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"Nós, mulheres, somos um bocadinho desequilibradas, mais hormonais, vingamo-nos na comida. Os homens levam isto mais a sério"

Entrevistas VISÃO

Marcos Borga

Ágata Roquette, a nutricionista autora da Dieta dos 31 dias, em entrevista à VISÃO

Se hoje existe a figura do nutricionista-sensação isso deve-se a Ágata Roquette, 34 anos, pioneira em fazer passar a sua mensagem em diferentes media. Quando há seis anos lançou o primeiro livro a explicar A Dieta dos 31 Dias – com a qual ela própria perdeu 20 quilos em seis meses – nem imaginava onde iria parar. Seis publicações e 230 mil exemplares depois (lançou também um de receitas, outro das regras de ouro, e agora A Nova Dieta dos 31 Dias) trabalha de sol a sol, escapa-se do ginásio para poder estar com os dois filhos pequenos e ainda se considera uma ex-obesa. Aqui fica o resumo de uma entrevista que interrompeu a sande de pão escuro com sementes e queijo que normalmente lhe serve de lanche da manhã. Mas falou-se muito de comida, como não podia deixar de ser.

Já vendeu 230 mil exemplares de livros. Como consegue tocar as pessoas desta maneira?

Houve um primeiro impacto em termos televisivos e depois de ter contado a minha história. Como também já fui gordinha, as pessoas identificaram-se comigo e compraram o livro. A partir daí funcionou o passa--palavra, porque verificaram que se perdia realmente peso.

Há tantos livros de dietas, este há de ter algo que o distinga.

Como passei sete anos a tentar emagrecer e até tive doença bulímica, sei exatamente o que as pessoas com excesso de peso sentem. Quando escrevo “no terceiro dia vai ter vontade de desistir, mas no quarto já não será assim”, é mesmo isso que se vai passar.

E porque acha que os resultados acontecem?

O facto de a dieta não ser muito rigorosa, não ter horas fixas, nem quantidades muito limitadas, contemplar o pão da manhã e um dia da asneira – a coisa é possível sem se sofrer horrores.

Como é que criou esta dieta?

Quando acabei o curso de nutrição fui trabalhar para ervanárias e passei a prescrever a dieta que me passaram para a mão. Era um bocado ao contrário do que aprendi na faculdade: muita proteína e poucos hidratos. A verdade é que os resultados eram magníficos.

Nessa altura já tinha emagrecido?

Não, estava no auge dos meus 90 quilos.

O que fez com esses resultados?

Usando aquela base, contrariava-a um bocadinho. Por exemplo, essa dieta não contemplava pão e isso na minha cabeça não fazia sentido, porque sou uma amante desse alimento. Ao longo dos anos fui juntando as dicas que os pacientes me davam nas consultas até chegar à minha versão.

Quando é que decidiu experimentá-la em si?

Apesar de já a receitar há dois anos e de ver resultados, só quando o meu marido me pediu em casamento é que me deu um clique qualquer...

Como pode um pedido de casamento ter esse efeito?

Fiquei tão feliz que comecei a focar-
-me noutras coisas, como o vestido e a festa, e não só no excesso de peso. Foi mesmo um clique para a vida, porque estou com o mesmo peso há 10 anos e até já tive dois filhos pelo meio.

Nessa altura resolveu então aplicar o que prescrevia aos seus pacientes e também resultou em si?

Perdi 20 quilos em seis meses – e com algumas aldrabices pelo meio. 
O meu espírito era ótimo e sem grandes stresses: o que viesse até ao dia do casamento, era bom. Percebi aí que a nossa vida não pode ser a dieta, ela é que vai tentar enfiar-se no dia a dia de trabalho, de família, de amigos.

Já tinha tentado emagrecer de outras vezes?

Estava mais ou menos sempre em dieta, mas depois comia um quilo de bolachas à tarde e desistia. Fiz para aí cinco mais à séria, em que emagrecia dois ou três quilos, mas depois engordava o dobro, e uma lipoaspiração – foi o meu presente dos 18 anos.

Como é a sua rotina alimentar, 10 anos depois de ter emagrecido?

Continuo a gostar muito de comer, mas deixei completamente as bolachas, nem sei como pude ser tão viciada nelas. Ao fim de semana desleixo-me, não tanto para doces, que já não sou gulosa, mas para pão, broa, croquetes, batatas fritas, pataniscas de bacalhau e aquelas comidas que normalmente não se comem em casa. É aí que vejo como sou uma ex-obesa.

E não engorda?

Engordo sempre um quilo ou dois, mas lá para terça-feira já se foram – 
a trabalhar é muito mais fácil. Durante a semana, como estou sempre a atender pessoas, nem consigo petiscar. E não janto fora porque tenho filhos pequenos.

Então em casa segue A Dieta dos 31 Dias?

Não. Tenho cuidado para não comer porcarias, mas até janto com hidratos.

Tem muito feedback dos seus leitores?

Há gente com quem falo todos os dias. As pessoas que compraram os livros não estão sozinhas, porque a nutricionista que trabalha comigo responde diariamente às questões colocadas no Facebook.

Com os seus pacientes é uma espécie de descodificadora de rótulos portátil. Como é que isso funciona?

Têm o meu número pessoal e sempre que surge uma dúvida acerca de algum produto, mandam-me um WhatsApp com a fotografia do rótulo e eu respondo se devem comprá-lo ou não. Faço questão de estar sempre com eles.

O que mudou na sua vida desde 
que se tornou numa nutricionista-
-sensação?

Não me sinto uma sensação... A nível de consultas, já tinha muitas, mas só trabalhava no Estoril. Hoje também estou em Lisboa, as agendas estão sempre cheias, recebo muitos convites para fazer workshops em empresas.

Já não é uma profissão sazonal?

Não. O único mês mais fraquinho é dezembro, porque começam os jantares de Natal e deixam de querer saber de mim. Até marcam as consultas, mas depois faltam. Voltam em janeiro.

Se quisesse marcar hoje uma consulta consigo, quando conseguiria vaga?

Daqui a um mês, em Lisboa, e três semanas no consultório do Estoril. Houve uma altura em que descambou mesmo e as pessoas tinham de esperar três meses, o que era um exagero.

Também ajuda pessoas a engordar?

Sim, mas é um nicho. Curiosamente, tenho menos pessoas em toda a semana do que na empresa onde dou consultas à sexta – só pode ser dos nervos.

Como se engorda uma pessoa?


Mandando fazer tudo ao contrário, mas ainda assim de forma saudável: comer mais depois das seis da tarde, ingerir bastantes hidratos, não se furtar ao pão, mais frutos secos.

O que vem uma grávida fazer a um nutricionista?

Hoje em dia os médicos são muito chatos e ainda bem. Já não é como antigamente, quando se dizia que se podia comer por dois. Em alguns casos, vêm para perder peso, porque os seus ginecologistas lhes dizem que têm quilos a mais e precisam de orientação. A última consulta antes do parto, é a prescrição para quando estão a dar de mamar. Nessa altura, como se queimam muitas calorias, podem esticar-se mais um bocadinho. Mas como é uma fase muito animal, que dá muita fome, sede e sono, há que ter cuidado para não se engordar.

Um dos pontos que acrescentou neste novo livro é a questão do treino. O que prescreve a quem faz exercício?

Notei que nos últimos anos há muito mais gente preocupada com o ginásio. A maior parte dos meus pacientes tem, pelo menos, a intenção de ir (realmente, nota-se a diferença nos corpos de quem faz ou não faz exercício). Antes do treino, há que ingerir hidratos de carbono, uma fonte de energia ótima. A seguir devem ter atenção à ingestão proteica, para recuperação a nível muscular, e às vitaminas, para repor os sais minerais que se perderam. A alimentação antes e depois são fundamentais para obter os resultados de que estão à espera.

Aconselha a prática de exercício físico durante a dieta?

Nos primeiros quinze dias, como o consumo de hidratos é muito baixo, não aconselhava. Mais uma vez, apliquei a minha experiência nesse conselho, pois sempre que tentava começar uma dieta e ginásio ao mesmo tempo, fazia curto-circuito e nem me dedicava a uma coisa nem a outra. Prefiro que se foquem na dieta primeiro, e o desporto acaba por vir quando já estiverem mais habituados ao novo regime.

O que mudou tanto na nutrição que a motivou a uma atualização da dieta?

Todos os dias aparecem produtos novos. Há seis anos não estava familiarizada com eles, nem os usava em casa.

Pode dar exemplos?

Falo da quinoa e do bulgur, por exemplo, que hoje já é comum, e que introduzo ao almoço, ao final de um mês, junto com as leguminosas. Também acrescentei os frutos secos no início da dieta, com muita relutância por causa do seu índice calórico. Tem ajudado muita gente, por causa da crocância, mas também tem sido a causa de alguns insucessos, porque muitas pessoas não conseguem comer só três.

A fruta também está mais presente neste livro.

Decidi pô-la desde o princípio, por questões de saúde, sempre até às seis da tarde. Antes, era proibida nos primeiros quinze dias e fazia diferença porque se perdia mesmo o apetite por açúcar. Também introduzi o abacate.

Muitas vezes baralha-se o que é saudável com o que emagrece?

Acontece muito. Como por exemplo, o açaí ou a granola são opções saudáveis, mas são dulcíssimos e têm imensas calorias. Já o abacate, que também é calórico, incluí-o, às metades, nas horas certas e com os alimentos adequados.

E retirou alguma coisa?

Baixei muito o consumo da charcutaria. Usava o rolinho de fiambre ou de paio para snacks e as pessoas adoravam, mas decidi retirar isso por causa do aviso da OMS acerca dos seus conservantes e da característica potencialmente cancerígena. Já só está contemplada uma fatia de manhã, mas em alternância com outra coisa nova, a manteiga de amendoim.

Como é que a manteiga de amendoim, altamente calórica, entra numa dieta para emagrecer?

Acaba por ter as mesmas calorias que a manteiga ou o azeite e pressupõe-se que se use só um bocadinho, barrada no pão da manhã.

O dia livre, onde se pode furar a dieta semanalmente, é o seu grande trunfo?

Especialmente para mulheres, porque nós somos um bocadinho desequilibradas, mais hormonais, e vingamo-nos na comida. Quando os homens vêm às minhas consultas levam isto muito a sério e, muitas vezes, até saltam o dia livre. Nós, mulheres, só fazemos esta dieta porque existe um dia livre. Não é para enfardar de manhã à noite, mas para comer o que nos dá prazer. Pode ser um croissant de manhã, em vez do pão, mas não deve ser um croissant, um bolo e uma merenda.

Diz no seu livro que as mulheres depois dos 40 são um problema. Porquê?

É uma altura de grandes alterações hormonais, do metabolismo, de massa gorda, de perda de massa muscular, o corpo transforma-se. E torna-se mais difícil emagrecer, de facto. No entanto, quem não perde o foco, chega lá na mesma. Nesta altura, é mesmo importante fazer desporto, pois nota--se bem a diferença.

O aumento de peso é sempre uma compensação?

Nem sempre. Muitas vezes tem a ver com algum desequilíbrio emocional, sim, outras com pessoas que deixaram de fumar ou de fazer desporto (foi o que me aconteceu a mim, que engordei 32 quilos).

Acha impossível que uma pessoa gorda seja feliz?

Eu não era, mas fui magra até deixar a patinagem artística. Pesava 58 quilos e tinha um corpo espetacular. Mas, realmente, a vida não é só o peso nem temos de viver obcecados por isso.

(Entrevista publicada na VISÃO 1290 de 23 de novembro)