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"Não faz sentido o Estado tomar conta do SIRESP. Há soluções mais eficazes e mais baratas"

Entrevistas VISÃO

Lucília Monteiro

O engenheiro florestal Paulo Fernandes, um dos maiores especialistas nacionais nesta área e um dos peritos que integrou a Comissão Técnica Independente (CTI) do incêndio de Pedrógão Grande, em entrevista à VISÃO

As medidas contra fogos anunciadas pelo Governo não passam no exame do professor universitário Paulo Fernandes, um dos maiores especialistas nacionais nesta área e um dos peritos que integrou a Comissão Técnica Independente (CTI) do incêndio de Pedrógão Grande. Mais uma vez, diz, aposta-se muito no combate e pouco na prevenção. Isto para não falar do investimento no SIRESP: para quê assumir 54% de um sistema “obsoleto”? Numa coisa o Governo acertou: ter escolhido o engenheiro florestal Tiago Martins Oliveira para liderar a Estrutura de Missão para o Sistema de Gestão Integrada de Fogos Rurais. É um homem “profundamente dedicado à causa pública” e “talvez a escolha ideal”, acrescentaria à VISÃO, um dia depois da entrevista, quando se conheceu a nomeação. Mas há muito a fazer na floresta, e nem tudo passa pelo Governo: há responsabilidades de quem insiste nas queimadas ilegais e de quem não limpa os terrenos por baixo das linhas elétricas. E quem propaga teorias da conspiração, falando de terrorismo, não ajuda a resolver o problema.

António Costa disse que o relatório da CTI lhe deu um diagnóstico sobre o que deve ser feito para resolver o problema dos incêndios. As medidas apresentadas são suficientes?

Há um conjunto de anúncios ou de intenções que são muito de reforço de meios. Mais sapadores florestais, vigilantes da natureza, meios aéreos. É um bocadinho continuar a trabalhar da mesma forma, mas com mais meios. Não espero ganhos.

O relatório ia muito além do combate e das medidas apresentadas. O que ficou de fora?

As questões mais estruturais, no que respeita ao Sistema Nacional de Defesa da Floresta contra Incêndios, ao qual falta coesão. Temos os três pilares, GNR, Autoridade Nacional de Proteção Civil e Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), que tratam de três complementos do problema. Pelos vistos vamos ter uma quarta: o Exército vai aparecer com mais força. Mas não há integração destes pilares.

O relatório da CTI foi efetivamente a base de trabalho do Governo?

Tanto quanto percebi, algumas das cerca de 30 medidas foram bem acolhidas, como as que têm a ver com a formação. Mas falta algo mais de fundo, que dê coerência a isto tudo. Que não mostre só mais meios e mais investimento.

O que ficou de fora?

Pôr o sistema de combate a funcionar, com mais ligação entre os agentes, melhor coordenação, mais conhecimento técnico.

E do lado da gestão florestal?

Seria fundamental haver mecanismos de incentivo económico que permitam gerar economia nos espaços florestais.

Subsidiar práticas que ajudem a floresta a gerir-se por si mesma?

Não sei se lhe chamaria “subsidiar”. Fala-se muito de serviços de ecossistemas, que as pessoas do campo prestam através da gestão do território e de que toda a sociedade beneficia.

Por exemplo?

Quem tenha um bom rebanho de cabras está a prestar um serviço de redução de risco de incêndio.

É um serviço que devia ser reconhecido e pago pela sociedade?

Sim. Em vez disso, vemos muitos recursos desviados ou alocados a subsidiar o leite. Devia mudar-se o foco. Não chega, porque os campos estão vazios de pessoas. Mas seria um estímulo para gente mais nova sair da cidade e repovoar o interior.

O papel reforçado do Exército é uma boa medida para combater os incêndios?

O Exército não está muito interessado em entrar. Não têm pessoas preparadas, nem meios, e vão precisar de mais orçamento. É um custo extra para o Estado. Mas as medidas em geral são positivas. Só não percebi a do SIRESP. Não faz sentido o Estado tomar conta de um sistema considerado obsoleto.

É um desperdício de dinheiro e de tempo?

Sim. Há soluções mais eficazes e mais baratas, tirando partido das redes móveis.

A profissionalização dos bombeiros é importante?

De certa forma já existe. As corporações de bombeiros voluntários têm o seu quadro de pessoal, ainda que possa ser pequeno. Mais do que a profissionalização, é importante dispor de uma força mais abundante de bombeiros com formação específica para o combate a incêndios florestais propriamente ditos, e não para a defesa de casas e de povoações.

Essa é outra coisa referida pela CTI: a distinção entre o combate e a proteção das populações. Essa mistura criticada pelos peritos mantém-se?

Mantém-se, embora numa das medidas se fale nisso, na progressiva especialização dirigida para as interfaces humanas ou para a floresta. O que acontece hoje é que o fogo fica sem ninguém a combatê-lo, porque os bombeiros estão concentrados a defender pessoas. E fazem muito bem, obviamente, mas isto tem um efeito perverso: o dinheiro gasto em prevenção é desaproveitado quando não combatemos um fogo florestal onde ele pode ser combatido com eficácia.

Ou seja, quem prepara o terreno ao longo do ano devia ser quem o combate, porque sabe quais foram as medidas tomadas?

Sim. É a tal integração entre prevenção e combate. A situação ideal seria ter uma estrutura integrada de operacionais que fazem umas coisas numa parte do ano e outras coisas na outra parte. Prevenção e combate, consoante as circunstâncias.

Isso ainda não está previsto agora?

Não. Mesmo nós não fizemos essa proposta, porque foi feita em 2006, na sequência do Plano Nacional de Defesa da Floresta contra Incêndios, e recusaram-na. Agora, fomos pragmáticos. Se foi recusada na altura, ia ser recusada de novo. Limitámo-nos a pedir algo mais modesto.

Essa proposta foi recusada pelo governo da altura?

Sim, com o argumento de que era muito cara. Realmente custava algum dinheiro, mas não tanto. Especialmente sabendo o que aconteceu agora, e isto sem falar nas vidas humanas. Em 2003, a perda de bens associada aos fogos florestais quase chegou aos mil milhões de euros. Este ano é muitíssimo superior.

Com mais de 500 mil hectares ardidos este ano, é natural que nos próximos anos não tenhamos nova tragédia. Teme que os governos, a proteção civil e os bombeiros atribuam essa bonança ao sucesso destas medidas e que baixem a guarda? E que haja novo desastre daqui a 15 anos?

Já aconteceu... E os governos não resistem a reclamar os louros. Quando temos anos meteorológicos favoráveis, é comum os governos e as instituições atribuírem os resultados ao seu trabalho. Quando é ao contrário, atribuem a desgraça à meteorologia.

Este ano, voltou a falar-se de interesses ocultos por trás dos fogos. Houve alguma coisa nestes incêndios de diferente em relação aos outros anos, quando os fogos são causados por queimadas, por acidentes, por vinganças mesquinhas, por pessoas com problemas de alcoolismo?

Diria que não. Tenho acompanhado as estatísticas das causas deste ano e mantém-se a tendência do passado. Em 2017, a percentagem de fogos acidentais é muito alta, assim como de fogos naturais. Tem a ver com as condições atmosféricas, propícias a acidentes elétricos, como em Pedrógão ou no próprio 15 de outubro. Atmosfera instável, ventos fortes e humidades baixas estão associados a esse tipo de problemas com as redes de transporte de energia.

Curtos-circuitos nas linhas elétricas?

Sim. Cabos que tocam em árvores, ou uns nos outros.

Mas isso não é da responsabilidade de quem gere as redes?

Sim. Até certo ponto, pode ser prevenido.

É dito, no relatório da CTI, que caiu um raio em cima de uma linha de média tensão e que isso provocou o incêndio de Pedrógão. Outro relatório, de um grupo de especialistas da Universidade de Coimbra, diz que foi a linha por si mesma, sem a intervenção do raio...

Só posso falar do nosso trabalho. Não tínhamos motivos para duvidar do trabalho que a Polícia Judiciária fizera. Fomos ao local, estivemos lá com eles, vê-se claramente que os cabos da linha elétrica estão danificados, e os especialistas dizem que só um raio causa aquele estrago. E vê-se por baixo um carvalho com uma marca clara de uma descarga elétrica.

Mas refere-se a uma marca de descarga elétrica direta do raio ou dos cabos?

Será dos cabos. Mas no segundo local de ignição, que também contribuiu bastante para o incêndio, foi claramente um acidente elétrico. As pessoas viram a formação do chamado arco voltaico no poste elétrico junto aos cabos e uma explosão.

Poderá ser atribuída responsabilidade a quem gere as redes?

Aquela situação é particular, porque onde o fogo começou é, ironicamente, um local idílico. Tem um açude e árvores ribeirinhas, velhas, grossas. É um sítio bonito, e logo ali começou um incêndio desta natureza. Não foi no eucaliptal ali ao lado. Quem faz as limpezas na vegetação por baixo dos cabos normalmente evita as zonas de vegetação mais natural.

Está a dizer que a EDP se preocupa sobretudo em limpar zonas de maior concentração de árvores e não tanto áreas como esta?

Sim. É essa a prática comum. Porque tem vegetação natural, carvalhos... Nós demonstramos no relatório, com imagem de satélite, que a zona não estava limpa nesse troço de cerca de 500 metros, com vegetação de carvalhos. Mas estava no troço anterior e no posterior. Também é muito claro que as árvores, nalguns pontos, podiam contactar com os cabos. Não estão no meio da copa das árvores, mas estão suficientemente próximos para haver contacto, quando há vento.

O presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses disse que há uma onda de organização terrorista a provocar esta situação. Como avalia este tipo de comentários vindos de pessoas com responsabilidades e experiência?

Todos os anos, os responsáveis dos bombeiros ou dos governos, ou os autarcas, invocam essas ondas terroristas, os criminosos. Quer dizer, o fogo posto existe, não temos de escamotear.

Mas esses casos de fogo posto estão identificados. Conhecemos o perfil dos incendiários. E não se conhecem indícios que levem a crer nestas teorias.

Além disso, metade das 500 e tal ignições do 15 de outubro são reacendimentos, rescaldos mal feitos, e uso do fogo em queimadas feitas pelas pessoas do campo. Outubro é um mês em que as pessoas usam muito o fogo, e naquele dia em particular havia o anúncio de que ia chover. As pessoas sentiam-se à vontade para o fazer. Do que sobra, há uma percentagem muito grande dos tais acidentes elétricos. Agora, terrorismo...

As pessoas não sabiam que as queimadas estavam proibidas até 31 de outubro? É falta de conhecimento, de consciência?...

As duas coisas. Por um lado, o hábito. Por outro, não há avisos. A época crítica costuma acabar em final de setembro, e muitas pessoas não têm acesso à comunicação social. Não leem jornais. Tem de haver um trabalho de informação de proximidade. Também há quem se espante com os fogos noturnos. Mas muitos são reacendimentos, e outros são as pessoas a queimarem de noite, sabendo que a GNR patrulha de dia.

Como é que isso se resolve?

É muito difícil. Já vi casos em que a zona está a arder e as pessoas continuam a queimar. Houve um aqui em Vila Real: estava um fogo intenso e um agricultor a fazer a sua queimada, em pleno agosto. Os bombeiros viram e foram ter com ele, e ele ainda bateu nos bombeiros.

Estes discursos que apontam aos tais interesses ocultos não acabam por desresponsabilizar estas pessoas? Nesse sentido, não é contraproducente?

Claro. Quando invocamos interesses ocultos, de madeireiros, ou de avionetas que lançam fogo... Este ano, até houve quem dissesse que isto era terrorismo com motivações políticas, ligado à oposição... Quando as pessoas têm este tipo de discurso desresponsabilizam a sociedade e os governos. Não tentar perceber as raízes do problema é uma desresponsabilização coletiva. Eu sei que a maior parte da população vive nas cidades, mas se derem uma voltinha pelo campo ao fim de semana vão ver essas fogueirinhas todas feitas pelos agricultores

Entrevista publicada na VISÃO 1286 de 26 de outubro