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"É urgente reduzir o mal que fumar faz e autorizar os fumadores a terem acesso a esses novos produtos"

Entrevistas VISÃO

António Pedro Ferreira

Em entrevista à VISÃO, Moira Gilchrist, vice-presidente para produtos de risco reduzido da Phillip Morris Moira Gilchrist fala sobre a grande aposta no tabaco aquecido, uma "alternativa para quem não quer deixar de fumar"

Não há indústria que nos últimos anos tenha sido tão atacada na base do seu negócio, agora que o mundo inteiro concorda que as tabaqueiras vendem um produto prejudicial à saúde. Num golpe de face, a mesma indústria quer agora passar a mensagem de que os cigarros como os conhecemos têm os dias contados, mas que acabar com o fumo não é acabar com o tabaco e por isso está a apostar todas as suas fichas no tabaco aquecido. Apresentada como um produto de risco reduzido, provocando alegadamente 90% menos danos do que o tradicional, a chamada "experiência inovadora com tabaco" foi lançada em alguns países no final de 2015. Começou por fazer furor no Japão, e em Portugal tem, números da Phillip Morris, cerca de 45 mil consumidores. O grande objetivo, assume a gigante do tabaco, é chegar à América aguardando-se agora a resposta ao pedido para a sua comercialização, entregue na FDA, agência americana para a alimentação e medicamentos. Ainda assim não há consenso à vista: a Direção-Geral de Saúde já alertou para a falta de estudos independentes e como, nesta fase, o seu consumo pode ser enganador.

A palavra a Moira Gilchrist, investigadora escocesa entretanto contratada por aquela multinacional, que esteve em Lisboa a dar explicações à Comissão Parlamentar de Saúde, no momento em que se discutia a revisão da Lei do Tabaco. A nova legislação, que entrará em vigor em 2018, não fará diferenciação entre o tabaco normal, os cigarros eletrónicos e este produto mas permitirá que, em casos específicos, possa ser usado como estratégia de redução de danos.

Pode parecer um pequeno passo para o legislador, mas para a Phillip Morris é um primeiro avanço a caminho de toda uma outra estratégia de negócio.

A Phillip Morris já assumiu que o produto que vende não é seguro para o consumidor e que o melhor é não fumar mas agora também diz que o futuro é do tabaco aquecido. Não há aqui uma contradição?

Andamos a trabalhar neste projeto há mais de uma década, definindo a melhor forma de o desenvolver e a maneira de o fazer de acordo com a melhor ciência. Pessoas como eu foram então contratadas na indústria farmacêutica para ajudar a conceber um tabaco de risco reduzido. Para mim, tornou-se a forma de fazer parte de um projeto que pode de facto ter impacto na saúde das pessoas.

Queria fazer parte da solução.

Sim, e ajudar os fumadores. Se olharmos para esta questão do ponto de vista da saúde pública, as doenças associadas ao consumo de tabaco são um assunto muito importante para a maioria dos países. Quem trabalha na indústria farmacêutica tem a hipótese de curar doenças.

Para mim, era a oportunidade de as evitar, ao providenciar um produto que possa ser alternativa e mantenha os seus consumidores longe do fumo provocado pelos cigarros, já que hoje sabemos que os riscos são provocados pela combustão. Para nós, isso é muito claro: fumar provoca dependência e provoca uma série de doenças graves que podem levar à morte. Agora, acreditamos que temos um produto que pode ser de facto uma alternativa para os fumadores.

É também uma forma de salvar o negócio...

Claro, e como há muitos países, Portugal incluído, que produzem tabaco, decidimos contactá-los para trabalharmos em conjunto neste momento que consideramos de transição para a indústria. Vamos continuar a precisar de tabaco, mas terá de ser produzido em condições muito específicas, para podermos saber exatamente o que estamos a vender e podermos garantir que, ao ser aquecido, não liberta nada mais do que vapor.

Nos maços que estão à venda, o tabaco aquecido começou por não ter imagens chocantes de pessoas a morrer nem frases a alertar que mata. Ser tratado como um produto diferenciado do convencional é um objetivo?

A última diretiva comunitária, que regulamenta o assunto, já reconhece que se tratam de novos derivados de tabaco, de uma nova categoria. Vendemos tabaco que é apenas aquecido e não precisa de combustão. Estamos muito confiantes e a fazer tudo para que que os organismos nacionais de saúde olhem para a informação que produzimos e possam tirar daí as suas conclusões.

Foi por estarmos convictos do risco reduzido do produto que estamos a oferecer que já apresentámos o pedido de comercialização à FDA. Se eles concordarem com as conclusões a que chegámos, seremos autorizados a comunicar estas informações sobre o nosso tabaco de risco reduzido. Agradecemos o seu escrutínio o mais possível e outra qualquer revisão independente.

Mas será que não correm o risco de se repetir o que aconteceu com os cigarros eletrónicos? Apareceram como adjuvantes para quem queria deixar de fumar e entretanto foram equiparados.

Estamos aqui a falar de diferenciação versus cigarros tradicionais. As legislações do tabaco têm como base o mal que fazem, daí não estarmos autorizados a fazer publicidade.

Mas se estivermos a falar de tabaco aquecido, se ficar provado pela ciência que faz muito, mas muito menos mal, a nossa opinião é que deve ser tratado de forma diferente pela lei. Isso significa novas oportunidades para explicar ao consumidor do que se trata, de como usar o produto de forma conveniente, ajudá-lo a deixar o tabaco convencional e a mudar para algo que faz muito menos mal.

Esta aposta também quer dizer que o fumador tem direito a fumar algo que lhe faça menos mal à saúde?

Há aqui uma reflexão muito realística que é preciso fazer. Apostar na prevenção e evitar que as pessoas comecem a fumar é muito importante.

Encorajá-las a deixar o tabaco é igualmente fundamental. Mas, apesar de todos esses esforços, que mesmo assim reduziram o consumo por todo o mundo, a própria Organização Mundial de Saúde estima que ainda haverá mil milhões de fumadores, daqui a uma década. Aqui em Portugal, a estimativa é de 20 por cento da população, o que dá perto de dois milhões de habitantes. Reconhecendo esses factos, acreditamos que há uma estratégia que pode ser bem sucedida, para reduzir o mal que fumar faz: passa por autorizar os fumadores a terem acesso a produtos que potencialmente fazem menos mal.

É claro que têm de ser certificados pela ciência e por investigação de qualidade. E têm de ser aceites pelos fumadores, para que estes aceitem fazer a mudança.

É uma estratégia de redução de danos muito semelhante, por exemplo, à usada pela política das drogas para justificar a instalação de salas de consumo assistido para os consumidores que não querem deixar de se drogar...

Diria que há muitas outras analogias que é possível fazer. A que gosto mais de usar é a da indústria automóvel.

Conduzir, nos anos 1950 e 1960, até nos 1970, era extremamente perigoso e registavam-se demasiadas mortes devido aos acidentes automóveis. Mas, gradualmente, a própria indústria incorporou inovação que permitiu reduzir os acidentes e o seu grau de gravidade. Sistemas de travagem com tração, airbags ou até os cintos de segurança foram novidades desejadas pela própria indústria para melhorar o seu produto. Diria que é um exemplo mais relevante porque envolve e responsabiliza o próprio fabricante.

Como é que chegaram à solução do tabaco aquecido?

Ainda não me tinha juntado a este projeto e já os cientistas de todo o mundo indagavam o que fazia exatamente cada componente do tabaco, para perceber o mecanismo que provocava doenças. Foi quando concluímos que o problema não está no tabaco em si mas no facto de o acendermos. Ou seja, é na combustão que tudo se passa.

São as altas temperaturas numa variação que vai dos 600 aos 900 graus centígrados que provocam a formação de fumo com substâncias que são tóxicas ao nosso organismo.

Assim, ao pensarmos num tabaco que é apenas aquecido, e cuja temperatura não vai além dos 300 graus, é possível pensar que estamos perante um produto de risco potencialmente reduzido. Decidimos então que era imprescindível eliminar a combustão.

Avaliámos diferentes temperaturas e o que concluímos foi que algo abaixo dos 400 graus permitia oferecer tabaco muito mais seguro. Os nossos estudos dizem que a redução do risco está na ordem dos 90 por cento.

Os vossos estudos dizem também que os biomarcadores do risco de um consumidor de tabaco aquecido estão nos mesmos níveis de um ex-fumador. Quer explicar melhor?

São dados de facto muito importantes. A mais recente investigação (e já concluímos oito estudos sobre os efeitos deste tabaco aquecido no ser humano) diz que esses valores ficam muito aproximados.

Concorda também que parece ser uma forma de ganhar a confiança dos consumidor de volta afinal, durante anos a indústria do tabaco recusou que pudesse ser a causa para o desenvolvimento de doenças... Como é que podemos confiar em vocês agora?

Compreendemos perfeitamente o ceticismo em relação aos nosso dados mas os motivos são os mais nobres que poderíamos apresentar. Não estamos a pedir para confiarem em nós, mas para avaliarem os nossos estudos sem ideias preconcebidas e que façam mais testes ao nosso produto. Estamos muito confiantes nas evidências a que já chegámos e disponíveis para nos sujeitarmos ao escrutínio de outros.

Mas são estudos ainda preliminares, ou não?

Acreditamos que este produto tem potencialidade de reduzir riscos e foi por isso que o submetemos à FDA, em dezembro passado. Aquele organismo tem agora dois anos para se pronunciar, embora possa demorar mais. Nós somos pacientes.
Nós esperamos. Os primeiros testes começaram em 2012, o mais completo demorou três meses, o que é um tempo bastante considerável.

Algum estudo independente já corroborou os vossos resultados?

Estes estudos foram financiados por nós mas conduzidos por cientistas independentes. Estamos a trabalhar com a nata da investigação farmacêutica, segundo as regras internacionalmente aceites para fazer ciência. Não sabemos se haverá outros estudos a decorrer, afinal o produto já está no mercado, mas de qualquer forma incentivamos o mais possível que isso aconteça.

Há quem alegue que, como o tabaco aquecido não produz fumo, pode ser consumido dentro de portas sem risco. Assume isso, mesmo no caso de haver crianças ou grávidas por perto?

Recomendamos sempre que os consumidores do tabaco aquecido respeitem uma série de regras e uma delas é que as crianças nunca devem ser sujeitas ao fumo ou ao vapor do nosso produto. E isso também é válido para as mulheres grávidas. No entanto, posso adiantar que, num outro estudo conduzido por nós, que avalia a presença dos 18 diferentes marcadores químicos existentes no tabaco, 16 não foram registados em grande quantidade quando aquecido numa sala fechada. E os outros dois estavam de qualquer forma muito mais abaixo do que determina a legislação europeia. Sabemos que provoca dependência e comporta algum risco: acelera o batimento cardíaco, pode fazer aumentar a pressão arterial... Mas para um fumador regular isso não deverá constituir qualquer alteração. Quero de qualquer forma sublinhar que isto é um produto para fumadores e não para quem nunca fumou nem para quem quer deixar o tabaco porque abandonar o seu consumo é de facto o melhor que cada um pode fazer para reduzir o risco de adoecer. Isto é um produto para quem não quer deixar de fumar, é uma alternativa.