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Nos bastidores do laboratório onde se dá "vida" a animais mortos

Atualidade

Marcos Borga

No laboratório de taxidermia do Museu de História Natural, em Lisboa, há centenas de animais congelados, à espera de “voltar à vida”. Mas aqui descobrem-se outros gabinetes de curiosidades

Nesta sala do Museu Nacional de História Natural e da Ciência, em Lisboa, um esquilo repousa, inanimado, em cima de um velho jornal gratuito. Tem um ar sereno e parece dormir, mas depressa se descobre que aqui não há animais vivos. Este, atropelado no parque florestal de Monsanto, está na realidade a descongelar. Saiu há um dia de uma das sete arcas que guardam centenas de espécies entregues a esta instituição científica.

Quando já não estiver rijo, Pedro Andrade, 47 anos, há de começar a prepará-lo. “Primeiro, temos de exercitá-lo para soltar os tendões e os músculos causados pelo rigor mortis”, descreve o taxidermista. A seguir, solta-se-lhe a pele, intacta. No caso dos mamíferos, como este esquilo, há que salgá-la antes de avançar para o curtimento e para os banhos com ácidos – com estes tratamentos, a pele perde as moléculas de gordura. No final, é oleada e fica à espera de ser montada.

Entretanto, o corpo, que voltara a ser congelado, usa-se para se retirar um tecido com a respetiva amostra de ADN, para ser medido e analisado. Só depois se constrói o manequim em espuma de polietileno. “Esculpimos todos os pormenores, sem esquecer a posição em que queremos que o animal fique”, salienta. No final desta naturalização, a pele volta a ser hidratada para se conseguir esticar e vestir o corpo acabado de moldar.

Mas ainda faltam os olhos. E, em Portugal, não há quem os faça. Vale ao taxidermista poder escolher de um enorme catálogo de uma empresa alemã. Quando nem assim encontra o tipo de olho procurado, Pedro manda vir o tamanho desejado em vidro transparente e dedica-se à pintura – trabalho minucioso e artístico que tem estado a cargo da sua colega Ana Campos. A musculatura à volta do olhar, os dentes e a língua fazem-se em pasta de modelar. Tudo isto pode demorar uma semana a ser concluído. No caso das aves, por exemplo, como a sua pele não tem gordura, é muito mais fina e não precisa de curtimento, o processo torna-se mais rápido.

Obras icónicas

E quando não há corpo embrulhado em jornal para se retirar da arca, com a etiqueta que remete para a data e o local de captura e o seu estado de conservação? Pedro já construiu vários modelos anatómicos de animais que não existem.

O dodô que está há três anos neste laboratório, à espera que o taxidermista consiga penas de ganso (“eu não os mato e ninguém me arranja”) para o recuperar, é um bom exemplo. Assim como o pequeno dinossauro que, neste momento, se encontra de molho em silicone, para se lhe retirar o modelo. Mas a moa – a maior ave que já existiu –, que pode ser vista num dos recantos do museu, talvez seja a sua obra mais impactante. Para qualquer um dos casos, a investigação foi a parte mais morosa do processo. “Para a recriação, temos de estar na posse de todas as características e medidas da espécie para depois as esculpirmos numa plasticina. E tudo tem de estar cientificamente correto”, nota.

Um taxidermista que trabalhe num museu de história natural também terá de preservar animais em meio líquido. Primeiro, fixam-se em formol, para se preservar todos os órgãos e endurecer as paredes das células, deixando a sua morfologia quase intacta. Só depois serão passados para frascos com álcool, num processo de adaptação que pode levar vários dias.

Quando a pele está em mau estado ou é preciso um esqueleto, nem que seja para alguma ação didática, faz-se a preparação osteológica. Começa-se num pequeno compartimento do laboratório, muito bem ventilado por causa do cheiro intenso. Não admira: aqui cozem-se os animais numa enorme panela e retira-se-lhes a maior parte da carne. Os ossos, esses, vão dentro de água, para a estufa a 40 graus, com uma enzima que consome todos os restos orgânicos moles, em três horas. No final deste processo, põem-se os pedaços de esqueleto a secar. Depois, podem ser articulados, ou não, dependendo das necessidades.

O trabalho deste taxidermista é tão díspar como os materiais que se encontram espalhados nesta enorme sala: resinas, químicos, glicerinas, tintas, catalisadores, pinças, niveladores, alicates, secadores, serras... Mas também há muitos bichos – em frasquinhos, por baixo de panos, embrulhados em papel aderente ou em arcas congeladoras, como o esquilo que ainda repousa, intacto.

Quem diria que Pedro Andrade, depois de anos dedicado à investigação na área da Biologia, licenciatura que tirou na Universidade de Lisboa, viria a passar os seus dias metido neste laboratório, por entre animais mortos? A inspiração veio-lhe da infância e dos muitos documentários sobre vida selvagem que via na televisão e revia em cassetes VHS. A sua preferência sempre assentou na morfologia e na fisionomia dos animais.

Nunca estudou taxidermia – o termo grego que significa dar forma à pele –, porque em Portugal não existem cursos e nos EUA são muito caros. Por isso, teve de ser um autodidata, buscando conhecimento nos livros e em vídeos. Valeu a pena, pois hoje sente-se realizado. “Estou sempre a aprender, a contribuir para a Ciência, defendendo o meio ambiente e apostando na educação.”

Isto não é só embalsamar

O laboratório de taxidermia do Museu Nacional de História Natural e da Ciência tem muitas solicitações, desde modelos para cinema, encomendas de outros museus ou pedidos específicos de investigadores. O tipo de obra que sai daqui reflete essa diversidade, que já nem passa por embalsamar. Exemplos:

Recriação de espécies extintas em modelos anatómicos

Naturalização de animais mortos

Preservação de exemplares em meio líquido

Recuperação de modelos já existentes degradados pelo tempo

Preparação osteológica para fins didáticos ou para coleções científicas

Construção de dioramas, recriando, ao pormenor, os habitats dos animais

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