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Viagem até Santiago pelo meio da Natureza

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Aproveitar a peregrinação a Santiago de Compostela para construir um plano de ação. Entre bosques centenários, estadas em mosteiros e refeições faustosas, manter o foco e a consistência, sem contar os quilómetros percorridos, foi o grande desafio

“Country roads, take me home, to the place where I belong...” O clássico de John Denver, lançado em 1971, não era a música que estávamos à espera de ouvir dos headphones de Olena, adolescente ucraniana de 16 anos, mas foi a banda sonora perfeita para os dias de caminhada. Uma toada a ecoar repetidamente dentro da cabeça ou cantada em voz alta com os outros peregrinos. Integramos um coletivo luso-ucraniano, muito heterogéneo, mas não estamos numa peregrinação normal a Santiago de Compostela. Além da credencial para carimbar ao longo das etapas, aguardam por nós outras tarefas, incluídas no Walking Mentorship, o programa de desenvolvimento pessoal idealizado por João Perre Viana. Percorreremos um pequeno troço (cerca de 120 quilómetros) da Via da Prata, o mais longo caminho compostelano dentro de Espanha, a ligar terras andaluzas e estremenhas à finisterra galaica. Ao longo de nove dias e de oito noites, esticados pela desaceleração do ritmo, o verde-esperança da região galega ajudará a iluminar os planos de futuro dos participantes. “Vários estudos recentes apontam para o impacto positivo das caminhadas na Natureza, na capacidade de gerarmos novas ideias, de sermos criativos e de restaurarmos a atenção, debilitada pelo uso excessivo da tecnologia”, sublinha o mentor, de 47 anos, com um percurso académico e profissional dividido entre Portugal, EUA, Bélgica, Ucrânia, Angola e Moçambique. Sempre a caminhar.

1.º dia Reunir o grupo
Na primeira noite, passada em Santiago, começámos por recordar a questão foco, aquela em que investiremos nesta viagem introspetiva. Ao quilómetro zero, temos um grande quadro para preencher com prioridades, atrações, sonhos e incertezas. No Manual de Sobrevivência, o livro que nos acompanhará durante a viagem, estão os exercícios para colocar em perspetiva o passado e o presente, além de ajudar a desenhar um plano de ação para o futuro. Ao jantar, o grupo reúne-se pela primeira vez. Oito peregrinos com formação, origem, experiências de vida e faixa etária distintas, embora com muitas pontas soltas a uni-los. Com parte da comunicação lost in translation, prevalecem gestos e palavras ditas com tal firmeza, no inglês (por vezes trapalhão) usado como língua franca, que abalam ou reforçam convicções.

2.º dia Quebrar o gelo
Ourense é o ponto de partida da caminhada, onde chegámos de comboio, ao raiar da manhã, para aquela que será a jornada mais dura, a ultrapassar os 30 quilómetros. O número nunca é confirmado por João, firme crente no princípio de que, “mais do que contar quilómetros, devemos fazer com que os quilómetros contem”. Pela primeira vez, o grupo é dividido em pares e convidado a partilhar com o parceiro quem é, para onde vai e o que procura. Nem sempre isso fica claro, mas quebra-se o gelo e reforçam-se os laços. Não há muito tempo para parar, mas João escolhe pontos estratégicos para o fazer, como um impressionante bosque de carvalhos centenários. Velhos guardiões, majestosos, abraçados amiúde pelo grupo, sobretudo por Pavlo, cirurgião plástico ucraniano, como que a absorver as suas forças. “Tudo contribui para a experiência e, se tiverem esta ancoragem emocional aos lugares, os participantes conseguem voltar ao que sentiram e pensaram ali”, explica o mentor.
Um faustoso almoço aguarda-nos na pequena localidade de Cea, no Sol y Luna, restaurante/café/loja de recuerdos de um amabilíssimo casal de emigrantes venezuelanos. Um regalo para o estômago, e também para os olhos, a perderem-se no kitsch insólito da decoração. Recuperadas as forças e retomado o caminho, chegámos a um troço de quatro quilómetros que devemos percorrer sozinhos. Sentimos a cadência dos passos e da respiração a imiscuir-se na tranquilidade da floresta, e esta lentidão força-nos a absorver com outra intensidade tudo o que vemos.
Os últimos quilómetros da jornada revelam-se árduos para parte do grupo, mas a visão inesperada do imponente e austero Mosteiro de Oseira, no fundo de um vale e ao virar de uma curva, regenera parte das forças. Ali passaremos duas noites, na hospedaria da ordem beneditina, entregues aos cuidados do padre César, o mais jovem da congregação. “Muitos procuram-nos para retiros, querem estar mais próximos de Deus”, explica o monge. Dormiremos em celas de decoração singela, a ouvir o correr das águas do rio Oseira que marca o ritmo. Alguns dos peregrinos assistem às missas, com o fumo do incenso, a pairar pelos corredores, a reforçar o misticismo. Os cantos gregorianos, garantimos, são o embalo perfeito para uma noite com os anjos.

3.º dia Desafio do silêncio
Neste dia sem caminhada, somos desafiados a manter-nos em silêncio. “Estejam aqui, agora”, pede João Perre Viana. Os sinos do mosteiro recordam-nos constantemente desse compromisso. Desacelerar, ouvir, questionar... Essas são as palavras de ordem. A maioria dos participantes, quando embarca no Walking Mentorship, quer apenas recarregar energias e investir no desenvolvimento pessoal, conta o mentor, uma mistura de psicólogo, com padre e mais outra coisa qualquer. Inegável é que “a ideia de mudança é mais interessante do que o processo de mudança”, defende João. Ali, não há comprimidos milagrosos. O mentor está lá para facilitar o processo quando as dúvidas se acumulam, muitas vezes através do exemplo de outros pares. “Não gosto de apontar soluções, prefiro que sejam as pessoas a encontrá-las, até porque devem chegar ao final o mais autónomas possível”, explica.
À hora do almoço, a “penitência” de silêncio torna-se dolorosa e, de repente, as palavras saem em catadupa da boca de Viktoria, ucraniana de 32 anos, proprietária de um café moderno em Odessa. Afinal, poder partilhar com um grupo a sua experiência foi uma das razões por que escolheu o programa, farta dos pacotes em estâncias turísticas, com “tudo incluído”, mas pouca substância. Entrega-se à beleza do caminho com uma energia surpreendente – aliás, mal aterrou no aeroporto de Santiago, logo seguiu as setas amarelas –, como que a reconquistar uma alegria perdida.
No mosteiro, originário de 1137 (alterado ao longo dos séculos), é imperdível uma das visitas guiadas para conhecer ao pormenor a igreja medieval, os três claustros, a antiga farmácia ou a biblioteca repleta de relíquias. Na loja, os chocolates e o Eucaliptine, o poderoso licor de eucalipto feito pelos monges, capaz de (aleluia!) curar todos os males, são igualmente irresistíveis.

4.º dia descomprimir à mesa
Quando amanhece, batemos as pesadas portas do mosteiro, mas o programa de desenvolvimento pessoal continua. Já registámos as etapas mais decisivas da nossa vida e analisámos o que tiveram de positivo e de negativo. Já preenchemos uma tabela com as horas gastas com família, amigos, trabalho e avaliámos o nosso grau de satisfação com esta distribuição do tempo. Hoje, faremos um inventário pessoal. Com os companheiros de caminhada, falaremos sobre as nossas qualidades e defeitos. O exercício ganha outras proporções quando, mais tarde, ligamos a quem nos conhece melhor a pedir a mesma tarefa, sem contemplações. As respostas, como seria de esperar, saem amáveis, com uma ou outra surpresa.
A jornada é exigente, física e psicologicamente. Os exercícios acumulam-se, e nem sempre surge a clarividência esperada. É, por exemplo, quando assumo perante os meus pares aquilo que me motiva ou que eu gostaria de mudar que tudo se complica. Num inglês esforçado, Oksana, 48 anos, mãe de Olena e mulher de Pavlo, igualmente médica mas a gerir os negócios da família (exemplo perfeito da sociedade matriarcal ucraniana), desmonta o meu tosco e frágil esboço do futuro. “Joana, you need money, money will give you freedom!”, são as palavras retidas, a deitar por terra os meus planos idealistas.
Os momentos de descompressão surgem, quase sempre, à mesa. E como este grupo gosta de comer! A visão de uma panela fumegante é o suficiente para, pouco depois, estarmos diante de pratos repletos de polvo galego. Uma carrinha com pão, com quem nos cruzámos na estrada, é parada obrigatoriamente pelo cirurgião Pavlo, o rei das partilhas, sempre com uma iguaria no fundo da mochila para dividir com os restantes. Passamos a noite em Lalín, no hostal A Taberna de Vento e, mais uma vez, é o restaurante à beira da estrada a ficar para a História.

5.º dia Natureza como boa conselheira
Aguarda-nos uma caminhada tranquila. Paramos numa floresta, encostados a uma árvore à nossa escolha para escrever uma carta ao nosso ideal de futuro, a 20 anos de distância, data que ajuda a esticar o pensamento, mas não tão longínqua a ponto de não a conseguirmos visualizar. O silêncio é absoluto, e a Natureza mostra-se boa conselheira. Ao final da manhã, chegamos a Pazo de Bendoiro, uma casa nobre de paredes de granito, originária do século XVI, convertida ao turismo rural, com decoração rústico-chique, um luxo para estes peregrinos de roupas simples e gastas. Somos acolhidos com um belíssimo e requintado almoço, regado com Albariño (e um ou outro orujo, a aguardente de ervas), e a tarde é para descomprimir. Ao jantar, somos convidados a partilhar com o grupo a carta redigida horas antes. É palpável a coragem de Ana, 37 anos, a minha companheira de quarto, vinda de Torres Vedras, quando agarra no papel e enfrenta as inseguranças. Mais tarde, confessa: “Os exercícios podiam ser cansativos, mas o programa ajudou-me a estabelecer prioridades e a perceber o quanto negligenciava certos aspetos da minha vida.” Ninguém fica indiferente ao momento. “Posso até não me recordar das palavras, mas a emoção da vossa leitura ficará comigo para sempre”, reconhece Pedro, um dos peregrinos, no final.

6.º dia Experiências que mudam vidas
A alternância entre caminhadas mais fáceis e outras mais exigentes perdura, e a que nos leva até à pequena aldeia de Dornelas reserva um cenário carregado de tons de verde, muitas vezes desviando-nos do Caminho de Santiago, assinalado por setas amarelas, que acompanha o trânsito da estrada nacional. À passagem por um túnel, improvisa-se um Festival Eurovisão da Canção, entre Portugal e Ucrânia, com a nossa equipa a dedicar o momento a Dina, autora de Há sempre música entre nós. Certamente a cantar não estamos sós... E assim o tempo passa mais célere, até chegarmos à Casa das Leiras, o albergue privado, gerido por uma família de peregrinos italianos. Andrea Anarcora deixou um emprego seguro na área das novas tecnologias após ter feito o Caminho de Santiago. “Quando regressei a Milão, a sociedade andava a uma velocidade diferente da minha e logo procurei algo diferente... A vida é demasiado curta para fazermos algo que não queremos”, recorda. É difícil desviarmo-nos do olhar intenso, enquanto partilha a sua história. Na segunda experiência como peregrino, veio acompanhado da mulher, Cristina Leiras, e mal viram esta casa à venda, entregue ao abandono, souberam que era o futuro lar e o lugar onde poderiam acolher outros como eles. “Viajei pelo mundo e agora é o mundo que me entra pela casa adentro”, conta. Sem televisão, nem wi-fi, apenas uma longa mesa partilhada por pessoas de todas as nacionalidades a promover as conversas. Cristina é uma cozinheira de mão-cheia, e as massas e bolos deixam o grupo feliz. As camaratas, nem por isso.

7.º dia Planos trocados
Voltaremos à questão do conforto no sétimo dia. A dormida prevista em Pazo de Galegos é trocada, por erro dos proprietários na reserva, por um simples almoço. A visão da casa senhorial, rodeada por vinhas centenárias – gerida por Don Manuel Cebeiro, com pose de lorde inglês, conquistada nos anos passados em terras de Sua Majestade – deixa marcas. E por muito simpático que seja o albergue Reina Lupa, a alternativa encontrada por João, o nosso mentor, é difícil gerir as expectativas. Andrea Anarcora, o italiano com quem trocámos impressões sobre as diferenças entre um peregrino e um “turisgrino”, sempre de telemóvel registador, teria certamente algo a dizer sobre isto.
Nada parece estragar o ânimo de Pedro, consultor, lisboeta, de 52 anos. Até ao último momento, hesitou participar na viagem. “Hoje, penso que foi das boas decisões que tomei”, confessa. Perguntador assumido, conversador incansável, faz imensos retiros, conhece inúmeras metodologias de desenvolvimento pessoal e gosta de se desafiar com novas experiências. Os Caminhos de Santiago eram um sonho adiado, e participou nesta Walking Mentorship, sobretudo, por motivos espirituais. “Estou a adorar cada paisagem, cada abraço a uma árvore, cada minuto de conversa... É um break absoluto na minha vida”, admite. Enquanto cética de serviço, dá-me um gozo particular assistir às suas leituras de sinais, vindos sabe-se lá de onde. Posso não estar sintonizada com estas questões da fé, mas no peito de uma desafinada também bate um coração.

8.º dia Entusiasmo da chegada
No último dia, caminhamos sozinhos até Santiago de Compostela. “A dinâmica coletiva pode ampliar a experiência e tudo o que acontece a nível das relações é um bónus interessante, mas o que fica, sempre, é um plano individual”, considera João Perre Viana. O ponto de encontro fica marcado para a Praça do Obradoiro, a mais famosa da capital galega, com peregrinos de todos os cantos do mundo. Mal avistam os pináculos da catedral, não contêm o entusiasmo. Oksana, perdida nos acessos ao centro histórico, é a última a chegar. O momento é selado com um abraço coletivo, palmas, risos e lágrimas. No que me diz respeito, estou exausta, feliz e grata por esta experiência. Durante o jantar, preparado por todos no apartamento onde passaremos a noite, com o templo à espreita nas janelas, sucedem-se os discursos. “Foi a melhor experiência da minha vida”, confessa Ana. “É como se fôssemos oito fatias de um bolo, não podia faltar ninguém”, acredita Viktoria. “Parecemos uma grande família”, acrescenta Olena. “Há um sentimento extraordinário de me reconhecer em cada um de vós, seja nas vossas histórias ou nas vossas personalidades”, admite Pedro. Uma das frases de João, repetidas ao longo do caminho, ficará guardada para sempre, assim mesmo, na língua franca: “Keep walking with me.” E não se deixem distrair pela vida.

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