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Fígado gordo: sintomas, fatores de risco e o plano de um português para combater a doença

Atualidade

O projeto europeu Foie Gras, coordenado por um investigador português, pretende encontrar um método de diagnóstico e tratamento para o fígado gordo. Um problema de saúde grave que só se manifesta quando já é tarde demais

Sara Sá

Sara Sá

Jornalista

Anos e anos de bolos, refrigerantes e fritos podem ser tão maus para a saúde do fígado como o consumo exagerado de vinho e vodka. É que o açúcar acaba por ser tão tóxico como o álcool, resultando num grave problema de saúde – fígado gordo não alcoólico (para distinguir dos casos associados ao consumo de bebidas alcoólicas). Apesar de ser uma doença que afeta cada vez mais pessoas, estimando-se que venha a tornar-se a primeira causa de transplante deste órgão nos próximos anos, não há ainda forma fácil de a diagnosticar, nem sequer um tratamento capaz de a reverter. Além disso, é um assunto do qual pouco se fala.

Paulo Oliveira, investigador do Centro de Neurociências e Biologia Celular da Universidade de Coimbra, está decidido a mudar este cenário. E tem quase três milhões e meio de euros para o fazer. O cientista coordena um megaprojeto europeu, com o muito ilustrativo nome de Fois Gras, que tem quatro grandes objetivos: identificar os mecanismos biológicos que estão na origem do problema, desenvolver um sistema de diagnóstico, testar o potencial terapêutico de uma nova molécula e espalhar a palavra à população, alertando para a forma de evitar a doença. A Europa está tão empenhada nesta missão que se juntaram 13 parceiros, de sete países, arrecadando financiamento do Programa Horizonte 2020, além de bolsas Marie Curie.

Comecemos pelo princípio e pelo que os cientistas já descobriram acerca desta doença que vai evoluindo em silêncio até se tornar uma ameaça de morte. Além de limpar o sangue de toxinas (enviando-as para o rim, que se encarrega de as eliminar), o fígado é ainda uma espécie de fábrica do corpo. É lá que os alimentos se transformam em glicose, o açúcar que é a base de funcionamento das células. É também no fígado que se armazena energia para os tempos de carestia, como se fosse a bossa de um camelo. O açúcar em excesso acaba transformado em gordura, acumulando-se no órgão (nos casos associados à bebida, é o álcool, depois de metabolizado pelo organismo, que se transforma em gordura e se acumula). Esta é, em linhas gerais, a descrição da maleita.

Mas Paulo Oliveira, bioquímico dedicado à investigação de umas importantes estruturas celulares de nome mitocôndrias, está preocupado em estudar os detalhes. Se o fígado é a fábrica de produção de energia do corpo, as mitocôndrias são as fábricas de produção de energia das células. É dentro destas estruturas em forma de feijão que o açúcar vindo dos alimentos se transforma em moléculas mais simples e que podem assim ser utilizadas pelas próprias células. “No fígado queima-se gordura e um dos locais em que isso acontece é a mitocôndria. Numa primeira fase, quando há excesso, as mitocôndrias proliferam, porque há muita energia para trabalhar. Até que, a dada altura, passam a funcionar mal e perdem a capacidade de queimar gorduras”, resume o cientista.

Círculo vicioso

É aqui que começam os problemas, com o início deste círculo vicioso. Mas pode também ser nesta fase que aparecem as soluções. Ao trabalharem de forma deficiente, as mitocôndrias libertam produtos tóxicos. E são precisamente estes materiais, libertados para a corrente sanguínea, que podem ajudar a diagnosticar a doença numa fase mais precoce. Se aparecem no sangue, é porque alguma coisa está a funcionar mal.

Os cientistas do Fois Gras também estão a tentar desenvolver um teste que passa pela análise do ar expirado, após a ingestão de um determinado produto. Se a substância aparecer no sopro significa que não foi eliminada pelo fígado, sinal de que há algo que já não está a trabalhar como devia. Outra estratégia passa pela utilização de equipamentos de infravermelhos, através dos quais se tenta perceber o que há de diferente no plasma de uma pessoa saudável – ao nível dos infravermelhos – e no de um paciente.

Para as amostras de sangue, o projeto contou com a colaboração da Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal. Precisamente porque este grupo de doentes está em maior risco de desenvolver a doença. “Obesidade, diabetes e colesterol elevado são os principais fatores de risco”, alerta o responsável do Núcleo de Estudos das Doenças do Fígado da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna, Arsénio Santos. Ou seja, é bem conhecido o perfil das vítimas de fígado gordo não alcoólico. Mas, normalmente, os sintomas aparecem numa fase já avançada da doença – “só quando há inflamação hepática é que aparecem alterações nas análises”, explica o médico.

Nesta fase, as células do fígado, hepatócitos, já estão a ser substituídas por fibroblastos. Isto significa que há cicatrização do tecido – fibrose – que evolui para cirrose e cancro. “A única coisa que podemos fazer é aconselhar o doente a seguir uma boa alimentação, manter os níveis de açúcar e colesterol no sangue controlados e a fazer exercício físico”, sublinha Arsénio Santos. É que ao fígado gordo está associado um maior risco de doença cardiovascular.

“Há mais de 20 anos, só víamos esta patologia associada ao álcool. Hoje, além destes casos, também vemos muitos outros em que há uma ligação aos hábitos de vida. Começam até a surgir problemas em crianças”, continua. Os Estados Unidos da América são o campeão do mundo em número de casos, estimando-se que haja 80 milhões de norte-americanos a sofrer desta doença crónica. Em Portugal, serão 15% dos adultos – mais de um milhão de pessoas, 200 mil das quais com a forma mais grave. O médico conclui: “Quando se consegue alterar os hábitos de vida, há uma melhoria significativa. Mas é preciso que a mudança seja consistente e permanente.”

Sintomas da doença

Fígado aumentado
Fadiga
Dor na parte superior direita do abdómen (numa fase já muito avançada)
Inchaço abdominal (ascite)
Alargamento dos vasos sanguíneosà superfície da pele
Seios aumentados (nos homens)
Icterícia

Fatores de risco

Colesterol elevado
Nível elevado de triglicerídeos
Síndrome metabólica
Obesidade (sobretudo concentrada no abdómen)
Síndrome do ovário poliquístico
Apneia do sono
Diabetes tipo 2
Hipotiroidismo