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O único português a esculpir figuras colecionáveis de estúdios como a Marvel e a DC Comics

Atualidade

Marcos Borga

Em casa de José Alves da Silva, o Homem-Aranha e o Batman não são rivais

Rosa Ruela

Rosa Ruela

Jornalista

Quando a bonecada começou a saltar da caixa de cartão, só não se ouviu um “Uau!” porque o céu carregado de nuvens nos deixara sozinhos naquela esplanada lisboeta. Sim, faltou a merecida exclamação, mas sorrimos todos, criador incluído. “O que me atrai nisto é o resultado físico”, diria ele dali a minutos, a apontar para a varinha minúscula de um Harry Potter sentado num sidecar, ao lado do meio gigante Hagrid. “Aqui, fui até ao limite do possível – se a tivesse desenhado mais fina, partia-se.”

Por esta altura, José Alves da Silva já falara da ajuda que a filha adolescente lhe dera nesta peça, que é um seus best-sellers mais recentes. Inês é uma Potter head. Quem melhor do que uma fã para o aconselhar quando ele quer desenvolver uma pose icónica ou escolher uma roupa para o jovem bruxo? “Gosto muito da interação com os meus filhos [tem mais um, com 13 anos], fomento ao máximo”, irá confessar este português que é o escultor principal da coleção de figuras da QMX, empresa norte-americana com o licenciamento dos maiores estúdios de cinema de animação do mundo – Warner, Fox, Marvel e DC Comics.

Há cinco anos que o diretor de arte com quem trabalha diretamente na Quantum Mechanix lhe dá liberdade criativa, desde que respeite as características das personagens. Sobra-lhe, ainda assim, espaço para o seu gozo maior: incluir nelas algum storytelling. São essas, aliás, as esculturas com mais êxito entre os compradores e percebe-se porquê: é como se fossem fotogramas. Olha-se para um Deadpool a tirar uma selfie com uns miniunicórnios e imagina-se logo o filme.

Se quiséssemos explicar em poucas palavras aquilo que José Alves da Silva faz no seu dia a dia, escreveríamos que esculpe em computador, das nove da manhã às seis da tarde. Ele diz que tem uma profissão como outra qualquer (“Embora mais engraçada do que ser médico ou advogado, sobretudo aos olhos da criançada”), mas espantou-se quando viu pela primeira vez um dos seus bonecos à venda em Lisboa. “Foi em outubro do ano passado, até lhe tirei uma fotografia”, ri-se.

Sempre que uma peça é produzida, a QMX envia-lhe um exemplar. O português desenhou mais de 100 e sabe que nem tudo sai como planeado. É importante ver como a escultura foi feita em fábrica, perceber o que correu bem e o que poderia ter corrido melhor. No fundo, fecha-se um ciclo.

Um salto no escuro

Olhando para trás, diz que tem tido “a sorte” de trabalhar em personagens muito icónicas, com uma base de fãs tão grande que chegam a ser produzidas 500 mil unidades de algumas figuras. Quando se avança para uma edição limitada, a reação também pode ser exacerbada. Está a ser esse o caso da peça The Batman Family, que vai custar quase 200 dólares (cerca de 175 euros) e já se tornou um best-seller, embora ainda em pré-venda. Na conta de Instagram @zeoyn, a fotografia dessa escultura foi a que até hoje mais coraçõezinhos recebeu. Não é por acaso que também ele adora este Batman e família. “Como tem 40 centímetros, podemos fazer mais detalhes”, justifica.

Aos 45 anos, os últimos dez como freelancer, José Alves da Silva olha para trás e diz que deveria ter ido para Belas-Artes, mesmo sob a ameaça velada “vais morrer de fome...”. Filho de médicos, tornou-se arquiteto mas nunca assinou um projeto. Mal se licenciou, avançou, com amigos, com uma empresa de visualização de arquitetura em 3D. Simulavam o projeto em computador – uma alternativa à maqueta, com a vantagem de se poder “entrar” nela.

Quanto mais a empresa crescia, menos ele punha a mão na massa. “A certa altura, já só trabalhava com o Excel, o Word e o telefone.” O horror. Fazia-lhe tanta falta a parte criativa que nos tempos livres, geralmente à noite e em casa, experimentava fazer também personagens em 3D. Ia partilhando o resultado na internet e ganhando alguns prémios, mas os holofotes só se viraram a sério na sua direção quando ficou em primeiro lugar num importante concurso online. Estávamos em 2009, e pouco depois decidia dar um “salto de fé” que só não era um salto no escuro porque se apercebera de que havia trabalho na área, dentro e fora de Portugal.

De início, pediam-lhe sobretudo personagens para publicidade e jogos de computador. Até que um dia foi contactado por um tal de Bob Steiner, que tinha uma impressora 3D e queria testá-la com bonecos seus. E quando a Maker Bot, a empresa nº 1 de impressoras 3D caseiras, contratou Steiner, o português esteve oito meses a desenhar figuras que desafiavam as máquinas.

O convite da QMX surgiu porque continuou sempre a colocar os seus trabalhos online, numa altura em que a indústria estava em transição, da escultura tradicional, à mão, para a digital. Cinco anos depois, acredita que encontrou o sítio onde quer estar no futuro próximo. Diz que continua inspirado nos velhos mestres como Rodin, Gustav Klimt, Ingres. É um espanto tudo o que conseguiam fazer sem Ctrl-Z. Ao pé deles, José Alves da Silva não se acha um super-herói.