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"Quando fazíamos coisas para o Herman éramos derrotados estrondosamente nas audiências, mas alguns sketches ainda são vistos hoje"

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José Caria

Nuno Artur Silva Administrador da RTP Quando fazíamos coisas para o Herman éramos derrotados estrondosamente nas audiências por outros programas e, no entanto, alguns desses sketches são vistos ainda hoje e já ninguém se lembra do programa que os derrotou… É essa a vingança

Vânia Maia

Vânia Maia

Jornalista

Sem surpresas, Lisboa foi esta semana anunciada como anfitriã do Festival da Eurovisão. O espetáculo realizar--se-á no Parque das Nações, a 8, 10 e 12 de maio, um ano depois da vitória histórica de Salvador Sobral. Mas também haverá atividades paralelas ao evento no Terreiro do Paço. A menos de um ano de terminar o mandato, Nuno Artur Silva, 54 anos, não teme o desafio de organizar um espetáculo para 200 milhões de espectadores – e custos na ordem dos €30 milhões. Fundador das Produções Fictícias, onde escreveu textos para programas como Herman Enciclopédia, o administrador com a pasta dos conteúdos do serviço público confessa tomar notas das situações cómicas que lhe vão acontecendo. Mas não acha graça nenhuma às restrições orçamentais da RTP.

Lisboa era a escolha previsível...

A Eurovisão não é apenas o recinto onde se faz a transmissão televisiva. Há toda uma série de atividades à volta. O festival será no Parque das Nações e no Terreiro do Paço, que acolherá o Village, uma área de atividades paralelas ao festival. Estes serão os dois polos fortes do festival, entre outros sítios à beira-rio. O critério de escolha tem a ver com a capacidade da cidade em termos turísticos. Há uma série de exigências relacionadas com capacidade hoteleira, oferta cultural, entretenimento, lazer, proximidade do aeroporto… Foi uma proposta nossa, mas teve de ser aprovada pela Eurovisão. Avaliámos várias cidades e equipamentos possíveis, todos a norte, e daí resultou que a final do Festival da Canção da RTP será em Guimarães.

Já deu por si a pensar que teria sido melhor o Salvador Sobral ter ficado em segundo lugar na Eurovisão?

Não, de todo. Para quem, como eu, passou a infância a ver o Festival da Eurovisão à espera de uns pontinhos, aquela noite trouxe-nos uma alegria infantil. Ganhámos da melhor maneira possível, com uma canção e uma interpretação extraordinárias. Ninguém nos tira essa alegria.

Mas ter ganho a Eurovisão tornou
-se uma dor de cabeça?

A RTP tem a tradição de estar à altura dos grandes desafios. Claro que temos restrições orçamentais, a seguir à Albânia e à Roménia somos a estação pública europeia com menos dinheiro. A Eurovisão é o maior evento de entretenimento a seguir à Liga dos Campeões, tem mais espectadores do que o Super Bowl americano, estamos a falar de um público potencial de 200 milhões, fora as redes sociais. Envolve 42 delegações, 1500 jornalistas durante 15 dias, visitantes de todo o mundo, é uma escala enorme. O género Eurovisão, em termos musicais, não é muito conceituado, mas em termos de espetáculo televisivo, sim. Organizá-lo é puxar a televisão pública portuguesa para a linha da frente da produção.

Como vão conseguir fazer um espetáculo tão grandioso com restrições económicas?

À semelhança do que o Salvador Sobral fez com a sua canção, teremos de fazer mais com menos. Ele não precisou de fogo de artifício, só de uma grande canção e de uma grande interpretação. Claro que é muito difícil fazer um espetáculo desta dimensão sem “fogo de artifício”, mas é possível fazê-lo com rigor orçamental, convocando todos os parceiros que pudermos para comporem o financiamento.

Qual o projeto mais emblemático desta administração?

A disponibilização do arquivo da RTP, gratuitamente, talvez seja o mais emblemático. Significa partilhar com as pessoas a memória que é da RTP, mas também do País.

Até que ponto estão os canais de televisão a ser redefinidos?

A própria definição de televisão está a mudar. De um lado está a televisão linear, ligamos e está a dar alguma coisa. Do outro, está a televisão não linear, que significa irmos buscar o que queremos, quando queremos. São duas lógicas diferentes que obrigam a pensar na televisão enquanto entidade que não se limita a emitir, mas que está na raiz da produção.

O conceito de serviço público tem de ser atualizado?

O sentido do serviço público é investir em conteúdos que de outra maneira não existiriam. O exemplo mais evidente é uma política concertada de produção de séries ou documentários com o objetivo de criar uma indústria nacional. Neste momento, se não for a RTP a fazê-los, só episodicamente estes géneros serão feitos.

Já disse antes que o serviço público se posiciona face a um cidadão 
e não um consumidor…

É claro que um consumidor é sempre um cidadão, mas a prioridade da estação comercial são conteúdos que permitam ter anúncios que paguem a sua operação. O objetivo do serviço público não é esse, o serviço público não tem que dar lucro – não deve dar prejuízo. As estações comerciais vão à procura do que é visto pelo maior número de pessoas, nós temos de mostrar a diversidade do mundo. Quando programamos um documentário sobre a Paula Rego temos menos espetadores do que quando fazemos um conteúdo comercial, mas estamos a fazer mais serviço público.

Mas as audiências não são importantes para aferir da relevância de um canal público?

Associar audiência a relevância é demasiado estreito. Sem querer ferir suscetibilidades, diríamos que o Tony Carreira é mais relevante do que o Sérgio Godinho? Que o Dan Brown é mais relevante do que o Graham Greene? Ter audiência é uma forma de ser relevante, mas há outras. Às vezes só nos apercebemos da importância de um programa anos depois. Quando fazíamos coisas para o Herman éramos derrotados estrondosamente nas audiências por outros programas e, no entanto, alguns desses sketches são vistos ainda hoje e já ninguém se lembra do programa que os derrotou… É essa a vingança. [Risos]

O serviço público pode não competir com os privados pelas mesmas audiências, mas compete no mercado publicitário.

Enquanto a RTP mantiver uma componente comercial, há a necessidade de ter programas comercialmente competitivos. O futebol, tal como alguns formatos internacionais de entretenimento, traz à RTP público que, se calhar, de outra maneira não viria. Com o Fernando Mendes passa-se o mesmo. Para arriscarmos na produção e emissão de séries ou documentários, temos de complementar a programação com conteúdos que fazem audiências maiores. É certo que a receita comercial é 10% do orçamento, mas existe. Agora, usar a contribuição audiovisual para fazer uma televisão estritamente comercial, isso seria concorrência desleal.

Já disse publicamente que trabalham com orçamentos dez vezes inferiores à média das séries europeias, é por isso que acontecem casos como o dos salários em atraso na produtora da série Ministério do Tempo?

Até agora, já exibimos onze séries, estão em linha mais umas quantas, e não há mais nenhum caso como esse. Portanto, não há uma relação entre salários em atraso e o dinheiro que se paga. O que aconteceu foi a infelicidade de haver um produtor que geriu mal. A RTP negoceia um valor e o produtor independente gere-o e entrega ou não a série. Neste caso, aguardamos para ver se eles vão ser capazes de cumprir o contrato.

Que impacto terá a compra 
da TVI pela Altice no universo 
do audiovisual?

Terá impacto, claro. Para já, o mercado está a funcionar, mas há questões de regulação que é preciso esclarecer. Tem que ser dado espaço aos reguladores para perceberem o que está em jogo e qual é a estratégia.

A ERC está bastante enfraquecida pelo longo processo de indefinição relativamente à sua direção.

Precisamos de reguladores estáveis, credíveis, que possam decidir com legitimidade questões cruciais. Não podem acontecer situações como atribuir a TDT a uma entidade [a PT] que tem um claro conflito de interesses. Relativamente à Altice, sem querer comentar o negócio, haver um investimento nos media é sempre uma boa notícia. Agora, qual é a estratégia? É para fazer o quê? Esta pode ser uma oportunidade para clarificar um mercado que é vital para a democracia portuguesa. Espero que não a desperdicem. Se ficarmos rodeados de “enlatados”, conteúdos muito formatados das multinacionais... se recair só sobre a RTP o desenvolvimento do audiovisual português, é um peso enorme.

É inevitável que os meios de comunicação estejam subjugados a gigantes como o Google ou o Facebook?

Estamos numa situação de “se não os podes vencer, junta-te a eles”. 
A internet trouxe uma coisa inédita: a lógica do acesso livre. Da mesma maneira que o Estado investe em teatro porque de outra maneira não seria rentável, o Estado vai ter que investir em mecanismos que garantam a existência de jornalismo livre e independente. A ironia disto tudo, e é uma grande ironia, é que passámos de uma altura em que o Estado era visto como controlador, e os privados como sinal da liberdade, para uma espécie de movimento em que os privados podem ficar reféns de interesses. Não estou a dizer que estão, mas há esse risco.

Em que posição ficam os jornalistas?

A posição do jornalista fica muito mais frágil. Começa a fazer sentido organizarem-se como agências, grupos independentes, como fizeram os fotógrafos da Magnum. Uma coisa são os jornais, outra são os jornalistas. A atividade jornalística não se pode confundir com interesses comerciais puros e duros. Desejavelmente, tem que se pagar, mas tal como noutras áreas, tem que haver da parte da sociedade civil e do Estado mecanismos de financiamento de projetos jornalísticos.

Um dos inimigos do jornalismo é o que se entende hoje como notícia…

Um dos grandes desafios é o combate às notícias falsas. Um fenómeno como Donald Trump só se explica pela decadência dos media. O populismo é agarrar numa parte da realidade, aumentá-la, e dizer que aquela é a verdade. Não estou a diabolizar as redes sociais. As redes sociais são fantásticas porque permitem trocar informações com pessoas de todo o mundo e partilhar vídeos maravilhosos, mas são uma arma absolutamente destruidora se forem usadas ao serviço do mal. As pessoas têm que ser sensibilizadas, cabe aos meios de comunicação, aos serviços públicos de media, mostrar que o mundo tem muitos olhares. Hoje, o jornalista é mais importante do que jamais foi, mas a sua situação laboral é mais frágil do que nunca.

Como vão integrar os trabalhadores identificados pelo Programa de Regularização Extraordinária dos Vínculos Precários na Administração Pública?

Aguardamos com serenidade o desenrolar do processo. A RTP, como empresa pública, está impedida de contratar desde 2012, o que para um órgão de media é uma inibição terrível. Obriga-nos a recorrer ao trabalho dito precário, não é uma coisa desta administração, vem de trás, e não podia ser de outra maneira, ou não garantiríamos a nossa missão. Se há um processo de regularização, isso interessa muito à RTP. Agora, mais uma vez, vamos cair na questão orçamental. É outro desafio de gestão que temos pela frente.

Tem planos para outro mandato?

Não, neste momento não sei se há segundo mandato. Como é lógico, há coisas que estamos a lançar que são de longa duração, o investimento numa indústria de séries não se esgota num mandato, e muito mais coisas que estamos a fazer. Cabe ao Conselho Geral Independente decidir.

Mantém a intenção de vender as Produções Fictícias?

Não me foi pedido, por nenhuma entidade, que deixasse de ser acionista das Produções Fictícias e do Canal Q. Nunca. A única coisa que disse, numa entrevista, foi que se houvesse uma boa proposta vendia. Não foi uma promessa de venda. O que fiz foi desligar-me de todos os cargos.

Criou algumas personagens marcantes do humor nacional. Qual seria a personagem que faria sentido criar agora?

Tenho um bloco onde tiro notas de trabalho e, depois, tenho outro onde vou anotando ideias para fazer quando sair daqui. Vou anotando coisas cómicas que acontecem… Reconheço que, não só na RTP, mas nos media, há um grande potencial ficcional e cómico. Há personagens extraordinárias sobre as quais vou tomando notas para usar mais tarde.

Quer dizer que se diverte…

Gosto imenso do que estou a fazer. E consigo divertir-me, claro que sim.

Entrevista publicada na VISÃO 1273 de 27 de julho