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"Há focos de racismo em Portugal. Já haver uma estrutura ideológica e um Portugal racista, recuso-me a aceitar"

Entrevistas VISÃO

Luís Barra

António Pinto Ribeiro, Investigador e programador-geral da Lisboa 2017 – Capital Ibero-Americana da Cultura, em entrevista à VISÃO

Tem um D. Quixote de latão a guardar a porta do apartamento e gosta de ter sempre flores em casa. Duas paredes do escritório do investigador e programador cultural António Pinto Ribeiro estão forradas a prateleiras de alto a baixo, repletas de livros. Na terceira a contar do fim, estão várias obras da autoria dos escritores abordados no livro África, os Quatro Rios (Afrontamento), que editou em maio. A partir da literatura de viagens, em concreto Febre Africana, do jornalista polaco Ryszard Kapuscinski, Aventuras em África, do italiano Gianni Celati, Baía dos Tigres, do jornalista português Pedro Rosa Mendes, e Viagem Por África, do escritor norte-americano Paul Theroux, Pinto Ribeiro faz uma reflexão sobre as representações do Continente Negro através das quais nos podemos pensar enquanto Ocidente, enquanto passado colonizador.

Os quatro autores, que refere em África, os Quatro Rios, relataram uma visão pessimista do continente. Porque é que não conseguiram colocar-se no papel do outro, do africano?

Há várias razões, comuns aos quatro. O trabalho do Kapuscinski começa nos anos 50 – há o pós-guerra, a Guerra Fria, o conhecimento de África muito limitado, o problema das comunicações, a ausência de aparato epistemológico, situações de conflito –, e o do Paul Theroux remonta a 2002 – em que, nos EUA, na Índia e na Europa, há já alguns trabalhos interessantes sobre as questões pós-coloniais, mas também alguns autores africanos a equacionar estas questões. Entre o final da década de 90 e a atualidade, há um avanço do ponto de vista de produção teórica que é incomparavelmente maior a todo o século XX. Por outro lado, é muito difícil, senão impossível, transferirmo-
-nos para o lugar do outro. Eu creio que, em particular no caso do Pedro Rosa Mendes e no início do trabalho do Paul Theroux, há uma manifesta vontade em ser solidário com os africanos. Mas as contingências locais, ou a irritação, ou porque a linguagem não é a apropriada para descrever uma determinada realidade, ou porque a realidade em si é muito decepcionante face às expectativas, não lhes permitiu sê-lo.

Pela sua experiência de África, o que é que mais sente em termos dessa intransponibilidade, quando lá está?

Depende muito dos países. Entre a África do Norte, de influência islâmica, e a África subsariana, de influência negra, entre a costa leste e a costa oeste, há realidades bastante diferentes – entre países que estão em guerra e os que estão mais pacificados. E não nos esqueçamos que, em 40 anos, passámos de umas 40 ditaduras para oito ou nove, atualmente. Eu vivi em África na infância e na adolescência, há um conjunto de memórias que ajudam e desajudam na relação. Aquilo que mais me toca é a energia criativa, o sentido histórico que as pessoas têm. Sabem que qualquer ato que cumpram tem implicações imediatas. As supermetrópoles africanas são de uma dimensão absolutamente extraordinária, e as zonas rurais e os desertos... reduzem-nos a uma certa condição de humanidade, a de que controlamos muito pouco.

No livro fala na noção de “episteme desobediente”.

Isso é uma terminologia que vem dos pós-colonialistas sul-americanos. É um trabalho longo que começou a ser feito na América Latina há muito tempo e começa a ser feito agora em África: ver o que é que, no seu passado pré-colonial, tem uma adequação aos dias de hoje. É um dos problemas maiores que existe, porque uma das consequências do colonialismo foi o apagamento e a amnésia de todo o passado pré-colonial. Trata-se de uma desobediência epistemológica em relação àquilo que é adquirido.

Quanto ao espaço museológico, a forma como os materiais relativos à colonização continuam a ser dispostos não devia ser repensada?

A nível museológico falta fazer um trabalho de contextualização. Nós não podemos apagar esses materiais porque gostaríamos que não tivesse acontecido. Aconteceu. O que interessa agora é que esse testemunho seja desconstruído. É um trabalho enorme que os museus não estão ainda a fazer, com a pertinência e a urgência que deviam.

É o fator tempo?

O fator tempo é absolutamente fulcral. Estamos a falar de história das mentalidades. Um dos aspetos, e vou voltar ao livro, o que achei interessante foi o facto de, entre os séculos XVIII e XX, haver uma produção de vocabulário relativamente aos africanos que foi degradando a sua imagem com o avançar do tempo. No princípio eram “primitivos”, no fim eram “selvagens”. Isto não era um problema dos africanos, era um problema dos europeus. Correspondia à forma como os europeus foram representando e concebendo os africanos. Uma característica também interessante, mas relativa aos autores que estudo no livro, são as dificuldades que eles tiveram em encontrar vocabulário que não fosse ofensivo.

Acha que os portugueses não sabem incorporar o seu passado colonialista?

Acho que o incorporaram de maneiras muito diferentes. Há uma incorporação baseada na nostalgia. Dir-se-á pouco produtiva, mas tem gerado alguma criação literária. Existe também um trabalho que começou a ser feito por alguns investigadores em Portugal, que tem a ver com os testemunhos dos traumas coloniais – os dos protagonistas das guerras coloniais e os dos colonos. E há ainda um trabalho importante a fazer que é o de comunidade. É difícil fazer o debate. Há pouco tempo, houve as declarações do nosso Presidente da República na ilha de Goreia [um importante interposto de comércio de escravos]… Imediatamente tentou-se apagar aquilo. Mas ninguém estava a julgar o senhor Presidente ou as suas declarações.

Ele foi criticado na altura. Houve inclusive crónicas a sugerir que devia ter formulado um pedido claro de desculpas.

Pois, mas tudo isso tem aquele lado emotivo, de humores. A argumentação é muito frágil, é uma coisa cheia de preconceitos. É muito daquilo que é a narrativa habitual. É preciso fazer esse debate e só há dois espaços onde este pode ser feito: a academia e a comunicação social.

Não devia ser um trabalho ainda mais enraizado, ao nível do ensino da História de Portugal nas escolas, relativamente aos Descobrimentos?

Acho que os currículos de história, e de literatura, devem ser repensados nesse aspeto. Sem ajuizar, mas apresentando outras narrativas que não as dominantes ou a herança do regime anterior. Seria também um contributo notável para a Europa, se esse trabalho fosse feito. Puxando a brasa à minha sardinha, o trabalho que estou a desenvolver na Lisboa 2017 – Capital Ibero-Americana de Cultura em relação ao Padrão dos Descobrimentos ou aos testemunhos da escravatura vai nesse sentido.

A ideia de um memorial às vítimas da escravatura faz sentido?

O debate no espaço público é fulcral. Em relação ao memorial, não sei… Tenho algumas reservas face à monumentalidade que quer criticar a monumentalidade. Não sei se é a estratégia mais adequada. Além disso, acho que há pouca produção artística sobre esta matéria. Existem uns fenómenos de moda, mas há muito pouca coisa comparativamente a outros países que tiveram colónias. Por outro lado, o contributo de alguns africanos ou afrodescendentes começa a ser importante, nomeadamente no domínio da música.

Quanto aos afrodescendentes, acha que o facto de a sociedade portuguesa ainda se encontrar segmentada pode ter a ver com essa não aceitação do passado?

Não. Do ponto de vista factual, há uma primeira imigração de africanos basicamente à procura de melhores condições de vida. Infelizmente, essa imigração não dispõe de uma massa crítica – como, aliás, os nossos emigrantes – capaz de se impor na agenda cultural e política nacional. Se me diz que há pouca influência de afrodescendentes nos meios de comunicação, e nos meios políticos, há. Mas não percebo porque é que não há mais afrodescendentes candidatos a eleições autárquicas e legislativas. Tem de existir também iniciativa nesse sentido por parte deles. Não me parece que haja manifestações de repulsa se houver candidatos afrodescentes às listas. Recuso-me a aceitar que isso seja possível.

As quotas fazem sentido?

Com tudo o que isso possa trazer de polémico, acho que durante um período de tempo as quotas podem ser importantes.

Para criar o hábito?

Para criar o hábito, para chamar a atenção, para estimular a participação. Há um problema de autoestima coletivo que também é preciso ter em conta. Tudo isto é mais complicado do que dizer “não há africanos no parlamento”. É verdade que não há, vamos ver as razões.

Já pensou sobre essas razões?

Uma, pode ser a de que a política profissional, em si, é pouco estimulante. Outra razão pode ter a ver com os círculos que os afrodescendentes frequentam. Sabemos que, no domínio da música, que tenho trabalhado bastante, há um conjunto absolutamente fantástico de DJs e de músicos na Amadora, no Pendão, na Buraca, que, depois, vão à praia de Ofir, a Braga, a Viseu, à Suécia, à Dinamarca, à Suíça. Mas vemo-los pouco em Lisboa. Uma vez perguntei-lhes porquê e eles disseram: “Não somos muito convidados, é um facto, mas também não queremos tocar onde não esteja o nosso público.”

O que consideram por público? 
O DJ Marfox vai tocar a Nova Iorque.

Eles vão ao Musicbox [Lisboa, Noites Príncipe], de vez em quando. 
O público que os acompanha a Sintra e ao Seixal porventura não virá a alguns espetáculos em Lisboa. Tudo isto é muito mais complexo do que uma mera coisa preto no branco.

A acusação de racismo, ódio, tortura e sequestro a 18 agentes de uma esquadra da PSP, a da Cova da Moura, a provar-se, não revela uma certa estrutura de racismo?

Mostra que há focos de racismo em Portugal. Já haver uma estrutura ideológica e um Portugal racista, recuso-me a aceitar. Li que um dos subcomissários anteriores tinha criado uma relação de proximidade com as pessoas do bairro e estavam a conviver relativamente bem.

Voltando ao livro, desde 2002, que caminhos tem África tomado?

Caminha em sentidos simultaneamente opostos. Por um lado, há lugares onde existe, hoje, trabalho de pesquisa e produção teórica sobre África e sobre o mundo. Já não se pensam enquanto africanos, pensam-se enquanto africanos no mundo e o contributo que dão. Existe também um trabalho artístico importantíssimo, que começou já a aparecer. Toda a temporada deste ano foi, felizmente, a da presença africana em Paris, em Londres, em Berlim. Por outro lado, há algo assustador: ao entrar no curso da globalização, África entrou no processo financeiro neoliberal. Achille Mbembe, autor de quem gosto em particular, diz: “Vamos todos ser negros.” O negro foi escravo, em determinado período, e é para essa condição que estão a ser levados todos os trabalhadores, à escala global, independentemente da cor ou da etnia.

Pode dar o exemplo de uma teoria de estudiosos africanos que tenha achado fascinante?

O Afropolitismo, que é o cosmopolitismo aplicado a África. Quer dizer que há formas cosmopolitas de viver que são especificamente africanas, para as quais as heranças dos povos, as tradições, contribuem bastante. Por um lado, os africanos têm um acesso à informação: leem tudo, veem tudo, estão sempre conectados. Sabem o que está a acontecer em Paris, em Nova Iorque, no Brasil, e por aí fora. E, simultaneamente, estão muito ligados às comunidades de onde partiram. Nicholas Hlobo, um artista sul-africano de quem gosto bastante, reclama-se membro da tribo Xhosa, que tem uma língua própria. Isto é muito interessante.

Entrevista publicada na VISÃO 1279 de 7 de setembro