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"As pessoas querem fazer tudo muito perfeitinho, mas esqueçam isso, é tudo imperfeito"

Atualidade

Marcos Borga

Nuno Artur Silva deixou a administração da RTP há pouco mais de um ano e prepara-se, agora, para regressar aos palcos com um espetáculo de (quase) stand-up comedy. Sem freios, defende o direito a ofender e não foge à questão sobre quem é o melhor humorista da atualidade

Vânia Maia

Vânia Maia

Jornalista

Nunca se regressa exatamente ao mesmo sítio, começa por dizer Nuno Artur Silva. Aos 56 anos, o autor e argumentista está de volta ao escritório das Produções Fictícias, em Lisboa, após ter ocupado o lugar de administrador da RTP com o pelouro dos conteúdos – a manutenção da sua participação na produtora foi apontada como a razão da sua não recondução no cargo. Em 2015, depois do convite para a estação pública, viu-se obrigado a interromper as apresentações do seu primeiro espetáculo de (quase) stand-up comedy. Agora, tornou-se inevitável perguntar “Onde é que eu ia?”, o título da “maluquice” que irá levar ao palco do Capitólio, em Lisboa, nos dias 8 e 9 de novembro, e que andará em digressão pelo País no próximo ano. O ilustrador António Jorge Gonçalves volta a ser seu cúmplice num espetáculo sobre “a vida em geral mas, sobretudo, sobre a vida em particular”. O também fundador do espaço humorístico mais experimental da televisão por cabo nacional, o Canal Q, está a comissariar a homenagem ao filósofo Eduardo Lourenço da Feira do Livro do Porto, que se realiza em setembro. E também prepara um dia temático na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, sobre o que nos faz gostar tanto de histórias. Admirador do escritor Jorge Luis Borges, é um músico o artista que mais lhe enche as medidas: Caetano Veloso, com quem conviveu à boleia da operação “Salvador Caetano”, que juntou o único vencedor português do festival da Eurovisão, Salvador Sobral, e o compositor brasileiro no palco da final do concurso realizada em Lisboa. Uma espécie de festa de despedida da RTP, uma das protagonistas inevitáveis do novo espetáculo.

Onde é que eu ia? nasce dos blocos de notas que o acompanharam nos últimos anos. Aconteceram-lhe assim tantas coisas extraordinárias?
Os últimos anos da minha vida tiveram reviravoltas de argumento muito engraçadas… O ponto de partida são as histórias que posso contar à luz da minha experiência. A RTP foi a última grande experiência e, agora, olho para ela de uma maneira mais livre. Conto, através do meu olhar, o que lá se passou – espero que com alguma graça –, mas também falo de tudo aquilo que tenho feito e do que está a acontecer connosco e com o País. É um pouco uma conversa sobre o nosso tempo.

Essa liberdade em relação à RTP vai indispor algumas pessoas?
Não posso indispor mais gente do que aquela que já indispus… Mas a RTP é só uma parte do espetáculo e, sinceramente, sinto que já está lá atrás. Quando saí, muita gente me perguntava se ia voltar a fazer aquilo que já tinha feito, mas ainda não estou na fase Casino Estoril, a cantar os greatest hits, apetece-me fazer coisas novas. Isto é uma maluquice, fazer um espetáculo a solo, eu, que não sou comediante. Toda a minha vida fiz coisas que as pessoas me aconselhavam a não fazer.

Fazer o que lhe dizem para não fazer é um mantra?
Nesta fase, não tenho nada a perder. Não posso tornar-me uma caricatura de mim próprio e, depois de tudo o que já fiz, voltar a andar com os cómicos a tentar encontrar trabalho para todos… O meu último ano tem sido a trabalhar em projetos, alguns deles nunca os fiz antes, e isso passa por arriscar. Sintetizando, divirto-me a mudar o que escrevo quando me pedem a profissão.

Ainda responde que é artista de variedades?
Artista de variedades diverte-me imenso. Essencialmente, acho que sou um autor, tenho ideias. O meu problema é que não sou exatamente uma coisa… Não sou exatamente um stand-up comedian, não sou exatamente um conferencista, se calhar também não fui exatamente um administrador da RTP…

Mas gosta de arriscar?
Tenho imenso prazer no risco. As coisas que me dão mais gozo são aquelas que, quando as aceitei, não tinha a certeza se seriam boas ideias.

Coleciona blocos de notas desde a adolescência. Qual o papel que desempenham na sua vida?
Às vezes, vou lá buscar ideias antigas que são bons pontos de partida para o meu trabalho. Também me ajudam a lembrar coisas de que já me tinha esquecido. Os blocos de notas têm observações de outro tempo, que vistas à luz do presente ganham outra força. É também material de autoconhecimento. Em todos os momentos da minha vida em que as coisas correram pior, mesmo quando morreram pessoas e eu estava muito triste, a escrita foi sempre uma espécie de reinício do caminho. Tudo o que fazemos é um bloco de notas, mesmo a obra mais acabada. As pessoas querem fazer tudo muito perfeitinho, mas esqueçam isso, é tudo imperfeito.

Então não é perfecionista?
[Hesita.] Sou. [Risos.] Sou, mas não vivo nessa angústia. Antigamente, uma das coisas que me custavam horrores era que nunca estava satisfeito e, por isso, nunca mais entregava os textos. Depois de começar a trabalhar em televisão, quando o Herman me pediu para escrever os textos de abertura dos programas dele, tinha mesmo de os entregar. Sofria e vomitava com o stresse, porque achava que aquilo não era suficientemente bom. É sempre possível fazer melhor, mas o facto de trabalhar há muitos anos fez-me substituir o “podia ser melhor” pelo “demos o nosso melhor”. Sou um perfecionista com a consciência de que seremos sempre imperfeitos.

Diz que este espetáculo é uma espécie de discurso do 10 de Junho mas, ao contrário de João Miguel Tavares, que presidiu às comemorações, pede qualquer coisa em que acreditar a si próprio e não aos políticos…
Sim, não vou entregar essa tarefa aos políticos, era só o que faltava pedir a outras pessoas para me darem qualquer coisa em que acreditar. É uma espécie de 10 de Junho de mim próprio, mas não é um espetáculo sobre mim, isso não teria interesse nenhum, é um espetáculo que, a partir de algumas coisas que me foram acontecendo, fala do percurso das pessoas e do País.

O artista António Jorge Gonçalves estará a desenhar em tempo real ao longo do espetáculo. Foi sempre a banda desenhada a unir-vos?
A banda desenhada primeiro e, depois, uma enorme amizade. O Jorge é um dos meus amigos mais próximos – não há muitos. Além disso, é um dos maiores artistas que conheço. Há 25 anos, a banda desenhada do Filipe Seems foi o nosso primeiro grande encontro criativo. A partir daí, ficámos não só parceiros, mas amigos para a vida. O mais engraçado é que o Filipe Seems morava numa casa no Castelo [em Lisboa] e, hoje, vivemos ambos na mesma rua no Castelo. Na segunda história ainda tentei pôr o Filipe Seems a viver num palacete em Sintra para ver se acontecia qualquer coisa, mas continuamos no Castelo…

Há pouco, falávamos do poder salvífico da literatura. E o humor, também salva?
Claro, o humor é uma pequena dose de felicidade temporária. Lembro-me de a Amália Rodrigues contar, no maravilhoso documentário que o Bruno de Almeida fez sobre ela, que estava muito deprimida, em Nova Iorque, e pensou em matar-se, mas na televisão apareceu o Fred Astaire a dançar e ela esqueceu-se de que queria suicidar-se. O humor é sabermos que estão a acontecer coisas terríveis mas, por um momento, podermos dançar.

Quem é o melhor humorista da atualidade?
Inegavelmente, o melhor humorista desta geração é o Ricardo Araújo Pereira. Mas por que razão temos sempre de escolher o melhor? O Ricardo não é o mais internacional, se considerarmos o André Carrilho e o João Fazenda, por exemplo, que fazem caricatura para jornais americanos. E como não admirar uma pessoa como o Herman, que está a saber reinventar-se, e anda há não sei quantos anos a fazer rir toda a gente? Quando comecei a trabalhar, havia muito pouca gente e muito poucos géneros de humor; uma das minhas razões de alegria é ver que hoje já não é assim.

A avaliar pelo espetáculo O Gosto dos Outros, em que convidou uma série de figuras públicas para apresentarem as suas preferências na Fundação Calouste Gulbenkian, diria que gosta muito de listas. É a ânsia de partilhar o que se ama?
São uma forma lúdica de arrumação do pensamento. O Umberto Eco era outro fanático por listas e o Nick Hornby tem aquele livro Alta Fidelidade, que depois deu um filme, também sobre listas. Quando me perguntam quais são as dez melhores músicas para andar de carro, é uma brincadeira, mas obriga-me a pensar e dá-me gozo. Também não podemos levar as listas demasiado a sério…

As listas podem ser vistas como um exercício de exibicionismo?
Claro! Antigamente, os intelectuais diziam “agora, no verão, vou aproveitar para reler o La Recherche” [Em Busca do Tempo Perdido, clássico de Marcel Proust dividido em sete volumes]. As listas são o novo snobismo, são o snobismo dos pobres; hoje qualquer miúda ou miúdo põe nas redes sociais os livros que vai ler nas férias, depois claro que não lê nada daquilo, e muitos intelectuais também não leem…

“Quando vamos a uma cidade, entramos muito mais na sua mitologia do que nas suas ruas reais”, escreveu. Lisboa está a saber contar a sua história?
A melhor maneira de combater a turistificação é construir novas histórias. No fundo, é fazer nova música. Por isso, o que a Madonna fez foi muito inteligente, ela juntou-se ao melhor da Lisboa de hoje. O guia dela não poderia ser mais português. O Dino D’Santiago é que devia ter feito o discurso do 10 de Junho. Um rapaz que veio de Quarteira, os pais estão em Cabo Verde, e ele chegou a Lisboa, juntou-se com músicos diversos, e fez um álbum com uma canção chamada Nova Lisboa. O Dino é o melhor exemplo do que é hoje Lisboa, para lá do turismo.

Vive no centro da cidade. Há excesso de turismo?
O grande problema de Lisboa é a gentrificação, mas acho que começa a ser combatida, talvez ainda não com a intensidade necessária… Agora, quando eu me mudei para o centro, estava tudo a cair aos bocados e só lá viviam velhos. Hoje, saio à rua e vejo cafés, pessoas de todas as nacionalidades e prédios recuperados. Há muitas lojas de pechisbeque, é verdade, há demasiados hotéis, é verdade, há o risco de isto vir a ser turistas a olhar para turistas, é verdade, mas tudo considerado, ainda estamos numa fase muito melhor do que era.

Costuma dizer que se sente mais lisboeta do que português. Porquê?
Sou português, mas sinto-me mais lisboeta, sinto-me mais da língua portuguesa. O melhor dos portugueses é, passo o paradoxo, quando somos menos portugueses e mais do mundo. Podemos ser uns ótimos intermediários a juntar pessoas à mesma mesa, conseguimos conversar com África, com a América, com a Europa… Lisboa é uma das cidades mais interessantes do mundo por causa disso.

A narrativa dos “portugueses do mundo” tem contribuído para o branqueamento da violência da História de Portugal?
Branqueamento é uma boa palavra… É tão absurdo dizer “tenho orgulho nos Descobrimentos”, como dizer “tenho culpa da escravatura”. O que tenho eu a ver com isso? É uma das razões por que não sou católico: o que tenho eu a ver com a culpa e com Cristo me ter salvado? Por mim, não precisava de se ter incomodado. Acho incrível caminharmos nos mesmos sítios onde caminhou Fernando Pessoa, ir ao Terreiro do Paço e sentir que aquele foi o local mais movimentado do séc. XVI, onde chegavam caravelas e, claro, havia escravos. Vivemos com isso como convivemos hoje com outras atrocidades.

Mas a História tem impacto no presente…
Quem dominar o presente, domina o passado. É preciso que a leitura que se faz do que aconteceu seja justa e não excessivamente épica ou excessivamente autoexpiatória, mas as novas gerações vão concentrar-se no que está a acontecer aqui e agora. Posso ter orgulho na minha comunidade próxima, por exemplo, por viver num país onde há Estado social, ou ter vergonha por ainda haver touradas. Lamento que a RTP as transmita, mas é preciso interpretar o interesse público, e a verdade é que uma parte da sociedade portuguesa considera as touradas uma tradição. Pessoalmente, acho uma barbárie pura.

Em tempos de “factos alternativos”, assistimos a uma desvalorização da importância dos intelectuais. De onde vem esse movimento contra a intelectualidade?
Os intelectuais eram chatos… [Risos.] A dada altura, havia muito aquela coisa “vem aí o grande intelectual, deixa ver o que ele diz”. Obviamente, ninguém tinha paciência para isso. O “esquece lá o intelectual” começou por ser salutar – foi um bocado o que o punk fez ao rock sinfónico. [Risos]. Agora, caímos no extremo oposto, em que precisamos de referências, um bocado como aconteceu na política. O Mário Soares escreveu um livro com um título acertado antes do tempo: Elogio da Política. Numa altura em que toda a gente faz um discurso populista, dizendo que os políticos são todos uns bandidos, é essencial valorizar o serviço público. Há muitos vigaristas pelo meio, mas também há muitos bons políticos e é desses que precisamos mais do que nunca.

Faz sentido responsabilizar os humoristas por perpetuarem estereótipos e preconceitos?
Sou um feroz defensor de que não deve haver barreiras para o humor. Quando o humorista deixar de fazer uma piada porque vai ofender alguém, está perdido. É absolutamente necessário ter o direito de ofender, tal como o direito de ficar ofendido. É muito difícil fazer humor sem ofender quem quer que seja. Se o humorista viver de ofender, eu tenho o direito de dizer “não gosto do teu humor, é racista, ofensivo, perpetua estereótipos…”. Agora, eu vou dizer que não pode fazer isso? Nunca! Faz isso e eu não vou ver. Fica a falar sozinho.

A liberdade de expressão deve ser total, mesmo que inclua discurso de ódio?
É um disparate exigir que se censure o texto da [Maria de Fátima] Bonifácio [que escreveu uma crónica de cariz racista no jornal Público]. De repente, está toda a gente a discutir o racismo. Não era uma boa discussão sobre isso que precisávamos? O texto cumpriu bem esse papel. Se aquela pessoa diz uma barbaridade, eu tenho o direito de a rebater. O princípio da proibição da publicação é um princípio tão mau como aquilo de que estão a acusá-la, o próprio racismo. O limite é quando se diz que é preciso matar aquele tipo. Obviamente, isso tem de ser proibido. Claro que no contexto humorístico, quando se diz isso não é para levar a sério...

Quais são as principais ameaças à democracia?
A crise climática será o gatilho de muitos problemas e andamos todos a dormir. O mais brutal do que está a acontecer no Brasil não são os Direitos Humanos. Como otimista que sou, acredito que os Direitos Humanos regressarão, mas a Amazónia não será recuperável. Este, para mim, é o problema mais transversal e mais terrível de todos. O segundo problema, que será sempre agravado pelo primeiro, é a desigualdade social. Quando se compromete a existência de uma classe média forte, a opinião pública tem menos poder e a capacidade de combater as injustiças diminui. Em Portugal, é absolutamente necessário investir nos serviços públicos, dar mais força à classe média, tirar as pessoas da pobreza, aumentar os rendimentos mínimos…

Defende uma política de esquerda?
Absolutamente. Sinto-me cada vez mais de esquerda, no sentido em que ser de esquerda é defender o Estado social e ter como prioridade acabar com a desigualdade. Obviamente, para isso é preciso o desenvolvimento da economia, mas o objetivo principal não é esse, é acabar com a desigualdade social. Estamos sempre a ouvir dizer que precisamos de crescer mais. Será que precisamos? Traz-me empregos, dizem. Mas não podemos pensar uma sociedade mais sustentável? Gostava que a esquerda pensasse nisso muito a sério. Só houve uma vez que não votei à esquerda, foi na candidatura de Gonçalo Ribeiro Telles a Lisboa. De resto, sempre votei à esquerda. E, pelos vistos, continuarei a votar.

O jornalismo perdeu relevância na vida das pessoas ou a crise dos média está circunscrita ao modelo de negócio?
O jornalismo perdeu relevância porque o entretenimento comeu tudo. A morte do jornalismo começa quando o que se puxa para a primeira página não é o que é mais relevante, mas o que vende mais. Durante muito tempo, andámos a tentar equilibrar, abria-se com a notícia que atrai mais gente e, lá pelo meio, punha-se a mais relevante. Ora, isso torna-se impossível a partir do momento em que as pessoas deixam de consumir televisão de forma linear, ou seja, quando deixam de estar sentadas à espera das notícias. Agora, recebem alertas, estão nas redes e escolhem o que querem ver.

Qual é a solução?
Não há uma solução para o jornalismo, há várias. Terá de acontecer aos jornais o que aconteceu ao audiovisual, ou seja, em Portugal só vão sobreviver com apoios. Apoios que podem ser do Estado – é irónico, nós andámos muitos anos a dizer que os média tinham de ser privados para fugir ao controlo do Estado, mas e o controlo das corporações? Quem me garante que os privados são mais livres do que o público de fazer determinadas notícias?

À VISÃO, o primeiro-ministro afastou a possibilidade de o Estado apoiar a Comunicação social…
Se a democracia precisa de jornais, o Estado tem de cobrar uma taxa qualquer para que se paguem projetos jornalísticos, não haverá outra possibilidade. O jornalismo independente é indispensável.

Há tempos, confessava numa das suas crónicas não saber lidar com os inimigos. Antes de ter sido administrador da RTP, estava pouco habituado a eles?
Tinha alguns inimigos, mas é uma questão de escala, eu trabalhava numa pequena escala e passei a trabalhar numa escala enorme. Mau seria não ter feito inimigos, significava que não tinha realizado nada de suficientemente transformador. Quando olho para os nomes daqueles que são meus inimigos, se eu tivesse dúvidas, fico com a certeza de que estou do lado certo da força.

Este espetáculo também é sobre o sentido da vida. Ficou mais perto de descobrir qual é?
Fiquei mais perto de saber que não sei.

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