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"Sabe porque é que fiz as comédias? Para pagar as dívidas da crise"

Entrevistas VISÃO

José Caria

O realizador do filme português mais visto de sempre (o remake de Pátio das Cantigas) conta como domina os segredos de um negócio – o do cinema – que também é uma arte. Venha conhecer a máquina de Leonel

Ainda não será com este filme (Alguém Como Eu, que estreia esta quinta-feira, 12, nas salas portuguesas) que Leonel Vieira chegará a um milhão de espectadores. Mas, aos 48 anos, o realizador, produtor e empresário não põe a meta de parte. Se um dia alcançar esse número mítico, terá cumprido uma missão: a de reconciliar o público português com o cinema nacional.
Foi, em parte, para atingir esse objetivo que o realizador de Zona J e de A Selva criou e dirige, há mais de uma década, a Stopline, uma máquina de produção que fatura milhões com cinema, séries de televisão e publicidade. Nem sempre por esta ordem. Nos anos da crise, esteve quase a fechar portas. Mas as três comédias que Leonel Vieira recuperou do baú da história do cinema português – O Pátio das Cantigas, O Leão da Estrela e A Canção de Lisboa – garantiram a sobrevivência da empresa.

“Endividámo-nos até à ponta dos cabelos que não tenho [risos]. Sabe porque é que fiz as comédias? Para pagar as dívidas da crise. Tive que inventar rapidamente um projeto lucrativo. Senão, a Stopline tinha fechado”, afirma.

A sua versão de O Pátio das Cantigas, embora arrasada pela crítica, foi o filme português mais visto de sempre, com 610 mil espectadores. Um marco na história do cinema nacional que o realizador exibe com indisfarçável orgulho: “Só quando mexemos com as coisas é que começam a olhar para nós. Isto [aponta para o cartaz do seu maior êxito afixado na parede do gabinete] abriu-me muitas portas”.

Pragmático, Leonel Vieira debita ideias arrumadas e encaixadas a uma velocidade de muitos frames por segundo, numa conversa que teve como pretexto a coprodução luso-brasileira Alguém Como Eu. “No cinema, só quem tem muito poder financeiro é que faz o que quer”, atira. “Quando fiz A Sombra dos Abutres, o meu primeiro filme, aos 25 anos, percebi que fazer um filme era um calvário. Tudo passa por cinco filtros, cinco vontades, cinco decisões… Não era aquilo que eu queria fazer”.

Nesse momento, o realizador decidiu o que queria da sua carreira. “Para fazer os filmes que quero, tenho de ter liberdade, e para ter liberdade tenho que ter dinheiro.” Começou a fazer cinema comercial e abriu uma produtora. Bateu recordes de bilheteira. Perdeu o respeito dos críticos, mas ganhou acesso a fontes de financiamento que lhe permitirão fazer os filmes de que gosta já a partir do próximo ano. Os seus filmes pessoais, já que Leonel Vieira não gosta de falar de cinema de autor: “Todos os realizadores são autores. Isso é uma falácia.”

Dentro da Stopline, a máquina de fazer cinema que Leonel Vieira fundou em 2004, e que conta já com mais de três dezenas de filmes e séries de TV no currículo, convivem duas filosofias diferentes. “Uma é a da empresa, outra é a minha. Como realizador, percebi as dificuldades de filmar neste País. Os realizadores sofrem e não têm vida. Não filmam, sofrem e têm uma vida dificílima. Não quero isso. Quero uma vida decente, para mim e para a minha filha. Porque prezo a vida, a família e os amigos mais do que o cinema”.

Partilhar o risco

Só havia uma coisa a fazer. Cortar com a subsidiodependência. Nem teve alternativa. Como produtor, os projetos com que se candidatou ao financiamento do Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA) foram rejeitados. Já como realizador, sempre que apresentou um projeto, foi aceite pelo júri. “Para as comédias não pedi subsídio, já sabia que não iam dar”. De seguida, a conversa transformou-se num rosário de críticas à política de cinema e audiovisual.

É debaixo do chapéu de produtor que Leonel Vieira assume que faz o que precisa de ser feito para que os seus filmes estejam totalmente pagos no dia da estreia. “Quando trabalhamos para o entretenimento, trabalhamos para um gosto generalizado e identificado. Esses filmes estão sempre protegidos. Mesmo quando não são tão bons, funcionam, já estão pagos. Consigo vender uma comédia, mas não consigo vender um filme de que gosto com a mesma facilidade, porque é um risco”, admite.

Sem apoios, negoceia com as marcas, faz acordos de product placement [inserção de produtos nos filmes para fins publicitários], procura parceiros de coprodução lá fora, preferencialmente em Espanha e no Brasil. Arranja o dinheiro partilhando o risco. “Quando vendo uma parte de um filme, cada um encarrega-se dessa parte do investimento”, explica.

“Como realizador e como produtor, tenho hoje a relação necessária com o mundo do financiamento para aquilo que quero fazer no mercado nacional e internacional. Não vou deixar de produzir comédias, mas vou fazer filmes que terão outra linha já a partir do próximo ano”, avança. Na carteira dos filmes que quer realizar, tem muitas ideias. “Comprei os direitos de uma das maiores obras da literatura contemporânea para fazer um dos meus próximos filmes. Sonhei 15 anos com ele. Passa-se na ex-Jugoslávia de Tito. Está guardado para ser feito.”

Antes, quer fazer um outro filme, “mais difícil em termos de público”. Chama-se O Último Animal. “Não sei qual vai ser a receção, mas eu gosto tanto dele, acredito tanto nele que vou fazê-lo. Mas só o consegui financiar graças à posição que tenho no mercado. A minha carreira mudou a partir do fenómeno de bilheteira que foi O Pátio das Cantigas”.

Como se paga um filme

Façamos contas. De acordo com o realizador, a comédia Alguém Como Eu custou 1,7 milhões de euros – o dobro do normal no cinema em Portugal. Há uns anos, “as três comédias custaram entre 800 mil e 1 milhão de euros cada mas recorremos a mais fontes de financiamento”, diz. A Stopline tinha como sócio o fundo de investimento Change Partners, que adiantava parte do dinheiro. Agora, Leonel Vieira tem 100% da Stopline mas está à procura de novos sócios fora do País. “Tenho uma empresa no Brasil e parceiros muito fortes em Espanha”.

Para este filme, a Stopline fez um contrato de coprodução com a conhecida produtora brasileira Gullane. Cada parte garantiu metade do financiamento. “Fui buscar a minha parte onde vou sempre: marcas, distribuidores e televisões”, no caso a RTP, já que a SIC e a TVI direcionam todos os recursos para o ICA, um modelo de que Vieira se mostra muito crítico.

Como um blockbuster que se preze tem de ter um grande lançamento, chegando pelo menos a 10% das salas de cinema, Leonel Vieira não costuma poupar no número de cópias em exibição. Portugal tem cerca de 400 salas, o Brasil tem 2500. “Com este filme, ultrapassámos as 40 salas e andámos nas 50 a 55 cópias”. O Pátio das Cantigas estreou com 65 cópias mas chegou a ultrapassar as 80 – um número, diz, ao nível das fitas do 007.

E o público? “Em Portugal, um êxito faz-se a partir dos 50 mil espectadores, mas com esse número não faço dinheiro, o distribuidor perde algum, e eu andei aqui a aquecer”, lamenta o realizador, explicando que, para obter retorno do investimento, é preciso conquistar mais de 100 mil espectadores. Para passar essa barreira, é preciso apostar numa campanha de promoção muito forte, capaz de atrair o público logo no primeiro fim de semana de exibição. Insistindo na ideia de que “o filme deve estar pago quando está concluído”, adianta que “o negócio está na comercialização; o primeiro euro de retorno só entra depois da campanha estar paga, é o modelo que toda a gente segue no mundo.”

Leonel Vieira não arrisca números e não revela a previsão para a receita de bilheteira da nova comédia, mas conta com ela para equilibrar as contas no final do ano. A Stopline já faturou cerca de 
5 milhões de euros por ano, um valor que, com a crise, terá caído para cerca de 3 milhões. “Estamos em recuperação mas confesso que este ano, apesar das séries [Filha da Lei e País Irmão, produzidas para a RTP], não sei se chegamos lá... Em Portugal, as produtoras são muito segmentadas. Há produtoras muito fortes na publicidade, outras na televisão e outras no cinema. Eu quis ser forte em tudo, mas manter uma produtora forte nas três áreas consome muita energia, muita dedicação”. “Descuidei a publicidade”, admite.

Mas a crise já é passado e o negócio muda todos os dias com a massificação da internet. O que é que a Stopline vai ser dentro de dez anos? “Uma produtora forte de séries de TV fora do País. Queremos fazer mais cinema em língua inglesa e produzir mais cinema no Brasil, consolidando uma estratégia de anos. Queremos crescer e servir de elo de ligação entre Portugal, Espanha e o Brasil para as séries de TV. E queremos começar uma relação de produção cinematográfica com a Ásia, através de Macau e Taiwan.” Ainda sobre esta ambição, acrescenta: “Mas não tenho que andar com um megafone a dizer o que ando a fazer. Eu mostro o que vou fazendo.”

(Artigo publicado na VISÃO 1284, e 12 de outubro de 2017)