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Concerto: Salvador Sobral como nunca o vimos

Atualidade

O Coliseu não é uma sala qualquer. E nele, na última sexta-feira, Salvador Sobral não fez um espetáculo qualquer

Cláudia Lobo (texto) e Diana Tinoco (fotos)

Não foram precisos mais do que as primeiras palavras cantadas para ficar claro que aquele não ia ser um concerto qualquer. Ouvia-se a voz de Salvador Sobral, só a voz, mas onde está ele?

O branco da luz do holofote contrasta com a figura que ilumina - um homem de gorro preto enfiado até às orelhas e de sobretudo escuro coçado. Salvador Sobral está no camarote presidencial, em frente ao sítio onde era suposto estar, o palco. Canta 180, 181 (catarse), o tema que compôs a propósito da sua longa estadia no hospital para receber um coração novo.

O holofote apaga-se. Salvador reaparece caminhando no corredor central da plateia do Coliseu. É um vagabundo meio louco que canta (quase grita) «apaguem as máquinas, arranquem os fios!»

Salvador espetador de si próprio, como se se visse de fora, e aquele percurso fosse uma viagem do seu passado até ao presente. No tema seguinte, Change, do seu primeiro álbum, já em cima do palco, foi-se o gorro, o sobretudo, as máquinas, os fios. É Salvador hoje.

«Eu queria fingir que esta era uma noite normal, mas não é. Há duas horas que estou muito nervoso. Esta é uma noite para celebrar um disco novo, uma vida nova. E, depois de ter tocado em tantos sítios, voltar a casa e ter esta casa cheia é um privilégio», diz Salvador Sobral ao público depois de ter 'inaugurado' o novo disco com Cerca del Mar.

A partir de Presságio, um poema de Fernando Pessoa com música de Júlio Resende, o palco é definitivamente não só de Sobral, mas também dos outros três fabulosos: Júlio Resende no piano (que o público aplaude de forma especial), André Rosinha no contrabaixo e Bruno Pedroso na bateria. E a voz, claro, de Sobral. Que, quando não está a cantar, se afasta do centro do palco (às vezes naqueles seus gestos e passinhos staccatos, para dançar de forma gigada na sombra) e lhes dá espaço e tempo. Tal como no jazz, aqui há todo o tempo do mundo, para todos.

Um quarteto de cordas, com Ana Pereira como primeiro violino, sobe ao palco para a primeira supresa da noite. Ouve-se Grandes Ilusiones, outro tema em espanhol do disco Paris, Lisboa. E a surpresa traz outra surpresa: um tema novo. Sobral explica que escreveu sobre a relação que tem com a mulher, que vive noutro país, em Paris, Tokyo II, mas que a irmã compôs uma canção bem mais bonita sobre o mesmo assunto. «A minha irmã é como se fosse a Telepizza: ligo-lhe, peço-lhe uma canção, ela pergunta-me o que quero na canção e 60 minutos depois entrega-ma». O público do Coliseu solta-se em gargalhadas, para, pouco depois, fazer silêncio total e arrepiar-se com Estrada Dividida, o tal tema novo composto por Luísa Sobral, com arranjo de Filipe Melo. «O meu pai está a chorar é isso é ótimo sinal», diz no final o cantor.

O lado de entertainer de Salvador Sobral está sempre presente. Gosta de falar com o público, de fazer comentários, é expressivo e gestual quando canta, não se coíbe de mexer o corpo, tem uma teatralidade espontânea e inata. E não haverá uma música em todo o espetáculo, nem uma, cuja versão seja igual à dos discos.

O dueto com António Zambujo, com quem canta, além de Mano a Mano, Só um Beijo, tema do último disco de Luísa Sobral, arranca aplausos em pé de grande parte da sala.

Já nos encores, depois de hora e meia de concerto, percorridos de forma magistral praticamente todos os temas dos dois discos, o quarteto de cordas volta ao palco para ouvirmos o arranjo original de Amar Pelos Dois. (Se o público não lhe perdoaria não ouvir a canção, Sobral encontrou uma forma inteligente - porque diferente - de a colocar no alinhamento.)

Mas para o final há ainda mais surpresas. Um tema novo, só com Júlio Resende. E à intimidade da voz e do piano segue-se a festa: Sobral chama ao palco o seu grande amigo, «meu irmão», Leonardo Aldrey (autor de vários dos seus temas). «Vamos tocar como tocávamos em Barcelona».

Descem para a plateia. Completamente rodeados de público, avançam para Anda Estragar-me os Planos, o tema que fecha o disco Paris, Lisboa. O cavaquinho (ou será um rajão?) de Aldrey, a voz de Sobral, as palmas das pessoas, «Já tenho a minha conta de serões serenos/ Quero ir dançar». É uma enorme festa.

O desespero do vagabundo que quase duas horas antes tinha passado por aquela plateia deu lugar à vida. Fabulosos quatro.

Diana Tinoco

Salvador Sobral tocou no Coliseu de Lisboa a 10 de maio e no do Porto no dia 11.