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"É arrepiante que no século XXI ainda se jogue ao póquer com o destino dos povos. Esta crítica vale para catalanistas e espanholistas"

Entrevistas VISÃO

Teresa Magalhães

Leia ou releia a entrevista a Gabriel Magalhães, professor universitário, especialista em língua e cultura espanhola, escritor e cronista do diário catalão La Vanguardia

Poucos portugueses conhecem Espanha como Gabriel Magalhães. E não é apenas por ser professor de língua e cultura espanhola na Universidade da Beira Interior. Nascido em Angola há 52 anos, passou boa parte da sua vida no País Basco, na Galiza e na Extremadura, tendo-se doutorado e dado aulas em Salamanca – para só depois se fixar na Covilhã. Lê e escreve com desenvoltura nos principais idiomas da Península Ibérica e é autor de dez livros que vão do ensaio à ficção. Desde 2009 que assina uma crónica regular no diário catalão La Vanguardia.

É verdade que se considera um “cristão católico”, “de esquerda” e um “agente duplo peninsular”, como já assumiu em entrevistas a jornais espanhóis? O que é ser tudo isto em simultâneo?

Tenho a sorte de ter um pai vertiginoso, que me ofereceu, em criança, uma biografia que passou por dois países: Portugal e Espanha. E não se foi mais longe porque havia o saudável travão da minha mãe. De resto, as malhas que o império tece fizeram-me nascer em Angola, onde estive apenas uns meses. Acho perigoso que um português seja só português de Portugal: corremos o risco, se tal acontecer, de ficar com uma biografia mesquinha, agachada. Um português a sério, creio, vai tomando o tamanho do mundo, ou pelo menos de uma parte do mundo. Sinto-me bem no meu país, na Península Ibérica e na Europa. Foi este o mapa que consegui construir, com a minha esposa e a minha filha. Quanto ao meu cristianismo católico, para mim ele significa uma aventura espiritual que dá uma particular energia a valores como a liberdade, o amor solidário, o interesse pela cultura, o desejo de paz, a valorização da mulher. Passei pela esquerda, é verdade, mas hoje em dia já não acredito nessa geometria, nem na da direita: gosto da política que usa o compasso do consenso e da seriedade, da transparência e da boa vontade.

Não defende o projeto de unificação política entre Portugal e Espanha por entender que o iberismo se trata de um conceito anacrónico, equivalente ao abraço de dois pugilistas exaustos. Em contrapartida, é um apologista da peninsularidade. Pode explicar melhor em que consiste esta última?

Trata-se de amar o outro ibérico. De desfrutar da riqueza cultural da nossa Península e ilhas adjacentes. Na Idade Média, havia um rei de Castela e Leão, Afonso X, que escreveu os seus poemas no português daquela altura, que era o galego-português. Camões redigiu poemas em castelhano e Torrente Ballester, um conhecido escritor espanhol, disse-me uma vez que, para ele, o autor de Os Lusíadas tinha criado os mais belos sonetos da língua de Cervantes. No fundo, a Península Ibérica pode ser uma festa para todos nós, um roteiro de felicidades, sem que isso implique um projeto político concreto. E tudo isto pode estragar-se quando deslizamos para esse neoimperialismo que, de uma forma latente, por vezes é o iberismo.

Há pouco mais de um ano, quando lançou o livro Los españoles (não editado em Portugal), mostrou-se particularmente otimista quanto à capacidade de convivência dos espanhóis, apesar das tensões permanentes. A atual crise por causa da Catalunha fê-lo mudar de opinião?

Escrevi esse livro para propor esse otimismo. Para o incentivar. Para tentar que a Espanha não regressasse aos seus demónios. Há alguns anos que se via esta tempestade a formar-
-se no horizonte. Aquilo que está a acontecer nestas últimas semanas é muito grave. Do lado “espanholista”, cada vez têm mais força os radicais. E o mesmo se tem passado do lado “catalanista”. Procedendo assim, corremos o risco de despertar os dinossáurios mais horríveis do parque jurássico da cultura espanhola. Trata-se de um desacerto, cometido por ambos os lados do conflito.

Na sua última crónica para o 
La Vanguardia, publicada antes do referendo de 1 de outubro, refere a incapacidade de diálogo entre Madrid e Barcelona. Estamos perante um problema tribal entre “espanholismo autoritário, disfarçado de constitucionalismo” e “catalanismo obsessivo e hipnótico”?

Há um certo lado negro da globalização que precisa de deitar abaixo tudo o que se lhe opõe. Começou por eliminar a União Soviética, que caiu como um castelo de cartas mal jogadas, e agora atira-
-se à Europa. Com os seus direitos sociais, a sua intensa liberdade, a sua cultura, ela é um “mau exemplo”, digamos assim. E estes tribalismos, sejam eles britânicos, “catalanistas”, “espanholistas”, funcionam como cargas explosivas que vão deitando o edifício europeu por terra. Não acontece só em Espanha. Está a dar-se em várias zonas do continente.

A crise económica e a austeridade, a par da corrupção, podem ter contribuído para o atual estado de coisas?

Sim, sem dúvida.

Já escreveu que, em Espanha, “as revoluções perdem-se quase sempre nos seus próprios labirintos”. Isso significa que a causa independentista catalã está condenada a fracassar, a exemplo do que sucedeu em 1934?

Neste momento, a causa independentista catalã é um movimento de massas, com perto de 2 milhões de pessoas num censo de 5 milhões e meio de eleitores. Não é a maioria, mas estamos perante muita gente e muito ativa. De resto, particularmente bem organizada, como é apanágio da Catalunya. Trata-
-se, pois, de uma revolta que quer ser uma revolução, funcionando com base na força de um grupo social que tenta impor-se e arrastar os restantes. Não é possível saber o que vai acontecer: qual o resultado deste desafio. Contudo, não deixa de ser arrepiante verificar que, na Europa do século XXI, criada para o diálogo, a negociação e a concórdia, ainda se joga ao póquer com o destino dos povos. E esta crítica tanto vale para o lado “catalanista” como para o “espanholista”: há muitos anos que ambos os lados se deveriam ter sentado à mesa, com boa fé, para resolver este problema.

Estarão os espanhóis ainda a pagar o preço de uma guerra civil mal enterrada e uma transição democrática mal gerida e pouco transparente?

É verdade, em boa parte, aquilo que diz embora as palavras que usa na sua pergunta sejam demasiado duras e até injustas. A Constituição de 1978 tem mérito: foi aquilo que era possível fazer naquela altura. Foi votada em referendo nacional. Trata-se, sem dúvida nenhuma, de uma carta magna democrática. Mas devia ter sido atualizada: passaram quase quarenta anos e só se fizeram duas reformas, uma delas para alterar apenas duas palavras. Sabe quantas revisões sofreu a Constituição portuguesa, sendo nós um país sem diversidades nacionais internas? Sete. Sete contra duas. 
O contraste entre estes simples números mostra o erro político estrutural que foi cometido no país vizinho: o “espanholismo” encastelou-se num texto constitucional que lhe dá certas vantagens, não tendo tido a generosidade de o atualizar, apesar de todas as transformações que a vida e as culturas dos espanhóis foram sofrendo.

Tem amigos dos dois lados da barricada. Consegue manter a equidistância face a esta crise? 
Já admitiu que, por conviver com a cultura catalã, também se sente humilhado e incompreendido. A violência policial de 1 de outubro despertou em si algum sentimento soberanista?

Não é uma questão de equidistância estratégica. Trata-se de manter uma cultura do diálogo em todas as direções: de falar com todos, quando já ninguém quer falar com ninguém. Quanto às humilhações que refere, aquilo que sempre me doeu muito foi a falta de reconhecimento da cultura e da grandeza da Catalunya por parte de um setor da sociedade espanhola, que menospreza essa parte do seu próprio país. Acho isso tristíssimo, injusto, mesquinho. De resto, é algo que tem alimentado o independentismo. Quanto às cargas policiais, elas sinalizam o ponto a que se chegou, a gravidade deste momento, os monstros da história que estão a acordar de novo. Na Europa do século XXI, não é assim que os problemas se resolvem: aquilo é inaceitável como caminho para o futuro.

O conceito de “Espanha plurinacional” reentrou no debate público espanhol mas tudo indica que vários dirigentes políticos se recusam a admitir que o país é constituído por diferentes nações. Será que o futuro e a paz passam por outros protagonistas e novas elites que reconheçam as diferentes identidades e as “várias formas de se ser espanhol”, para usar novamente uma expressão sua?

Noto, em primeiro lugar, que essa ideia já está apontada na Constituição 1978, que, no seu artigo 2, fala de “nacionalidades”: não foi é desenvolvida. Sim, esse é o futuro: seguir esse caminho. Mas isso, esse horizonte, exigiria uma mudança completa de atitude por parte dos dirigentes. A Espanha é um belo projeto, uma peça de teatro maravilhosa, mas que não tem, neste momento, atores que estejam à altura de a representar.

Em 2014, escreveu Como sobreviver a Portugal? (Editorial Planeta). Admite publicar uma obra intitulada Como sobreviver a Espanha?

O livro Los españoles já era isso. Não tinha esse título, mas o sentido daquelas páginas já passava por aí: como construir um país que não seja uma nação oscilando, pendularmente, entre a sua alegria e a sua tragédia.

Ainda acredita que o nosso País é menos igualitário que Espanha? O rendimento médio de quem vive em Madrid ou em Barcelona é praticamente o dobro de qualquer habitante da Andaluzia e da Extremadura...

Quando falei em Espanha como país igualitário, referia-me à tendência para a proximidade, a convivência, mesmo para uma intimidade que um português pode sentir como excessiva e que é típica do espanhol. Por outro lado, a desigualdade em Portugal não deve ser medida apenas entre um habitante de Beja ou de Freixo de Espada à Cinta e alguém que mora no Porto ou em Lisboa embora o interior seja efetivamente desfavorecido. Essa desigualdade deve calibrar-se, também, entre aquele que fica num beco sem saída tão escuro que se vê obrigado a partir – e aquele que pode permanecer no rame-rame da pátria. Essa pátria marcada pela austera, apagada e vil tristeza de que falava Camões, mas que, no fundo, representa uma vidinha cómoda. Portugal não é um país para todos os portugueses. Pode chocar dizer isto, mas muitos dos que partiram percebem perfeitamente aquilo que estou a dizer. Nós também temos os nossos infernos. Essa é a desigualdade maior e crónica do nosso país.

“Ao lermos Camões, percebemos que Portugal é uma fantasia. Ao lermos Cervantes, percebemos que Espanha é a realidade”. Assume a autoria desta frase?

Se procurarmos a Ilha dos Amores camoniana nos mapas da Google, não a vamos encontrar. Se quisermos dar com o assento de batismo do Álvaro de Campos, também não teremos muita sorte. Portugal baseia-se muito neste encadeamento de fantasias, que depois acontecem também em coisas mais quotidianas: os azulejos, por exemplo, disfarçam as paredes. Os nomes das coisas suavizam em parte essas mesmas coisas, dando-
-lhes um halo mágico. Pelo contrário, em Espanha, Cervantes, através do Quixote, propôs àquela gente que, sem desvalorizar a grandeza da fantasia, olhassem para o lado concreto do mundo. Para o lado objetivo da realidade. Talvez a minha frase seja demasiado radical, mas creio que continua a ter um fundo de verdade.