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"Os sistemas atuais não têm capacidades para serem considerados mentes digitais"

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O presidente do Instituto Superior Técnico, Arlindo Oliveira, autor do livro Mentes Digitais

No seu livro Mentes Digitais, Arlindo Oliveira, presidente do Instituto Superior Técnico, apresenta de forma clara o mundo da Inteligência Artificial. Para que ninguém perca o comboio

Sara Sá

Sara Sá

Jornalista

Depois de editado em inglês, pela MIT Press, o livro Mentes Digitais, do Presidente do Instituto Superior Técnico, Arlindo Oliveira, tem agora edição em português, pela IST Press. Numa escrita clara e de fácil leitura o especialista apresenta-nos o mundo da Inteligência Artificial.

Diz que um dia, não longínquo, teremos máquinas inteligentes. O que distinguirá estas máquinas daquelas que apresentam a já dita Inteligência Artificial?

A dita inteligência artificial do presente não são realmente máquinas inteligentes. São sistemas que resolvem problemas muito concretos, entre os quais reconhecimento de imagens, processamento de linguagem natural, análise de bases de dados, condução autónoma ou inferência de regularidades em séries temporais. À medida que as máquinas começarem a exibir diversas destas capacidades de uma forma integrada, além de outras que venham a ser criadas, começaremos a vê-las como dotadas de alguma inteligência, talvez como agora vemos os animais. Esses desenvolvimentos continuarão até que, um dia, as veremos como nossos pares.

A ficção e até alguns cientistas/filósofos prevêem um futuro ameaçador, em que a máquina domina o homem, num cenário negro. Qual é a sua visão?

Essa possibilidade existe sempre, mas não será, penso eu, porque as máquinas nos queiram fazer mal. Mesmo que sejam mais inteligentes que nós, não terão, com certeza, a motivação para dominar o mundo, como acontece nos filmes de ficção científica. Agora, poderá acontecer que sejam programadas para resolver determinados problemas e que, no seu esforço para resolver esses problemas, tomem ações que não estão alinhadas com os interesses da humanidade. Este problema do alinhamento de interesses é uma questão importante e há muita gente a trabalhar nisso.

Em que áreas será mais determinante a existência destas Mentes Digitais?

Penso que terão impacto em quase todas as áreas. A condução autónoma tem sido muito falada, mas sistemas inteligentes poderão com certeza substituir humanos em muitas actividades: call centers, edição e criação de textos, produção industrial, seleção de notícias, assistentes pessoais, condutores, actores, advogados, professores, jornalistas e até médicos. Será um processo progressivo mas mais ou menos inevitável, dado que as máquinas serão sempre mais baratas de operar do que os humanos com capacidades técnicas equivalentes.

Está preocupado por o cidadão comum não estar consciente da revolução que se aproxima. E por isso escreveu o livro. Que riscos estão associados a este desconhecimento?

Estamos a discutir tecnologias que vão mudar muito a sociedade, nas próximas décadas. Penso que é útil a sociedade discutir o potencial da tecnologia, as disrupções que irá causar, as consequências no nosso modo de vida. Algumas pessoas pensam mesmo que existem riscos existenciais para a espécie humana. Todas estas questões merecem discussão, certamente muito mais do que a maioria dos assuntos que nos tem ocupado ultimamente, muitos dos quais são triviais e até ridículos. Nem todos, felizmente.

Haverá sociedades mais sintonizadas do que outras. Como estamos em Portugal?

Penso que estamos bem posicionados para tomarmos as opções correctas. Portugal é neste momento um país tecnologicamente desenvolvido, com bons profissionais da área, e significativo dinamismo. Já a população em geral deveria estar mais informada, e ser mais educada nestes temas, algo que tenho defendido publicamente. As iniciativas existentes, entre as quais a InCoDe.203 são meritórias, e têm como objectivo melhorar o posicionamento do país face às novas tecnologias.

Na Arábia Saudita, o robô Sophie, que vimos no Web Summit, recebeu a cidadania. É este o caminho? Haverá identidade de máquina e identidade de humano ou será tudo igual?

No seu estado actual, trata-se mais de uma iniciativa mediática do que de um avanço real. Os sistemas existentes não têm nem a autonomia nem as capacidades para merecerem serem considerados mentes digitais, muito menos cidadãos. A exibição de um robô que pode mostrar emoções faciais, e falar, de uma forma essencialmente pré-programada e mecânica, não deve ser vista como um evento muito relevante em si mesmo. Mas trata-se de mais uma tecnologia que, quando integrada com outras, virá a ter significativo impacto.

Qual o interesse deste tipo de robôs, de entretenimento?

Todas as novas tecnologias são usadas muito rapidamente em atividades de entretenimento, muitas vezes de cariz sexual. Por exemplo, a prensa de tipos móveis de Gutenberg foi imediatamente aplicada à produção de textos eróticos. Outras tecnologias seguiram o mesmo padrão. É expectável que tecnologias robóticas venham a ser usadas para esses fins, tanto mais que já existem numerosas empresas a atuar nessa área. Porém, essa será uma dimensão relativamente reduzida do impacto que estas tecnologias na sociedade do futuro.