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Bem-vindos à rua mais castiça da Caparica

Atualidade

José Carlos Carvalho

Passámos na Rua 15 da Costa da Caparica, vivendo ao ritmo deste condomínio ao contrário. Aqui não há carros, as portas quase nunca se fecham e o convívio é uma obrigação. Bem-vindos a este pedaço de genuinidade que os turistas adoram visitar

Rua 15 és a maior
O teu nome bem te fica
Tens as mais belas peixeiras
Da Costa da Caparica

“Merda, muita merda!” É com esta expressão, sempre trocada entre atores, que Bia e Manuel Ribeiro se despedem da vizinhança, ao final da tarde, antes de deixarem a rua Mestre Damião, de mão dada. O casal não vai longe para ensaiar a peça Omeleta à Molière, que subirá ao palco do teatro da Gandaia, na Costa da Caparica, dentro de horas – daí o calão que dirigiram, em tom de gozo, aos seus amigos. Todos afinaram pelo mesmo diapasão, embora hoje não se preparem para apreciar a atuação dos atores porque já estiveram na estreia, a aplaudir.

Nessa altura Rute Faria, 48 anos, instiga-nos a aceitar uma “mini” para descansarmos do dia de trabalho e a dar dois dedos de conversa com alguns dos moradores da Rua 15, uma espécie de condomínio fechado, mas ao contrário. Com ela, na “esplanada” de sua casa, estão as irmãs Cristina e Margarida, de 55 e 57 anos, suas primas, e passam o tempo a trocar galhardetes entre elas. Conta-nos então que foi “criada assim, neste permanente convívio”, sempre que vinha ter com a avó. Hoje, vive aqui sozinha e é a dinamizadora das animadas festas de sábado à noite, em que ainda se juntam mais pessoas ao redor da mesa, se ouve música, se canta e se bebem uns copos. “Damo-nos todos bem e ninguém nos chateia por causa do barulho.” Glória, 78 anos, está mais afastada, mas ri-se profundamente das piadas da vizinha, sob o olhar do filho Luís que passa por aqui todos os dias para a tirar de casa.

A meio da conversa, Rute vai buscar a t-shirt que este ano mandou fazer para todos usarem na noite de São João. À frente, lê-se “eu sou boa”, e atrás “elas também”... as sardinhas, claro. Na tenda verde que usa para proteger a mesa, ainda restam balões, luzes e bandeirolas dessa época. Estes são apenas pormenores da grande festa da Rua 15, que até tem marcha própria. E também mantém a tradição de uma enorme fogueira, à tulha, que se acende em cima de areia da praia, para que o piso não se estrague.

Uma semana antes do 24 de junho, já os moradores andam de cócoras a retocar as pinturas do chão para acentuar a marca que distingue esta rua das outras da freguesia. Se não houvesse mais nada que a destacasse, a vivacidade das cores que salta à vista mal aqui se entra já seria bastante – talvez por isso as tintas sejam patrocinadas pela junta de freguesia. Aqui, até os tanques que ainda existem em frente de quase todas as casas estão decorados, sempre com tons alegres e dizeres divertidos.

Neste bairro pitoresco
Cheio de velhas tradições
Com o cheiro das marés
Dá vida aos corações

À medida que caminhamos por esta rua adentro, vamos pisando desenhos naïf – flores, barcos, golfinhos, corações –, declarações de amor, nomes dos donos das casas e quadras que homenageiam o bairro, as pessoas, os pescadores, a Costa da Caparica.

À porta da casa do Gato Preto (o nome verdadeiro é José Manuel Costa Santos, mas a maioria desconhece), 70 anos, e de Laura, 62, há uma enorme rima que se desenrola sobre as alcunhas masculinas do bairro. Por pouco, a mesa e o enorme chapéu que lhes coa o sol mais inclemente tapavam esses dizeres.

Vem o bom tempo e a vida faz-se toda da porta para fora. As casas são pequenas, ilegais (apesar de o terreno ser da câmara) e cada uma da sua nação. Antes, os pescadores que para aqui vieram, há mais de 50 anos, deslocados por causa da construção do hotel Praia do Sol, tinham barracas de madeira e estorno. O chão que hoje dá alma à rua era apenas terra batida misturada com os detritos que se mandavam cá para fora, quando ainda não havia saneamento (água, luz e esgotos só chegaram, lentamente, depois do 25 de Abril).

Laura e Gato Preto ainda estão a limpar as mãos do leitão que acabaram de comer, com o filho Pedro que, como é realizador da RTP e tem horários diferentes, consegue almoçar com os pais muitas vezes. O neto Duarte, de 12 anos, anda “prá aí”, sem que ninguém se preocupe com isso. Na verdade, está sentado no chão, umas portas atrás, com meia dúzia de amigos, a jogar às cartas. Estes pré-adolescentes brincam na rua, meios descalços, sem pensarem em carros, porque eles não existem, ou em horas seja para o que for. Durante esta tarde ainda hão de andar muito nos vários modelos de skate, jogar às escondidas, entrar e sair de suas casas, trocar bons dias com os vizinhos.

Gato Preto já foi pescador, mas deixou o mar há quatro anos. E também os trabalhos de carpintaria. Todo o interior da sua casa, construída pelo irmão pedreiro, saiu das suas mãos, desde a escada para o andar de cima à mesa da pequena sala, passando pelos armários da cozinha. Até há pouco tempo, ainda passava as tardes na carpintaria, que fica num pequeno beco quase em frente à casa, a petiscar com os amigos, de frente para os calendários com mulheres nuas e os vários exemplares arrojados de loiça das Caldas. Ao som da Rádio Amália, só podia.

Deste tanto de beber
A água que o povo gosta
Tu deixas tantas saudades
Ao nosso povo da Costa

Quem dava de beber a esta gente era o chafariz que fica mais ou menos a meio da rua, recuperado pela junta em 1994, que lhe acrescentou uns azulejos para o embelezar. Hoje, o povo reclama que o monumento, chamemos-lhe assim, necessita de outro retoque. Por aqui pode atravessar-se na direção da escola ou ir para o outro lado, passando pelos antigos pombais hoje pintados de azul, sem um único animal lá dentro. E há quem o faça, apenas para cortar caminho, sem sequer reparar que está a cruzar uma rua especial. E nem se dá conta de os habitantes andarem quase todos de chinelos nos pés, fato de banho ou calções ou mesmo em tronco nu. Cumprimentam-se pelo nome, trocam dois dedos de conversa, assomam-se às janelas sempre que a movimentação é maior do que o costume.

Mas se há quem repare nisso tudo e em muito mais é Joana Silva, 31 anos, que há pouco mais de um ano criou a empresa Varina Bike Experience para organizar passeios em bicicletas elétricas por zonas menos óbvias da Costa. E, já se está mesmo a ver, não há turista que fique sem conhecer a Rua 15. Nesta tarde, a clientela resume-se a Francesca, uma italiana a viver na Alemanha, de 35 anos, e a sua amiga Elizabeth, uma norte-americana de Nova Iorque, com 42 anos. As explicações dão-se em inglês, embora às vezes seja difícil traduzir o que se passa realmente neste pedaço de bairro, cheio de histórias.

“Olá minha senhora, como está a sua nora?” A senhora é Aida Ribeiro, 88 anos, que, ao sentar-se sempre numa cadeira amarela de esplanada, à sua porta, a primeira da rua, do lado esquerdo, parece receber quem aqui entra. Poderia ser mesmo assim, porque esta é a sua morada desde há mais de meio século. “Gosto do pessoal, é quase como uma família, a bem dizer.” Durante muitos anos, vendeu peixe no mercado, como quase todas as mulheres deste bairro. E esse era o sustento único da casa, pois o marido morreu-lhe aos 46 anos – ainda hoje a voz se lhe embarga ao contar-nos a fatalidade. O filho é quem cuida dela, que “a saúde já não está boa”.

As duas estrangeiras estão especadas a olhar para a casa-mausoléu de João Manuel. Compreende-se: os moradores pintaram-na com palmeiras, golfinhos, flores e muitas palavras a enaltecer este filho da terra, que já morreu. E tem, como muitas outras moradias, um azulejo com o São João, o patrono. Diz quem o conheceu que ele era a alma das festas populares, que até já trouxeram a cantora Dulce Pontes a este cenário. No inverno, João Manuel transformava o chafariz em gruta e enchia-o de bonecos do presépio.

Nas festas da Rua 15
Ele era sempre o maior
Era músico e maestro
E também cantor


Fernanda Marisol, 73 anos, vive presa às memórias do rancho em que andou quando era nova. As letras, ainda as cantarola, “sempre que brilha o sol naquela praia”, enquanto queima os dias aproveitando a luz do verão, junto ao muro de sua casa. O filho, com quem vive, não está, saiu para trabalhar.

Francisco Botelho, 61 anos, já não sai para trabalhar. Vive aqui desde que nasceu, andou à pesca, na arte xávega, como todos os miúdos mal cresciam um bocadinho. Agora, pré-reformado da EDP, ainda tem energia para andar de bicicleta, ir à praia, passear os dois cães, ler e ouvir música. Quanto à sua rua, sente que está a descaracterizar-se, por culpa das pessoas que alugam as casas e assim permitem que forasteiros estejam por aqui uns dias como se fossem nativos. Além disso, “havia muito mais putos e andava-se sempre fora de portas”. E ainda discorre sobre o suposto espírito de bairro que é “só da boca para fora”.

Na mesma onda de apontar os defeitos à sua morada, lamenta que quase já não tenha vizinhos pescadores. “Isto dantes estava cheio de gente que andava no mar, agora fogem dele, que essa vida não dá garantias.” Realmente, há pouca gente dedicada à faina e ainda menos gente nova. Mas Fábio Santos, 28 anos, está cá a morar há dois para contrariar as estatísticas. Ao se casar, deixou o bairro vizinho e mudou-se para a rua que conhece desde pequeno. Fábio tem “um filho cá fora de 2 anos e outro na barriga”. Mais logo, quando a noite chegar, há de sair para o mar, em busca de cavala, e só regressará a meio da tarde do dia seguinte. Por agora, aproveita para pôr a conversa em dia e fumar um cigarro, sentado em cima do tanque que está à porta da casa Pataquinho, onde vive, que se divide em quatro apartamentos pequenos.

Lídia Martins, 50 anos, está de avental posto, a cozer as batatas para o jantar. Sabemos isso porque a janela da cozinha dá para a rua e, como a porta está entreaberta, entramos quase sem nos fazermos anunciar. António (conhecido por Calita), 48 anos, desce as escadas assim que a mulher lhe diz que queremos falar com ele. Não traz logo a miniatura que fez do seu barco, mas há de subir outra vez para a buscar. Notam-se as marcas de uma vida dura, sempre ligada ao mar, como se de uma herança familiar se tratasse. “Lembro-me de vir da escola a correr para ir para a praia, colher a corda. Depois, íamos subindo de escalão à medida que crescíamos. Aos 17, comprei o meu primeiro barco.” Lídia viveu sempre nesta casa, nesta rua, e daqui não quer sair. Ela também se habituou a ajudar os homens na pesca, em terra. Mas agora é cuidadora da mãe, que está com demência. “Aqui ainda se usa muito o fogareiro e ninguém implica com ninguém”, lembra, enumerando uma das vantagens do bairro.

Ó Costa da Caparica
Terra onde nasci
Serás para sempre por mim amada
Primeira praia que eu vi

O dia começa a cair. Manuel Ribeiro e Bia, 65 anos e 61 anos, já saíram da rua para interpretar as suas personagens. Gato Preto montou o para-vento e prepara-se para jantar mais uma vez cá fora. Laura, a mulher, borda uma fralda em tons de cor-de-rosa e adivinhamos que é para a filha que está na barriga da mulher de Fábio. Um nadador-salvador chega da praia, dando ao pé para que o seu skate o transporte mais depressa. Na corda que está na porta de casa de Aida secam umas cuecas brancas enormes. Ao lado, transporta-se um frigorífico para uma carrinha. Uns recolhem às suas tocas, outros aparecem dos trabalhos – há sempre gente a vaguear na rua, com quem se pode trocar algumas palavras, além do obrigatório cumprimento circunstancial. A praia está a dois passos, mas esse não é o destino mais provável para os habitantes da Rua 15, que preferem gozar o verão no sossego das suas esplanadas, enquanto convivem uns com os outros.

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