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Entrevista a Rui Zink: fascismo, Acordo Ortográfico e trotinetas

Atualidade

José Carlos Carvalho

"O fascismo é muito parecido com a estupidez de um divórcio litigioso – leva a uma volúpia de destruição, mesmo que algo nos diga para termos cuidado, porque vai acabar mal para ambos", diz o escritor, em entrevista à VISÃO

Rui Zink teve agora dias agitados mas saborosos. Em França, foi editada a sua novela Osso, com o título O Terrorista Feliz. E, na Alemanha, saiu o seu romance A Instalação do Medo, com que ganhou o Utopiales, prémio literário francês. Mas o que o traz a esta entrevista à VISÃO é a sua última obra, Manual do Bom Fascista (ed. Ideias de Ler, 176 págs., €15,50), que chegou agora às livrarias. É um ensaio recheado de elementos cómicos, com apresentação a condizer: Rui Zink, 58 anos, promete-nos, “com amor e carinho”, um escrito sobre “a ideologia que voltou para assombrar os nossos dias e, se não nos pusermos a pau, os dos nossos bisnetos”. O livro até inclui um “fascistómetro”, para ajudar os leitores a “serem fascistas bem-sucedidos” (teste disponível em visao.pt – arrisque...). A partir de uma confidência (“O tipo de pessoa divertida que julgo ser esconde uma grande angústia e um grande pessimismo”), Rui Zink esmiúça, nesta entrevista, as “pulsões fascistas” que, a somar a outras geografias, ele deteta entre nós: a violência doméstica, as ameaças do sindicato dos motoristas de matérias perigosas, o patrioteirismo de certos opositores do Acordo Ortográfico de 1990 ou o ódio à trotineta e à bicicleta.

Diz no seu livro que há “um bom fascista adormecido” dentro de todos nós, incluindo os “bem-pensantes”. Pode explicar melhor?
Não gosto muito de explicar os livros, isso faz parte do leitor. Senão, o fascista sou eu. Mas uma das teses que defendo é a de que o fascismo é uma fraqueza humana. E esse estado de fraqueza existe e está latente em qualquer ser humano. Se um dia voltar um tempo de fascismo, não é tipo um filme de extraterrestres, em que somos substituídos por pessoas más. Não, as pessoas más somos nós.

Mas o livro parece chocar contra uma parede, que é a nossa realidade política atual, em que há um Governo sustentado por um acordo inédito de partidos de esquerda, os quais, em vésperas de legislativas, aparecem nas sondagens com bons números, enquanto a extrema-direita surge com intenções de voto residuais...
Gostava de estar de acordo consigo. Está a falar de um desejo, está a ser otimista...

São factos.
Destruir é muito fácil. Quem teve filhos gastou imenso dinheiro e carinho com eles, preocupou-se muitíssimo, e sabe que, em qualquer momento, pode vir um idiota, numa discoteca, numa estrada, que de repente, num ataque de fúria ébria, destrói essas vidas. E isto é o pão nosso de cada dia.

Imagem forte, essa...
Dou então outro exemplo: quem tem filhos sabe que é muito fácil partir um copo. Isto para dizer que o estado de graça em que Portugal está, na minha opinião, não vai durar sempre, isso é garantido. Vê-se, aliás, na Comunicação Social um certo fascínio pelo aviso de que “OK, a crise acabou, mas agora vem aí a recessão, que é muito pior”. O medo está a voltar.

Vive atormentado?
O tipo de pessoa divertida que julgo ser esconde uma grande angústia e um grande pessimismo. Há três anos, não passava pela cabeça de ninguém que Donald Trump, um rufião ignorante, ganhasse as eleições. E os EUA encolheram, o que normalizou um discurso racista, xenófobo e estupidificante. O ódio às elites – entendidas como aqueles que leem livros, e não como aqueles que têm dinheiro – já leva milionários a dizerem que estão “ao lado do povo, contra as elites”. Há um ódio à inteligência e à alegria que avança como um tsunâmi. Veja-se os ataques a Greta Thunberg, uma miúda de 16 anos...

Receia que surja por cá alguma figura com as características populistas de Trump?
Figuras como Trump ou Bolsonaro, além de cómicas, são legitimadoras. Alguém votou nelas e alguém acha que assim é que deve ser. O que neste momento também temos no Brasil é ódio puro, que chega a Portugal. Os brasileiros que estão cá encontram-se divididos entre aqueles que são visceralmente pró-Bolsonaro e os que são completamente contra. Nenhuma das partes ouve a outra. Daqui a uns tempos, Bolsonaro, se calhar, até se vai arrepender do que tem feito, dizendo, a chorar: “Eu fiz sem querer.” É típico nos fascistas. Noutro plano, os maridos, na sua maioria, depois de matarem as mulheres, entregam-se à polícia. Ficam a choramingar, arrependidos da asneira, e sem perceberem o que os tomou. Tomou-os a pulsão fascista.

Desce aos subterrâneos para identificar essa pulsão…
Para mim, o fascismo é muito parecido com a estupidez de um divórcio litigioso. Por defeito de fabrico, ligo sempre o privado ao público, o particular ao geral. E a estupidez – que não só é fácil como se aproveita de um estado de fraqueza nosso, isto sem excluir ninguém, nem eu próprio – leva a uma volúpia de destruição, mesmo que algo dentro de nós nos diga para termos cuidado, porque aquilo vai acabar mal para ambos. E a volúpia de destruição é enorme e cega as pessoas.

Onde vê essa volúpia na dinâmica da nossa sociedade?
Já tivemos uns furiosos a imitar os Coletes Amarelos de França...

Autoextinguiram-se há dias.
Autoextinguiram-se para se transformarem noutra coisa. Não desapareceram, estão cá. Há neste momento uma força, a do ressabiamento, que não podemos subestimar. É uma força com vozes – e, por exemplo, políticos sem escrúpulos que veem que tão cedo não vão ascender ao topo podem sentir-se tentados a usar essa arma. Houve agora esta greve dos camionistas, a ameaçar “parar o País”, “destruir milhões”. Não estamos a falar só das férias das pessoas mas também de dinheiro; somos uma economia frágil e havia ali a tal volúpia destrutiva. Mesmo tendo razões boas – e não houve fascismo que não tivesse razões boas, até o nazismo as tinha: Hitler foi bom para a economia, construiu estradas, com ele as pessoas voltaram a ter empregos, os alemães deixaram de ter aqueles estrangeiros, que em parte eram como eles, mas não eram exatamente como eles, e que tinham tudo... Ninguém pôs nada na água ao povo alemão durante o nazismo. Não, eram pessoas simpáticas que estavam apenas preocupadas com a sua vida – e Hitler indicou-lhes um caminho.

No livro percebe-se que “um bom fascista” tem de ser também mesquinho.
Claro. Um exemplo: o ódio e a fúria dos portugueses contra a trotineta. Ocupam os lugares nos passeios, uma velhinha não pode passar, e muita gente se regozija quando pega na trotineta e a atira com violência. Acho um pouco estúpido as pessoas não usarem essa fúria contra algo que faz muito pior, que ocupa mais os passeios, que chateia mais gente e até mata, que são os carros. Há a incapacidade de perceber que a autossatisfação do ódio à trotineta e à bicicleta é, na verdade, o ódio ao fraco. Já agora, o sinistro no fascismo e na pulsão fascista é não requerer que sejamos muito sensíveis, sensatos ou ilustrados para conseguirmos ser bons. Quanto piores formos, e quanto pior for o nosso estado de alma, mais bem-sucedidos seremos.

Diria que o fascismo vem aí?
Não digo isso, mas há qualquer coisa a passar-se no mundo. Começámos por ter Duterte nas Filipinas, um animal novo. As ditaduras militares no Chile e na Argentina atiravam os opositores ao mar, de helicópteros. Mas não se gabavam disso. Já Duterte, Presidente de um país supostamente democrático, apoiado pelos governos ocidentais, gaba-se de atirar os inimigos de helicópteros ou de os matar ele próprio com uma pistola. Uma coisa é matar, outra é alguém gabar-se disso. Depois, há Erdogan, na Turquia, Orbán, na Hungria, Salvini, que em breve será primeiro-ministro italiano... Em Espanha, têm dois problemas de que não conseguem salvar-se: primeiro, a esquerda espanhola é um bocado burra e não se une. E têm o problema catalão que faz com que, aqui ao lado, haja prisioneiros políticos. Quanto a França, é provável que, dentro de dois ou três anos, a União Nacional, de Marine Le Pen, chegue ao governo. A teia aproxima-se e não é o “Portugalito” que vai conseguir resistir.

Preocupa-o o enfraquecimento da nossa direita democrática?
O meu medo não é de que a esquerda seja tomada de assalto. O meu medo é de que a direita democrática portuguesa entre num tal estado de fraqueza moral que se deixe comer por bandidos. Eu quero que a direita volte ao poder. Não gostei, mas já vivi com PSD e CDS no poder e fiz a minha vida. O que não quero é que isso aconteça depois de a direita ter dado tiros no pé e de ser usurpada por outro. Não me esqueço de que o PRD foi um partido fundado pelo general Eanes e de que hoje se chama PNR e é de extrema-direita. Era um partido com políticas certas e que, depois, foi comido por dentro.

O projetado Museu Salazar incomoda-o?
Não. A concretizar-se, assegura que este meu livro irá para segunda edição. E prova que, se não tenho razão, coisa que não quero ter, por vezes não estou por completo fora dela.

Supõe-se que, apesar de tudo, está satisfeito com a atual situação política nacional.
Pertenço ao número de pessoas que estão contentes com este Governo de esquerda. Mais: também estou contente com o nosso Presidente de direita. Marcelo e Costa fazem muito bem à saúde. Há uns tempos, falava com um amigo meu, o Manuel Serrão, e os dois estávamos de acordo, sendo ele de direita e eu de esquerda, que a diferença de Cavaco/Passos para Marcelo/Costa está em que estes, ao menos, não têm vergonha de ler um livro. E também não têm vergonha de ser políticos.

Diz no livro que “um bom fascista é politicamente incorreto”, o que até é bom, passe a expressão, para os nossos humoristas que se queixam dos ataques de vozes da esquerda, quando fazem, por exemplo, piadas com minorias étnicas ou sexuais…
São todos uns mariquinhas.

Quem?
Esses humoristas que se queixam. Isto também tem muito que ver com a pulsão fascista. Neste momento, há pessoas cheias de medo da misandria, que é o ódio ao homem. Uma das pequenas pulsões “fascistinhas” está na pessoa que cria fantasmas a partir de uma agressão imaginária, quando não reparou nas agressões que fez. Por acaso, o meu primeiro trabalho académico de fôlego foi sobre o José Vilhena. Trata-se do escritor, e humorista, mais censurado durante a ditadura, e nunca o Vilhena choramingou como esses indivíduos. Lembro-me sempre de uma cena de um filme do Bruce Lee. O mau parte uma tábua à frente dele, para mostrar que é muito forte. E o Bruce Lee apenas comenta: “As tábuas não se defendem.” Agora os paneleiros já não se deixam ficar, humilhados – ripostam. Um humorista a sério, em primeiro lugar, não bate nos mais fracos. Depois, fica contente quando alguém o critica. Que eu saiba, ainda nenhum humorista foi preso em Portugal depois do 25 de Abril. Se há um indivíduo que enxovalha pessoas, qual é o mal de ele ser também enxovalhado?

No livro, enfia quem está contra o Acordo Ortográfico de 1990 no saco dos “fascistas”. Isso não é excessivo?
É. Mas o meu livro não é um prodígio de razoabilidade científica. É uma pequena provocação. Enfia a carapuça quem quiser. Mas não digo que estar contra o Acordo Ortográfico é ser quase fascista. O que digo é que essa causa foi tomada de assalto por gente que não sabe ler nem escrever – que comete erros de sintaxe, que põe vírgulas entre sujeito e predicado... –, mas que de repente descobriu aí um ótimo pretexto para dar largas à sua xenofobia e ao seu patrioteirismo. E isso é uma pena, até porque tenho o maior respeito por uma série de pessoas que é contra o acordo.

Advoga que quem está a favor do acordo é o dono da razão?
Não sei quem tem razão. Sei é que o debate, que devia ser linguístico, virou para muita gente uma discussão patrioteira, sobre quem é o dono da língua. Acho isso muito estúpido. Devemos estar orgulhosos de uma língua que, por boas e más razões, é falada pelo mundo fora, mas não somos os donos dela. Só um idiota chapado é que acha que um povo que cabe num bairro, e dos mais pequenos, de São Paulo manda nesta língua. Mais do que caricato, é fascista. E lá está: no Brasil, os fascistas, Bolsonaro incluído, começam a dizer – “Em Portugal não querem o acordo.” E os de cá dizem o mesmo em relação ao Brasil. Une-os uma pulsão destrutiva. E, como num mau divórcio, vamos acabar todos sem nada, com uma língua destruída, em cacos, e quem se vai rir são os rivais desta língua. Há, ainda, a treta de os jornais portugueses, em vez de tomarem uma opção, permitirem aos seus cronistas que escrevam de acordo com a ortografia “x” ou “y”, o que mostra fraqueza e medo – o tal amigo do fascismo. A solução é simples: o jornal toma uma opção e quem quer escrever lá continua a fazê-lo, com toda a liberdade, mas a ortografia é a aplicada pelo jornal e acabou-se. Aqui, às vezes, o jornal tem medo de perder a sua estrela. Mas sermos consequentes moralmente implica perdas.

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