que conduza a uma apatia geral: a de que as pessoas prefiram viver a sua vida à margem de tudo.

Isso já acontece?

Julgo que o maior paradoxo de sempre é vivermos nesta época que possui o maior volume de informação que alguma vez tivemos e, ao mesmo tempo, termos uma população tão carente de informação. Isso existe em várias zonas dos Estados Unidos da América. E eu posso estar sentado num café de Brooklyn a ver um manuscrito medieval de um museu alemão.

E também não é um paradoxo que seja muito mais fácil consultar a reprodução de uma gravura secular do que ter acesso a uma imagem de 2002?

Do ponto de vista digital, existe quase um laissez-faire: estamos a perder um sem-número de artefactos digitais. Muitos deles já desapareceram, não há sequer como reavê-los. Outro dos paradoxos é o facto de essa informação ser extremamente efémera. Houve imagens que não consegui reproduzir no livro porque foram retiradas do site, o plug-in deixou de existir ou a reprodução já não tinha qualidade suficiente.

É a nossa idade das trevas?

E corremos o risco de os nossos filhos olharem para trás e verem uma era digital negra, em que está muita coisa a acontecer, mas que, como não foi documentada, é como se não tivesse existido. Empresas privadas como o Facebook são detentoras de uma riqueza imensa do ponto de vista cultural, mas, a qualquer momento, podem abrir falência, fechar os servidores e nunca ninguém mais vai ter acesso a nada.

Seis círculos comentados por Manuel Lima

‘‘A cúpula da Basílica de Superga, emTurim, é umas das minhas justaposiçõesde círculos preferidas porque contrastareligião com ciência’’
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‘‘A cúpula da Basílica de Superga, emTurim, é umas das minhas justaposiçõesde círculos preferidas porque contrastareligião com ciência’’

Visions of Heaven, David Stephenson, 2005

‘‘Um pormenor da enorme estruturacircular do Grande Colisor de Hadrões,a maior experiência científica algumavez realizada’’
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‘‘Um pormenor da enorme estruturacircular do Grande Colisor de Hadrões,a maior experiência científica algumavez realizada’’

Compact Muon Solenoid, Maximilien Brice e Michael Hoch, 2008

‘‘Modelo geocêntrico: a Terra no centro doUniverso, rodeada pelos quatro elementose os 11 “céus” (onde podemos observarplanetas como Mercúrio, Vénus e Marte)’’
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‘‘Modelo geocêntrico: a Terra no centro doUniverso, rodeada pelos quatro elementose os 11 “céus” (onde podemos observarplanetas como Mercúrio, Vénus e Marte)’’

Figure of the Whole World, Thomas Blundeville, 1613

‘‘O número de anos que falta paravários recursos naturais acabarem:ecossistemas a amarelo, combustíveisfósseis a azul, minerais a vermelho’’
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‘‘O número de anos que falta paravários recursos naturais acabarem:ecossistemas a amarelo, combustíveisfósseis a azul, minerais a vermelho’’

Stock Check, IIB Studio, 2011

‘‘As 65 diferentes variedades de queijo,agrupadas pela sua textura (mole, meiomole, meio duro, duro) e pelo animalprodutor (vaca, ovelha, cabra, búfalo)’’
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‘‘As 65 diferentes variedades de queijo,agrupadas pela sua textura (mole, meiomole, meio duro, duro) e pelo animalprodutor (vaca, ovelha, cabra, búfalo)’’

The Charted Cheese Wheel, Pop Chart Lab, 2013

‘‘As cores predominantes no vestuárioapresentado na Semana da Moda deLondres, Milão, Paris e Nova Iorque,para o outono-inverno de 2015’’
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‘‘As cores predominantes no vestuárioapresentado na Semana da Moda deLondres, Milão, Paris e Nova Iorque,para o outono-inverno de 2015’’

Color Chart, EDITED, 2015